CAPÍTULO 9. Lamentação dos frades e sua alegria ao lhe descobrirem os sinais da cruz. As asas do Serafim

112. Acorreram as multidões louvando a Deus e dizendo: "Louvado e bendito sejas, Senhor nosso Deus, que a nós indignos confiaste tão santos despojos! Louvor e glória a ti, Trindade inefável!"

A cidade de Assis veio em peso, e a região inteira acorreu para contemplar os prodígios divinos que o Senhor da majestade realizara gloriosamente no seu santo servo. Cada um entoava seu canto de alegria, conforme lhe inspirava a alegria do coração, e todos bendiziam a onipotência do Salvador que tinha cumprido seus desejos. Mas os filhos choravam por ter perdido semelhante pai e mostravam com lágrimas e suspiros a piedosa afeição de seus corações.

Mas um gozo inaudito temperava a tristeza e a singularidade do milagre enchera-os de assombro. Mudou-se o luto em cântico e o pranto em júbilo. Nunca tinham ouvido falar nem tinham lido sobre o que seus olhos estavam agora vendo. Se o testemunho não fosse tão evidente, mal poderiam acreditar. Brilhava nele uma representação da cruz e da paixão do Cordeiro imaculado, que lavou os crimes do mundo, parecendo que tinha sido tirado havia pouco da cruz, com as mãos e os pés atravessados pelos cravos e o lado como que ferido por uma lança.

Contemplavam sua pele, escura em vida, brilhando de alvura, e confirmando por sua beleza o prêmio da bem-aventurada ressurreição. Viam seu rosto como o de um anjo, como se estivesse vivo e não morto, e seus membros tinham adquirido a flexibilidade e a contextura de uma criança. Seus nervos não se contraíram, como acontece com os mortos. A pele não se endureceu e os membros não se enrijeceram, mas dobravam para onde se quisesse.

113. Resplandecendo essa admirável beleza diante de todos os que assistiam, e como sua carne tinha ficado mais alva, era admirável ver em suas mãos e pés não as feridas dos cravos mas os próprios cravos, formados por sua carne, com a cor escura do ferro, e o seu lado direito rubro de sangue. Os sinais do martírio não incutiam horror nos que olhavam, mas emprestavam muita beleza e graça, como pedrinhas pretas num pavimento branco.

Acorriam os frades seus filhos e, chorando, beijavam as mãos e os pés do piedoso pai que os deixava, e também o lado direito, cuja chaga era uma lembrança preclara daquele que também derramou sangue e água desse mesmo lugar e assim nos reconciliou com o Pai. As pessoas do povo achavam que era o maior favor serem admitidas não apenas para beijar mas até só para ver os sagrados estigmas de Jesus Cristo, que São Francisco trazia em seu corpo.

Quem, diante dessa visão, não seria levado mais à alegria do que ao pranto? Se alguém chorava era mais pelo gozo que pela dor. Quem teria um coração de ferro para ficar sem gemer? Quem teria um coração de pedra, que não se partisse de compunção, não se acendesse pelo amor divino, não se enchesse de boa vontade? Quem poderia ser tão duro e insensível que não chegasse a entender que o santo, honrado na terra por esse privilégio especial, devia ser exaltado no céu com uma glória inefável?

114. Ó dom singular, sinal de predileção: o soldado estava ornado com as mesmas armas gloriosas que cabiam unicamente ao Rei por sua altíssima dignidade! O' milagre digno de eterna memória, prodígio para ser admirado reverentemente sem cessar, porque representa aos olhos da fé o mistério em que o sangue do Cordeiro imaculado correu copiosamente pelas cinco chagas e lavou os crimes do mundo! O' esplendor sublime de uma cruz vivificante, que dá vida aos mortos, cujo peso oprime com tanta suavidade e fere com tanta doçura que faz o corpo morto reviver e dá força ao espírito combalido! Amou-te muito aquele que ornaste com tanta glória!

Glória e bênção sejam dadas só ao Deus sábio que renova os sinais e muda as maravilhas, para que a mente dos fracos se console com as novas revelações, e para que, pela prodígio das coisas visíveis, seu coração seja arrebatado de amor pelas coisas invisíveis! Estupendo e amável desígnio de Deus! Para prevenir as desculpas da nossa incredulidade diante dararidade do prodígio, quis primeiro realizar naquele que veio do céu o milagre que Ele ia fazer pouco depois num habitante da terra! Assim quis o Pai de misericórdia mostrar que prêmio merece quem procura amá-lo de todo o coração, pois o colocou na mais elevada ordem de espíritos celestes, a que dele está mais próxima.

Também nós chegaremos lá, sem dúvida nenhuma, se, à maneira do Serafim, estendermos duas asas acima da cabeça: isto é, se como São Francisco dirigirmos para Deus uma intenção pura e um reto modo de agir em toda obra boa, tratando infatigavelmente de agradá-lo acima de tudo. Elas têm que se juntar para velar a cabeça, porque o Pai das luzes, que disse: "Se o teu olho for puro, todo o teu corpo será luminoso, mas se for mau, todo o teu corpo será tenebroso" não vai aceitar como boa uma obra feita sem reta intenção, e de nada valerá a reta intenção que não levar a uma obra boa. Não é puro o olho que não vê o que deve por falta de conhecimento da verdade, ou que olha para o que não deve ver, por falta de intenção pura. No primeiro caso, não é puro mas cego, e no segundo, está claro que é mau. As penas dessas asas são o amor do Pai, que salva com misericórdia, e o temor do Senhor, que julga com inflexibilidade: elas é que devem suspender das coisas terrenas o pensamento dos eleitos, reprimindo as tendências más e suscitando castos sentimentos.

Outras duas asas são para voar e cumprir o duplo dever de caridade para com o próximo: alimentar-lhe a alma com a palavra de Deus e sustentar-lhe o corpo com os recursos da terra. Estas asas raramente se juntam, porque é difícil para uma só pessoa cumprir as duas tarefas. Suas penas são as diversas obras necessárias para aconselhar e ajudar o próximo.

Com as duas últimas asas, devemos envolver o corpo despido de merecimentos. Nós o conseguimos se, todas as vezes que tiver sido despido pelo pecado, o revestirmos de inocência pela contrição e a confissão. Suas penas são os múltiplos afetos que nascem da execração do pecado e da sede de justiça.

115. O bem-aventurado pai São Francisco, que teve a imagem e a forma de um Serafim, fez tudo isso com perfeição, porque perseverou na cruz e mereceu voar para a altura dos espíritos sublimes. Viveu sempre na cruz, sem fugir jamais das fadigas ou sofrimentos, para poder cumprir por si mesmo e na sua pessoa a vontade de Deus.

Os frades que conviveram com ele sabem, além disso, que estava todos os dias e a toda hora falando sobre Jesus, e como seu jeito de falar era doce, suave, bondoso e cheio de amor. Falava da abundância do coração, e estava sempre transbordando a fonte de amor iluminado que lhe enchia todo o interior. Tinha Jesus de muitos modos: levava sempre Jesus no coração, Jesus na boca, Jesus nos ouvidos, Jesus nos olhos, Jesus nas mãos, Jesus em todos os outros membros.

Quantas vezes, sentado para o almoço, esquecia o alimento corporal se ouvia o nome de Jesus, ou o mencionava, ou pensava nele. Como lemos a respeito de um santo: "Olhava, mas não via; ouvia mas não escutava. Também foram muitas as vezes em que estava viajando e, pensando em Jesus ou cantando para ele, esquecia- se do caminho e convidava todas as criaturas a louvarem a Jesus. E porque conservava sempre com amor admirável em seu coração Cristo Jesus, e Jesus crucificado, foi marcado por seu sinal com uma glória superior à de todos os outros. Em êxtases, contemplava-o numa glória indizível e incompreensível, sentado à direita do Pai, com o qual, Filho do Altíssimo e igualmente Altíssimo, na unidade do Espírito Santo vive e reina, vence e impera, Deus eternamente glorioso por todos os séculos dos séculos. Amém.