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112. Acorreram as multidões louvando a Deus e dizendo:
"Louvado e bendito sejas, Senhor nosso Deus, que a nós indignos
confiaste tão santos despojos! Louvor e glória a ti, Trindade
inefável!"
A cidade de Assis veio em peso, e a região inteira acorreu para
contemplar os prodígios divinos que o Senhor da majestade realizara
gloriosamente no seu santo servo. Cada um entoava seu canto de
alegria, conforme lhe inspirava a alegria do coração, e todos
bendiziam a onipotência do Salvador que tinha cumprido seus desejos.
Mas os filhos choravam por ter perdido semelhante pai e mostravam com
lágrimas e suspiros a piedosa afeição de seus corações.
Mas um gozo inaudito temperava a tristeza e a singularidade do milagre
enchera-os de assombro. Mudou-se o luto em cântico e o pranto em
júbilo. Nunca tinham ouvido falar nem tinham lido sobre o que seus
olhos estavam agora vendo. Se o testemunho não fosse tão evidente,
mal poderiam acreditar. Brilhava nele uma representação da cruz e da
paixão do Cordeiro imaculado, que lavou os crimes do mundo,
parecendo que tinha sido tirado havia pouco da cruz, com as mãos e os
pés atravessados pelos cravos e o lado como que ferido por uma lança.
Contemplavam sua pele, escura em vida, brilhando de alvura, e
confirmando por sua beleza o prêmio da bem-aventurada ressurreição.
Viam seu rosto como o de um anjo, como se estivesse vivo e não
morto, e seus membros tinham adquirido a flexibilidade e a contextura
de uma criança. Seus nervos não se contraíram, como acontece com
os mortos. A pele não se endureceu e os membros não se enrijeceram,
mas dobravam para onde se quisesse.
113. Resplandecendo essa admirável beleza diante de todos os que
assistiam, e como sua carne tinha ficado mais alva, era admirável ver
em suas mãos e pés não as feridas dos cravos mas os próprios
cravos, formados por sua carne, com a cor escura do ferro, e o seu
lado direito rubro de sangue. Os sinais do martírio não incutiam
horror nos que olhavam, mas emprestavam muita beleza e graça, como
pedrinhas pretas num pavimento branco.
Acorriam os frades seus filhos e, chorando, beijavam as mãos e os
pés do piedoso pai que os deixava, e também o lado direito, cuja
chaga era uma lembrança preclara daquele que também derramou sangue e
água desse mesmo lugar e assim nos reconciliou com o Pai. As pessoas
do povo achavam que era o maior favor serem admitidas não apenas para
beijar mas até só para ver os sagrados estigmas de Jesus Cristo,
que São Francisco trazia em seu corpo.
Quem, diante dessa visão, não seria levado mais à alegria do que
ao pranto? Se alguém chorava era mais pelo gozo que pela dor. Quem
teria um coração de ferro para ficar sem gemer? Quem teria um
coração de pedra, que não se partisse de compunção, não se
acendesse pelo amor divino, não se enchesse de boa vontade? Quem
poderia ser tão duro e insensível que não chegasse a entender que o
santo, honrado na terra por esse privilégio especial, devia ser
exaltado no céu com uma glória inefável?
114. Ó dom singular, sinal de predileção: o soldado estava
ornado com as mesmas armas gloriosas que cabiam unicamente ao Rei por
sua altíssima dignidade! O' milagre digno de eterna memória,
prodígio para ser admirado reverentemente sem cessar, porque
representa aos olhos da fé o mistério em que o sangue do Cordeiro
imaculado correu copiosamente pelas cinco chagas e lavou os crimes do
mundo! O' esplendor sublime de uma cruz vivificante, que dá vida
aos mortos, cujo peso oprime com tanta suavidade e fere com tanta
doçura que faz o corpo morto reviver e dá força ao espírito
combalido! Amou-te muito aquele que ornaste com tanta glória!
Glória e bênção sejam dadas só ao Deus sábio que renova os
sinais e muda as maravilhas, para que a mente dos fracos se console com
as novas revelações, e para que, pela prodígio das coisas
visíveis, seu coração seja arrebatado de amor pelas coisas
invisíveis! Estupendo e amável desígnio de Deus! Para prevenir
as desculpas da nossa incredulidade diante dararidade do prodígio,
quis primeiro realizar naquele que veio do céu o milagre que Ele ia
fazer pouco depois num habitante da terra! Assim quis o Pai de
misericórdia mostrar que prêmio merece quem procura amá-lo de todo o
coração, pois o colocou na mais elevada ordem de espíritos
celestes, a que dele está mais próxima.
Também nós chegaremos lá, sem dúvida nenhuma, se, à maneira do
Serafim, estendermos duas asas acima da cabeça: isto é, se como
São Francisco dirigirmos para Deus uma intenção pura e um reto
modo de agir em toda obra boa, tratando infatigavelmente de agradá-lo
acima de tudo. Elas têm que se juntar para velar a cabeça, porque o
Pai das luzes, que disse: "Se o teu olho for puro, todo o teu
corpo será luminoso, mas se for mau, todo o teu corpo será
tenebroso" não vai aceitar como boa uma obra feita sem reta
intenção, e de nada valerá a reta intenção que não levar a uma
obra boa. Não é puro o olho que não vê o que deve por falta de
conhecimento da verdade, ou que olha para o que não deve ver, por
falta de intenção pura. No primeiro caso, não é puro mas cego, e
no segundo, está claro que é mau. As penas dessas asas são o amor
do Pai, que salva com misericórdia, e o temor do Senhor, que julga
com inflexibilidade: elas é que devem suspender das coisas terrenas o
pensamento dos eleitos, reprimindo as tendências más e suscitando
castos sentimentos.
Outras duas asas são para voar e cumprir o duplo dever de caridade
para com o próximo: alimentar-lhe a alma com a palavra de Deus e
sustentar-lhe o corpo com os recursos da terra. Estas asas raramente
se juntam, porque é difícil para uma só pessoa cumprir as duas
tarefas. Suas penas são as diversas obras necessárias para
aconselhar e ajudar o próximo.
Com as duas últimas asas, devemos envolver o corpo despido de
merecimentos. Nós o conseguimos se, todas as vezes que tiver sido
despido pelo pecado, o revestirmos de inocência pela contrição e a
confissão. Suas penas são os múltiplos afetos que nascem da
execração do pecado e da sede de justiça.
115. O bem-aventurado pai São Francisco, que teve a imagem e a
forma de um Serafim, fez tudo isso com perfeição, porque perseverou
na cruz e mereceu voar para a altura dos espíritos sublimes. Viveu
sempre na cruz, sem fugir jamais das fadigas ou sofrimentos, para
poder cumprir por si mesmo e na sua pessoa a vontade de Deus.
Os frades que conviveram com ele sabem, além disso, que estava todos
os dias e a toda hora falando sobre Jesus, e como seu jeito de falar
era doce, suave, bondoso e cheio de amor. Falava da abundância do
coração, e estava sempre transbordando a fonte de amor iluminado que
lhe enchia todo o interior. Tinha Jesus de muitos modos: levava
sempre Jesus no coração, Jesus na boca, Jesus nos ouvidos,
Jesus nos olhos, Jesus nas mãos, Jesus em todos os outros
membros.
Quantas vezes, sentado para o almoço, esquecia o alimento corporal
se ouvia o nome de Jesus, ou o mencionava, ou pensava nele. Como
lemos a respeito de um santo: "Olhava, mas não via; ouvia mas não
escutava. Também foram muitas as vezes em que estava viajando e,
pensando em Jesus ou cantando para ele, esquecia- se do caminho e
convidava todas as criaturas a louvarem a Jesus. E porque conservava
sempre com amor admirável em seu coração Cristo Jesus, e Jesus
crucificado, foi marcado por seu sinal com uma glória superior à de
todos os outros. Em êxtases, contemplava-o numa glória indizível
e incompreensível, sentado à direita do Pai, com o qual, Filho do
Altíssimo e igualmente Altíssimo, na unidade do Espírito Santo
vive e reina, vence e impera, Deus eternamente glorioso por todos os
séculos dos séculos. Amém.
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