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119. No vigésimo ano de sua conversão, dando um fecho melhor ao
que começara tão bem, o glorioso Pai Francisco entregou todo feliz
o seu espírito ao céu. Lá, coroado de glória e honra, tem um
lugar no meio das pedras de fogo, junto ao trono da Divindade, e
cuida eficazmente de atender às necessidades daqueles que deixou aqui
na terra. De fato, o que poderia ser negado a quem, pela impressão
dos sagrados estigmas, tornou-se uma cópia daquele que, igual ao
Pai, senta-se à direita de sua majestade nas alturas, esplendor da
glória e figura da substância de Deus, realizando a purificação
dos pecados? Como não será atendido aquele que, configurado à
morte de Jesus Cristo por ter partilhado de seus padecimentos,
reapresenta as sagradas chagas das mãos, dos pés e do lado?
Na realidade, ele já está inundando todo o mundo com uma alegria
nova e a todos oferece os meios de verdadeira salvação. Irradia o
mundo com a luz claríssima dos milagres, e com o fulgor de um
verdadeiro astro ilustra o universo inteiro. Esse mundo tinha chorado
havia pouco como se, privado de sua presença, tivesse caído num
abismo de trevas. Mas agora já sabe que saiu das trevas, iluminado
por raios mais brilhantes ao nascer de uma nova luz, como se fosse
meio-dia. Graças a Deus, já deixamos de lamentá-lo, porque
todos os dias e em todos os lugares nós nos vemos abundantemente
cumulados de novas alegrias pelas virtudes que dele recebemos. Do
oriente e do ocidente, do sul e do norte apresentam-se pessoas para
testemunhar que foram socorridas por suas graças.
Foi justamente por isso que Francisco, apaixonado pelos bens
eternos, nunca se apropriou de nada enquanto viveu neste mundo, para
possuir com maior plenitude e prazer o Bem Universal. Não não quis
possuir a parte e teve o todo, recebendo a eternidade em troca do
tempo. Ele, que tanto amava a união, desconhece parcialidades:
ajuda a todos em todo o mundo, em toda parte está junto de todos.
120. Quando vivia entre os pecadores, percorreu o mundo para
pregar; agora, que reina com os anjos do céu, voa mais rápido que o
pensamento, mensageiro do grande Rei, para prestar a todos os povos
seus benefícios gloriosos. Por isso a humanidade inteira o honra,
venera, glorifica e louva: todos recebem de sua bondade.
Quem poderia contar todos os milagres que Deus se dignou operar por
meio ele em todo o mundo? São incontáveis, por exemplo, as
maravilhas que São Francisco fez só na França, onde o rei, a
rainha e todos os grandes acorrem para beijar e venerar o travesseiro
que o santo usou quando esteve doente. Lá, até os sábios e os
homens mais cultos do mundo, que são mais numerosos em Paris do que
em toda a terra, veneram, admiram e cultuam Francisco, homem simples
e amigo de toda verdadeira simplicidade e sinceridade.
Foi um verdadeiro "Francisco" porque teve, como ninguém, um
coração franco e nobre. Os que tiveram contato com o seu grande
coração sabem que foi um homem livre, sempre liberal, que em tudo
foi firme e corajoso, desprezando com virtude e fervor tudo que não
fosse eterno.
Que direi de outros países, em que o simples uso de seu cordão cura
doenças, afugenta malefícios, e onde homens e mulheres estão
conseguindo livrar-se de problemas só de invocar o seu nome?
121. Junto de seu túmulo estão acontecendo continuamente novos
milagres. As preces são insistentes e são muitos os benefícios
obtidos para as almas e os corpos. Os cegos vêem, os surdos ouvem,
os coxos andam, os mudos falam, salta o que sofria de gota, limpa-se
o leproso, volta o hidrópico ao normal. Os que sofrem males das mais
variadas doenças obtêm a desejada saúde. Seu corpo morto cura
corpos vivos, como em vida ele ressuscitava almas mortas.
Chegou tudo isso aos ouvidos do Romano Pontífice, o maior de todos
os bispos, guia dos cristãos, senhor do mundo, pastor da Igreja,
ungido do Senhor e Vigário de Cristo. Naturalmente, ele ficou
exultante, festejando feliz essa renovação da Igreja de Deus em seu
tempo por mistérios novos que são milagres antigos, e isso em um
filho seu, que gerou em seu seio, acalentou em seus braços,
amamentou com a palavra e educou com o alimento da salvação.
Ouviram-no também os outros guardiães da Igreja, os veneráveis
cardeais, que são pastores do rebanho, defensores da fé, amigos do
esposo, seus colaboradores e sustentáculos do mundo. Também eles se
congratularam com a Igreja, alegraram-se com o Papa, glorificaram o
Salvador, que com suma e inefável sabedoria, com graça superior e
incompreensível, com a maior e mais inestimável bondade escolheu o
que era estulto e sem nobreza neste mundo para atrair os poderosos.
Afinal, teve conhecimento e aplaudiu o mundo inteiro com todos os
reinos da cristandade, e todos transbordaram de alegria e se encheram
de santa consolação.
122. Mas, de repente, houve uma reviravolta e o mundo viu surgir
um novo problema. Foi-se num momento o prazer da paz, acendeu-se a
inveja e a Igreja foi ferida por uma guerra dentro da própria casa.
Os romanos, povo sedicioso e feroz, atacam como de costume seus
vizinhos e estendem temerariamente suas mãos para as coisas sagradas.
Como uma torre bem armada, esforça-se o egrégio papa Gregório por
conter o mal nascente, reprimir a crueldade e domar a violência para
defender a Igreja de Cristo. Mas os males aumentam e a violência
cresce. Mesmo em outras partes do mundo levanta-se contra Deus a
cerviz dos pecadores. Que fazer? Avaliando a situação e prevendo o
futuro com muita experiência, o Papa decide abandonar Roma aos
revoltosos para livrar e defender o resto do mundo.
Foi para Rieti, onde o receberam com as devidas honras. Daí passou
para Espoleto, honrado por todos com grande reverência. Depois de
alguns dias, atento à situação da Igreja e acompanhado pelos
veneráveis cardeais, teve a bondade de ir visitar as servas de
Cristo, mortas e sepultadas para o mundo. Sua vida santa, a pobreza
altíssima e o gênero de vida perfeito comoveram o Papa e os outros
até as lágrimas, incitando-os ao desapego do mundo e a uma vida
consagrada.
Ó humildade, mãe amável de todas as virtudes! O príncipe de toda
a terra, sucessor do príncipe dos apóstolos, visita as pobrezinhas,
desce até aquelas desprezadas e humildes encarceradas! De fato, foi
uma humildade digna do maior apreço, sem exemplo anterior, jamais
vista em outros tempos.
123. Mas tem pressa de chegar a Assis, onde está o tesouro para
ele precioso, onde espera livrar-se dos sofrimentos e desgraças que o
ameaçam. Sua chegada foi um júbilo para toda a região. Exultou a
cidade, festejaram as multidões, e o dia claro ficou ainda mais
luminoso com a presença dos ilustres visitantes. Foram todos ao seu
encontro em solene cortejo. Veio também o grupo piedoso dos pobres
frades, e todos entoavam belos cânticos para o ungido do Senhor.
Assim que chegou, o Vigário de Cristo foi saudar com alegre
reverência o sepulcro de São Francisco. Suspirou, bateu no
peito, chorou e inclinou sua cabeça veneranda com a maior devoção.
Cuidou-se então solenemente da canonização do santo, e começou a
haver muitas reuniões de uma ilustre comissão de cardeais para tratar
do assunto. Vieram de toda parte muitas pessoas que tinham sido
livradas de seus achaques pelo santo, e uma multidão enorme de
milagres começou a brilhar: foram todos examinados, discutidos,
acolhidos e aprovados.
Nesse ínterim, os negócios reclamam a presença do Papa em
Perúsia, mas ele volta a Assis com maior e especial benevolência
por tão importante causa. Tem que ir outra vez a Perusa, onde se
realiza uma reunião dos cardeais em seus aposentos. Todos estão
unanimente de acordo. Lêem os milagres e sua veneração aumenta.
Enaltecem a vida e a conversão do bem-aventurado pai com os maiores
elogios.
124. "A santidade deste homem - dizem - não precisa do
testemunho dos milagres, pois nós mesmos a vimos com nossos olhos,
tocamos com nossas mãos e comprovamos sua verdade". Todos se
comovem, aplaudem, choram lágrimas carregadas de paz. Tratam de
marcar logo o dia abençoado em que encheriam todo o mundo de gáudio
salutar.
E chega finalmente o dia solene, para sempre memorável, estendendo a
mais sublime comemoração não só a todos os países mas até às
moradas lá do céu. Foram convocados os bispos, acorreram abades e
vieram prelados dos lugares mais distantes. Havia até um rei e se
reuniu uma nobre multidão de condes e cavalheiros. Acompanhavam todos
ao senhor de todo o mundo e entraram com ele na cidade de Assis em
triunfal cortejo. Chegando ao local preparado para o solene
acontecimento, juntaram-se ao santo Padre todos os cardeais, bispos
e abades. Houve grande acorrência de sacerdotes e clérigos,
reuniu-se um grupo sagrado e feliz de religiosos, estiveram presentes
as religiosas, humildes e recatadas, juntou- se uma multidão quase
incontável de homens e mulheres. Pessoas de todas as idades se
fizeram animadamente presentes a tão extraordinário encontro,
juntando-se lado a lado pequenos e grandes, servos e livres.
125. Presidia o Sumo Pontífice, esposo da Igreja de Cristo,
cercado pela variedade de tantos filhos, com a coroa de glória em sua
cabeça, sinal expresso da santidade. Estava ornado com os paramentos
pontificais e revestido das vestes de santidade, com faixas bordadas a
ouro e pedras preciosas. Refulgente na magnificência da glória,
coberto de pedras brilhantes e preciosas, o ungido do Senhor chamava a
atenção de todos. Rodeavam-no os cardeais e bispos, ornados com os
adereços mais esplêndidos e refulgindo de brancura, dando uma idéia
da beleza celeste e representando a alegria dos glorificados. O povo
inteiro aguardava a voz do gáudio, a voz da alegria, a voz nova, a
voz cheia de toda doçura, a voz do louvor, a voz da bênção
perene.
Falou em primeiro lugar o Papa Gregório, dirigindo-se a todo o
povo com voz vibrante e afetuosa para anunciar as maravilhas de Deus.
Depois, fez um nobilíssimo elogio do pai Francisco, cobrindo-se de
lágrimas ao recordar sua conversão e proclamar sua simplicidade. Foi
assim que começou: "Como a estrela da manhã por entre as núvens,
como a lua resplandecente no plenilúnio, como o sol a brilhar, assim
refulgiu este homem no templo de Deus".
Terminado o sermão, fiel e digno de todo louvor, um dos subdiáconos
do senhor Papa, chamado Otaviano, leu para todos em voz bem alta os
milagres do santo. Comentou-os, depois, todo comovido e com sagrada
eloquência, o senhor Rainério, cardeal-diácono, homem de
inteligência perspicaz, honrado por seus costumes e virtude. Estava
feliz o pastor da Igreja e, profundamente comovido, soltava grandes
suspiros, entre soluços e abundantes lágrimas. Também os outros
prelados da Igreja choravam banhando de lágrimas os paramentos.
Chorava afinal o povo todo, bastante fatigado na ansiosa espera.
126. Clamou afinal o Papa em voz alta e, estendendo as mãos para
o céu, disse: "Para louvor e glória de Deus todo poderoso,
Pai, Filho e Espírito Santo, da gloriosa Virgem Maria, dos
santos apóstolos Pedro e Paulo, e para honra da gloriosa Igreja
Romana, venerando na terra o bem-aventurado pai Francisco, a quem
Deus glorificou no céu, tendo ouvido o conselho de nossos irmãos e
de outros prelados, decretamos que ele seja incluído no catálogo dos
santos e que sua festa seja celebrada no dia de sua morte".
Ouvidas essas palavras, os reverendos cardeais começaram a cantar em
voz alta, com o senhor Papa, o Te Deum laudamus. Juntou-se o
clamor de todo aquele povo, louvando a Deus. Reboou a terra,
encheu-se o ar de júbilo, molhou-se o chão de lágrimas. Entoavam
cânticos novos e os servos de Deus se rejubilavam com a melodia do
espírito. Os hinos espirituais eram cantados com voz melodiosa,
acompanhados por maviosos instrumentos musicais. Respirava-se um
agradável perfume e pairava no ar uma doce melodia, que a todos
deixava comovidos. O dia era esplêndido e radiante com as cores mais
maravilhosas. Verdes estavam as oliveiras e cobertas todas as árvores
de folhagem renovada. A ornamentação festiva refulgia no rosto das
pessoas e a bênção da paz alegrava os corações de todos os
presentes.
No fim, o feliz Papa Gregório desceu do trono e entrou no
santuário pela escadaria inferior, para oferecer os votos e
sacrifícios. Beijou com alegria a tumba que encerrava o corpo sagrado
e dedicado ao Senhor. Fez repetidas preces, celebrou os mistérios
sagrados. Rodeava-o a coroa dos irmãos, louvando, adorando e
bendizendo a Deus onipotente, que realizou portentos em toda a terra.
O povo inteiro repetia os louvores de Deus e em honra da Trindade
excelsa rendeu graças a São Francisco. Amém.
Tudo isso aconteceu na cidade de Assis, no segundo ano do pontificado
do Senhor Papa Gregório IX, a 16 de julho de 1228.
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