TERCEIRO LIVRO


COMEÇA O TERCEIRO LIVRO, SOBRE A CANONIZAÇÃO DO BEM-AVENTURADO PAI SÃO FRANCISCO E SEUS MILAGRES

119. No vigésimo ano de sua conversão, dando um fecho melhor ao que começara tão bem, o glorioso Pai Francisco entregou todo feliz o seu espírito ao céu. Lá, coroado de glória e honra, tem um lugar no meio das pedras de fogo, junto ao trono da Divindade, e cuida eficazmente de atender às necessidades daqueles que deixou aqui na terra. De fato, o que poderia ser negado a quem, pela impressão dos sagrados estigmas, tornou-se uma cópia daquele que, igual ao Pai, senta-se à direita de sua majestade nas alturas, esplendor da glória e figura da substância de Deus, realizando a purificação dos pecados? Como não será atendido aquele que, configurado à morte de Jesus Cristo por ter partilhado de seus padecimentos, reapresenta as sagradas chagas das mãos, dos pés e do lado?

Na realidade, ele já está inundando todo o mundo com uma alegria nova e a todos oferece os meios de verdadeira salvação. Irradia o mundo com a luz claríssima dos milagres, e com o fulgor de um verdadeiro astro ilustra o universo inteiro. Esse mundo tinha chorado havia pouco como se, privado de sua presença, tivesse caído num abismo de trevas. Mas agora já sabe que saiu das trevas, iluminado por raios mais brilhantes ao nascer de uma nova luz, como se fosse meio-dia. Graças a Deus, já deixamos de lamentá-lo, porque todos os dias e em todos os lugares nós nos vemos abundantemente cumulados de novas alegrias pelas virtudes que dele recebemos. Do oriente e do ocidente, do sul e do norte apresentam-se pessoas para testemunhar que foram socorridas por suas graças.

Foi justamente por isso que Francisco, apaixonado pelos bens eternos, nunca se apropriou de nada enquanto viveu neste mundo, para possuir com maior plenitude e prazer o Bem Universal. Não não quis possuir a parte e teve o todo, recebendo a eternidade em troca do tempo. Ele, que tanto amava a união, desconhece parcialidades: ajuda a todos em todo o mundo, em toda parte está junto de todos.

120. Quando vivia entre os pecadores, percorreu o mundo para pregar; agora, que reina com os anjos do céu, voa mais rápido que o pensamento, mensageiro do grande Rei, para prestar a todos os povos seus benefícios gloriosos. Por isso a humanidade inteira o honra, venera, glorifica e louva: todos recebem de sua bondade.

Quem poderia contar todos os milagres que Deus se dignou operar por meio ele em todo o mundo? São incontáveis, por exemplo, as maravilhas que São Francisco fez só na França, onde o rei, a rainha e todos os grandes acorrem para beijar e venerar o travesseiro que o santo usou quando esteve doente. Lá, até os sábios e os homens mais cultos do mundo, que são mais numerosos em Paris do que em toda a terra, veneram, admiram e cultuam Francisco, homem simples e amigo de toda verdadeira simplicidade e sinceridade.

Foi um verdadeiro "Francisco" porque teve, como ninguém, um coração franco e nobre. Os que tiveram contato com o seu grande coração sabem que foi um homem livre, sempre liberal, que em tudo foi firme e corajoso, desprezando com virtude e fervor tudo que não fosse eterno.

Que direi de outros países, em que o simples uso de seu cordão cura doenças, afugenta malefícios, e onde homens e mulheres estão conseguindo livrar-se de problemas só de invocar o seu nome?

121. Junto de seu túmulo estão acontecendo continuamente novos milagres. As preces são insistentes e são muitos os benefícios obtidos para as almas e os corpos. Os cegos vêem, os surdos ouvem, os coxos andam, os mudos falam, salta o que sofria de gota, limpa-se o leproso, volta o hidrópico ao normal. Os que sofrem males das mais variadas doenças obtêm a desejada saúde. Seu corpo morto cura corpos vivos, como em vida ele ressuscitava almas mortas.

Chegou tudo isso aos ouvidos do Romano Pontífice, o maior de todos os bispos, guia dos cristãos, senhor do mundo, pastor da Igreja, ungido do Senhor e Vigário de Cristo. Naturalmente, ele ficou exultante, festejando feliz essa renovação da Igreja de Deus em seu tempo por mistérios novos que são milagres antigos, e isso em um filho seu, que gerou em seu seio, acalentou em seus braços, amamentou com a palavra e educou com o alimento da salvação. Ouviram-no também os outros guardiães da Igreja, os veneráveis cardeais, que são pastores do rebanho, defensores da fé, amigos do esposo, seus colaboradores e sustentáculos do mundo. Também eles se congratularam com a Igreja, alegraram-se com o Papa, glorificaram o Salvador, que com suma e inefável sabedoria, com graça superior e incompreensível, com a maior e mais inestimável bondade escolheu o que era estulto e sem nobreza neste mundo para atrair os poderosos. Afinal, teve conhecimento e aplaudiu o mundo inteiro com todos os reinos da cristandade, e todos transbordaram de alegria e se encheram de santa consolação.

122. Mas, de repente, houve uma reviravolta e o mundo viu surgir um novo problema. Foi-se num momento o prazer da paz, acendeu-se a inveja e a Igreja foi ferida por uma guerra dentro da própria casa. Os romanos, povo sedicioso e feroz, atacam como de costume seus vizinhos e estendem temerariamente suas mãos para as coisas sagradas. Como uma torre bem armada, esforça-se o egrégio papa Gregório por conter o mal nascente, reprimir a crueldade e domar a violência para defender a Igreja de Cristo. Mas os males aumentam e a violência cresce. Mesmo em outras partes do mundo levanta-se contra Deus a cerviz dos pecadores. Que fazer? Avaliando a situação e prevendo o futuro com muita experiência, o Papa decide abandonar Roma aos revoltosos para livrar e defender o resto do mundo.

Foi para Rieti, onde o receberam com as devidas honras. Daí passou para Espoleto, honrado por todos com grande reverência. Depois de alguns dias, atento à situação da Igreja e acompanhado pelos veneráveis cardeais, teve a bondade de ir visitar as servas de Cristo, mortas e sepultadas para o mundo. Sua vida santa, a pobreza altíssima e o gênero de vida perfeito comoveram o Papa e os outros até as lágrimas, incitando-os ao desapego do mundo e a uma vida consagrada.

Ó humildade, mãe amável de todas as virtudes! O príncipe de toda a terra, sucessor do príncipe dos apóstolos, visita as pobrezinhas, desce até aquelas desprezadas e humildes encarceradas! De fato, foi uma humildade digna do maior apreço, sem exemplo anterior, jamais vista em outros tempos.

123. Mas tem pressa de chegar a Assis, onde está o tesouro para ele precioso, onde espera livrar-se dos sofrimentos e desgraças que o ameaçam. Sua chegada foi um júbilo para toda a região. Exultou a cidade, festejaram as multidões, e o dia claro ficou ainda mais luminoso com a presença dos ilustres visitantes. Foram todos ao seu encontro em solene cortejo. Veio também o grupo piedoso dos pobres frades, e todos entoavam belos cânticos para o ungido do Senhor. Assim que chegou, o Vigário de Cristo foi saudar com alegre reverência o sepulcro de São Francisco. Suspirou, bateu no peito, chorou e inclinou sua cabeça veneranda com a maior devoção.

Cuidou-se então solenemente da canonização do santo, e começou a haver muitas reuniões de uma ilustre comissão de cardeais para tratar do assunto. Vieram de toda parte muitas pessoas que tinham sido livradas de seus achaques pelo santo, e uma multidão enorme de milagres começou a brilhar: foram todos examinados, discutidos, acolhidos e aprovados.

Nesse ínterim, os negócios reclamam a presença do Papa em Perúsia, mas ele volta a Assis com maior e especial benevolência por tão importante causa. Tem que ir outra vez a Perusa, onde se realiza uma reunião dos cardeais em seus aposentos. Todos estão unanimente de acordo. Lêem os milagres e sua veneração aumenta. Enaltecem a vida e a conversão do bem-aventurado pai com os maiores elogios.

124. "A santidade deste homem - dizem - não precisa do testemunho dos milagres, pois nós mesmos a vimos com nossos olhos, tocamos com nossas mãos e comprovamos sua verdade". Todos se comovem, aplaudem, choram lágrimas carregadas de paz. Tratam de marcar logo o dia abençoado em que encheriam todo o mundo de gáudio salutar.

E chega finalmente o dia solene, para sempre memorável, estendendo a mais sublime comemoração não só a todos os países mas até às moradas lá do céu. Foram convocados os bispos, acorreram abades e vieram prelados dos lugares mais distantes. Havia até um rei e se reuniu uma nobre multidão de condes e cavalheiros. Acompanhavam todos ao senhor de todo o mundo e entraram com ele na cidade de Assis em triunfal cortejo. Chegando ao local preparado para o solene acontecimento, juntaram-se ao santo Padre todos os cardeais, bispos e abades. Houve grande acorrência de sacerdotes e clérigos, reuniu-se um grupo sagrado e feliz de religiosos, estiveram presentes as religiosas, humildes e recatadas, juntou- se uma multidão quase incontável de homens e mulheres. Pessoas de todas as idades se fizeram animadamente presentes a tão extraordinário encontro, juntando-se lado a lado pequenos e grandes, servos e livres.

125. Presidia o Sumo Pontífice, esposo da Igreja de Cristo, cercado pela variedade de tantos filhos, com a coroa de glória em sua cabeça, sinal expresso da santidade. Estava ornado com os paramentos pontificais e revestido das vestes de santidade, com faixas bordadas a ouro e pedras preciosas. Refulgente na magnificência da glória, coberto de pedras brilhantes e preciosas, o ungido do Senhor chamava a atenção de todos. Rodeavam-no os cardeais e bispos, ornados com os adereços mais esplêndidos e refulgindo de brancura, dando uma idéia da beleza celeste e representando a alegria dos glorificados. O povo inteiro aguardava a voz do gáudio, a voz da alegria, a voz nova, a voz cheia de toda doçura, a voz do louvor, a voz da bênção perene.

Falou em primeiro lugar o Papa Gregório, dirigindo-se a todo o povo com voz vibrante e afetuosa para anunciar as maravilhas de Deus. Depois, fez um nobilíssimo elogio do pai Francisco, cobrindo-se de lágrimas ao recordar sua conversão e proclamar sua simplicidade. Foi assim que começou: "Como a estrela da manhã por entre as núvens, como a lua resplandecente no plenilúnio, como o sol a brilhar, assim refulgiu este homem no templo de Deus".

Terminado o sermão, fiel e digno de todo louvor, um dos subdiáconos do senhor Papa, chamado Otaviano, leu para todos em voz bem alta os milagres do santo. Comentou-os, depois, todo comovido e com sagrada eloquência, o senhor Rainério, cardeal-diácono, homem de inteligência perspicaz, honrado por seus costumes e virtude. Estava feliz o pastor da Igreja e, profundamente comovido, soltava grandes suspiros, entre soluços e abundantes lágrimas. Também os outros prelados da Igreja choravam banhando de lágrimas os paramentos. Chorava afinal o povo todo, bastante fatigado na ansiosa espera.

126. Clamou afinal o Papa em voz alta e, estendendo as mãos para o céu, disse: "Para louvor e glória de Deus todo poderoso, Pai, Filho e Espírito Santo, da gloriosa Virgem Maria, dos santos apóstolos Pedro e Paulo, e para honra da gloriosa Igreja Romana, venerando na terra o bem-aventurado pai Francisco, a quem Deus glorificou no céu, tendo ouvido o conselho de nossos irmãos e de outros prelados, decretamos que ele seja incluído no catálogo dos santos e que sua festa seja celebrada no dia de sua morte".

Ouvidas essas palavras, os reverendos cardeais começaram a cantar em voz alta, com o senhor Papa, o Te Deum laudamus. Juntou-se o clamor de todo aquele povo, louvando a Deus. Reboou a terra, encheu-se o ar de júbilo, molhou-se o chão de lágrimas. Entoavam cânticos novos e os servos de Deus se rejubilavam com a melodia do espírito. Os hinos espirituais eram cantados com voz melodiosa, acompanhados por maviosos instrumentos musicais. Respirava-se um agradável perfume e pairava no ar uma doce melodia, que a todos deixava comovidos. O dia era esplêndido e radiante com as cores mais maravilhosas. Verdes estavam as oliveiras e cobertas todas as árvores de folhagem renovada. A ornamentação festiva refulgia no rosto das pessoas e a bênção da paz alegrava os corações de todos os presentes.

No fim, o feliz Papa Gregório desceu do trono e entrou no santuário pela escadaria inferior, para oferecer os votos e sacrifícios. Beijou com alegria a tumba que encerrava o corpo sagrado e dedicado ao Senhor. Fez repetidas preces, celebrou os mistérios sagrados. Rodeava-o a coroa dos irmãos, louvando, adorando e bendizendo a Deus onipotente, que realizou portentos em toda a terra. O povo inteiro repetia os louvores de Deus e em honra da Trindade excelsa rendeu graças a São Francisco. Amém.

Tudo isso aconteceu na cidade de Assis, no segundo ano do pontificado do Senhor Papa Gregório IX, a 16 de julho de 1228.