PARALÍTICOS CURADOS

No mesmo dia em que o sacrossanto corpo do bem-aventurado pai Francisco, embalsamado pelos aromas do céu mais do que por especiarias terrenas, foi sepultado como um tesouro muito precioso, trouxeram uma menina que havia mais de um ano estava com o pescoço monstruosamente torcido e a cabeça enterrada no ombro, de modo que só de soslaio conseguia olhar para cima. Mas ela colocou por algum tempo a cabeça embaixo da urnaem que jazia o precioso corpo do santo e imediatamente, pelos méritos dele, endireitou o pescoço e recobrou a posição normal da cabeça. A transformação foi tão repentina que a criança, muito assustada, fugiu chorando. Devido à prolongada enfermidade, estava com uma cavidade no ombro, no lugar em que a cabeça estivera dobrada.

128. No condado de Narni, havia um menino com uma perna tão torcida que não podia andar sem muletas. Vivia de esmolas, estava doente havia muitos anos e não conhecia pai nem mãe. Pelos méritos de nosso bem-aventurado pai Francisco, ficou tão livre de seu mal, que passou a andar por toda parte sem muletas, louvando e bendizendo a Deus e a seu santo.

129. Um cidadão de Foligno, chamado Nicolau, tinha a perna esquerda tão contraída que lhe causava uma dor enorme e gastara tanto com médicos para recobrar a saúde, que estava com dívidas acima de sua vontade e de suas posses. Vendo quenão tinha conseguido nada com os tratamentos, tão atormentado de dores que seus gritos e gemidos não deixavam dormir os vizinhos, fez um voto a Deus e a São Francisco, e pediu que o o levassem ao seu sepulcro. Depois de ter passado uma noite orando diante do túmulo do santo, conseguiu estender a perna e voltou para casa sem muleta, louco de alegria.

130. Havia também um menino com uma perna tão contraída que o joelho estava ligado ao peito e o calcanhar às nádegas. Foram ao sepulcro de São Francisco, usando o pai um cilício para se mortificar, enquanto a mãe fazia grandes sacrifícios. Ficou tão completa e repentinamente curado que podia correr pelas praças, todo feliz, dando graças a Deus e a São Francisco.

131. Na cidade de Fano, havia outro aleijado cujas pernas, cheias de feridas, tinham grudado nas nádegas e exalavam um mau cheiro tão forte que os enfermeiros não o queriam receber no hospital nem tratá-lo. Pelos méritos do santo pai Francisco, cuja misericórdia invocou, teve pouco depois a alegria de ficar curado.

132. Uma menina de Gúbio, de mãos retorcidas, perdera todo o uso dos membros havia mais de um ano. Sua ama, para obter a graça da saúde, levou-a com uma imagem de cera ao túmulo de nosso pai São Francisco. Depois de oito dias, teve os membros de tal forma recuperados que pôde voltar a fazer normalmente tudo que fazia antes.

133. Um menino de Montenegro passou vários dias deitado diante da porta da igreja em que descansa o corpo de São Francisco, porque não podia andar nem sentar, entrevado da cintura para baixo. Um dia, entrou na igreja e tocou o sepulcro de nosso bem- aventurado pai São Francisco, voltando para fora são e salvo. Contava o próprio rapaz que, estando diante do túmulo do glorioso santo, apareceu-lhe um jovem vestido com o hábito dos frades. Estava em cima do sepulcro e tinha algumas peras nas mãos. Chamou o menino e lhe ofereceu uma pêra, animando-o para se levantar. O menino pegou a pêra de suas mãos e disse: "Sou aleijado e não posso me levantar". Mas comeu a pêra e começou a estender a mão para outra que o jovem lhe oferecia. Este insistiu em que se levantasse, mas o menino, preso pela doença, não se moveu. Então o moço deu-lhe a pêra mas tomou-lhe a mão estendida. Levou-o para fora e desapareceu de seus olhos. Vendo-se curado e incólume, o menino começou a gritar em alta voz, contando a todos o que lhe acontecera.

134. Uma mulher de Coccorano foi levada ao sepulcro do glorioso pai em uma cesta, porque tinha perdido o movimento de todo o corpo, menos o da língua. Demorando-se um pouco diante da tumba do santo, saiu completamente curada.

Também um cidadão de Gúbio levou o filho aleijado numa cesta para o túmulo do santo pai e o recebeu curado e incólume. Fora tão disforme que as pernas, além de grudadas às nádegas, tinham secado de todo.

135. Bartolomeu, um pobre mendigo de Narni, dormiu embaixo de uma nogueira e acordou tão entrevado que não podia andar. A doença foi aumentando sensivelmente: a perna, já com o pé enfraquecido, se encurvou, secou e ele não sentia o corte de uma faca nem queimaduras. Mas São Francisco, que sempre amou de verdade os pobres e foi o pai de todos os indigentes, apareceu-lhe uma noite em sonhos, mandando que fosse tomar banho em determinado lugar, pois lá queria curá-lo, compadecido de todo o seu sofrimento.

A acordar, não sabendo o que fazer, o pobre contou o sonho ao bispo da cidade, que lhe disse para ir depressa ao banho recomendado, e o abençoou. Ele pegou um bastão e tratou de ir para o lugar indicado, da melhor forma que lhe era possível. Caminhava triste e muito cansado pelo esforço, quando ouviu uma voz que lhe dizia: "Vá com a paz do Senhor,eu sou aquele a quem te consagraste". Aproximando-se do lugar já de noite, errou o caminho e ouviu de novo a voz, que o advertiu e o dirigiu para o banho. Quando chegou e entrou no banho, sentiu uma mão no pé e outra na perna, estendendo-a com cuidado. Logo ficou livre, saltoupara fora do banho, louvando e bendizendo a onipotência do Criador e o bem-aventurado Francisco seu servo, que lhe tinha conferido tamanha graça e força. Tinha sido aleijado e mendigo por seis anos, e era de idade avançada.