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147. No povoado de Pieve, havia um menino paupérrimo e mendigo,
completamente surdo e mudo de nascença. Tinha a língua tão curta e
reduzida que muitos que a examinaram acharam que tinha sido cortada.
Uma tarde foi à casa de um conterrâneo chamado Marcos e lhe pediu
pousada por sinais, como costumam fazer os mudos. Inclinando a
cabeça para o lado, com as mãos embaixo do queixo, dava a entender
que queria pernoitar em sua casa. O homem recebeu-o com alegria e o
manteve consigo de boa vontade, porque sabia que aquele moço era um
serviçal competente, rapaz de bom caráter que, apesar de surdo e
mudo desde o berço, entendia todas as ordens por sinais. Uma noite,
o homem jantava com sua esposa e, estando o rapaz presente, disse à
mulher: "Acho que seria o maior milagre se São Francisco lhe desse
o ouvido e a fala".
148. E acrescentou: "Prometo ao Senhor Deus que, se São
Francisco se dignar fazer isso, por amor dele terei especial afeto
para com este menino e lhe pagarei todas as despesas por toda a sua
vida".
Foi espantoso. Mal acabara de fazer a promessa, o rapaz exclamou:
"Viva São Francisco!" E, olhando para cima, acrescentou:
"Estou vendo São Francisco de pé aí em cima. Veio para me dar a
fala". E perguntou: "Que vou dizer para todo mundo?" Respondeu
Marcos: "Louve a Deus que assim você vai salvar muitas pessoas".
Ele se levantou, muito alegre e exultante, e proclamou diante de
todos o que tinha acontecido. Acorreram todos os que sabiam que ele
era mudo e, cheios de admiração e espanto, renderam suplicantes seus
louvores a Deus e a São Francisco. A língua do rapaz tinha
crescido e se tornado boa para falar, e ele já começou a dizer as
palavras com correção, como se sempre tivesse falado.
149. Um outro moço, chamado Vila, não podia falar nem andar.
Sua mãe fez uma promessa e foi, cheia de devoção, levar uma imagem
de cera ao túmulo de São Francisco. Quando voltou para casa,
encontrou o filho andando e falando.
Um homem da diocese de Perusa, completamente mudo, vivia angustiado
porque tinha que andar sempre de boca aberta, bocejando horrivelmente,
com a garganta inchada e inflamada. Foi ao lugar em que descansava o
santo corpo e estava subindo os degraus de seu túmulo quando vomitou
muito sangue. Completamente curado, começou a falar e a fechar a
boca normalmente.
150. Uma mulher tinha um mal de garganta tão grande que, pelo
muito ardor, a língua estava seca e grudada no céu da boca. Não
podia falar, nem comer e beber, e não conseguia alívio nenhum com
todos os emplastros e remédios que tomava. Finalmente, consagrou-se
a São Francisco em seu coração, pois não podia falar. De
repente, abriu-se-lhe a carne e saiu de sua garganta uma pedra
redonda, que ela pegou nas mãos e mostrou, ficando logo curada.
No povoado de Greccio, havia um moço que tinha perdido a audição,
a memória e a fala, e não compreendia nem sentia nada. Seus pais,
que tinham muita fé em São Francisco, consagraram-lhe suplicantes
o rapaz. Foi só terminar a oração e, por graça do santo e
glorioso pai Francisco, recebeu ao mesmo tempo todos os sentidos que
lhe faziam falta.
Para louvor, glória e honra de Nosso Senhor Jesus Cristo, cujo
reino e império permanecerá firme e estável por todos os séculos dos
séculos. Amém.
Fim
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