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Da admirável mortificação da carne, talvez seja melhor calar que
falar, já que fez tais coisas que o estupor dos ouvintes porá em
dúvida a veracidade dos fatos. Não era o mais notável que, com uma
simples túnica e um rude manto de pano áspero, mais cobria que
abrigava seu corpo delicado. Nem era o mais admirável que
desconhecesse por completo o uso de calçado. Não era grande coisa
que jejuasse todo o tempo e não usasse colchão de penas. Nisso tinha
outras semelhantes no mosteiro e talvez não mereça louvor singular.
Mas, como combinam uma carne virginal e uma roupa de porco? Pois
tão santa virgem tinha arranjado uma peça de pele de porco e a usava
secretamente debaixo da túnica, com o áspero corte das cerdas
aplicado à carne. Usava algumas vezes um duro cilício, trançado em
nós com crina de cavalo, que com ásperas cordinhas apertava
fortemente ao corpo de lado a lado. A pedido, emprestou-o a uma de
suas filhas, mas, quando ela o vestiu não agüentou tanta aspereza e
o devolveu depressa depois de três dias, não tão alegre como quando
o pediu.
Sua cama era a terra nua; às vezes, uns sarmentos. Como
travesseiro usava um toco duro embaixo da cabeça. Com o tempo, de
corpo já enfraquecido, estendeu uma esteira no chão e teve a
clemência de dar à cabeça um pouco de palha. Depois que a doença
começou a tomar conta do corpo tão severamente maltratado, usou um
saco cheio de palha por ordem do bem-aventurado Francisco.
Pois tamanho era o rigor de sua abstinência nos jejuns que mal teria
podido sobreviver corporalmente com o leve sustento que tomava, se
outra força não a sustentasse. Enquanto teve saúde, jejuando a
pão e água na quaresma maior e na do bispo São Martinho, só
provava vinho aos domingos, quando tinha.
E para que admires, leitor, o que não podes imitar, não tomava
nada de alimento durante essas quaresmas em três dias por semana, nas
segundas, quartas e sextas-feiras. Sucediam-se assim os dias de
acerba mortificação, de modo que uma véspera de privação total
precedia um festim de pão e água.
Não é de admirar que tamanho rigor, mantido durante muito tempo,
tivesse predisposto Clara à doença, consumindo as forças e
enfraquecendo o corpo. Por isso, as filhas muito devotas tinham
compaixão da santa madre e lamentavam com lágrimas aquelas mortes que
suportava voluntariamente, todos os dias. Por fim, São Francisco
e o bispo de Assis proibiram-lhe o esgotador jejum dos três dias,
ordenando que não deixasse passar um só dia sem tomar para sustento
pelo menos uma onça e meia de pão.
Mas, embora em geral uma grave aflição do corpo afete o espírito,
o que brilhava em Clara era muito diferente: ficava sempre de cara
festiva e alegre em suas mortificações, parecendo que não sentia ou
que se ria dos apertos corporais. Por isso, podemos ver claramente
que a santa alegria que lhe sobrava dentro extravasava fora, porque o
amor do coração tornava leves os castigos corporais.
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