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Já morta na carne, estava tão alheia ao mundo que ocupava sua alma
continuamente em santas orações e divinos louvores. Tinha cravado na
Luz o dardo ardentíssimo do desejo interior e, transcendendo a esfera
das realidades terrestres, abria mais amplamente o seio de sua alma
para as chuvas da graça.
Depois de Completas, rezava muito tempo com as Irmãs, e os rios de
lágrimas que dela brotavam excitavam também as outras. Mas depois
que elas iam repousar os membros cansados nas camas duras, ela ficava
rezando, vigilante e incansável, para recolher então o veio do
sussurro furtivo (cfr. Jó 4,12) de Deus, quando o sono se
apoderara das outras. Muitas vezes, prostrada em oração com o rosto
em terra, regava o chão com lágrimas e o acariciava com beijos:
parecia ter sempre o seu Jesus entre as mãos, derramando aquelas
lágrimas em seus pés, a que beijava.
Chorava, uma vez, na noite profunda, quando apareceu o anjo das
trevas na figura de um menino negro, dizendo-lhe: "Não chore
tanto, que vai ficar cega". Respondeu na hora: "Quem vai ver
Deus não será cego". Confuso, ele foi embora.
Na mesma noite, depois de Matinas, Clara rezava banhada em pranto
como de costume, e chegou o conselheiro enganoso: "Não chore
tanto. O cérebro vai acabar derretendo e saindo pelo nariz,
deixando-o torto". Ela respondeu rápido: "Quem serve ao Senhor
não sofre nenhum entortamento". Ele escapou na hora e desapareceu.
Os indícios costumeiros comprovam toda a força que tirava da fornalha
da oração fervorosa, e como nela gozava com doçura a bondade
divina. Pois, quando voltava toda alegre da santa oração, trazia
do fogo do altar do Senhor palavras ardentes que acendiam também os
corações das Irmãs. Admiravam a doçura que vinha de sua boca e o
rosto parecendo mais claro que de costume. Certamente, Deus tinha
banqueteado a pobre em sua doçura (cfr. Sl 67,11), e a alma
cumulada de luz verdadeira na oração estava transparecendo no corpo.
Assim, unida imutavelmente a seu nobre Esposo no mundo mutável,
deliciava-se continuamente nas coisas do alto. Firme em virtude
estável no rodar versátil, guardando o tesouro da glória em vaso de
barro, tinha o corpo na terra e a alma nas alturas. Costumava ir
antes que as jovens para as Matinas, acordando-as com sinais
silenciosos e incitando-as ao louvor.
Em geral, acendia as luzes quando as outras dormiam. Muitas vezes
era ela que tocava o sino. Em seu convento, não havia lugar para
tibieza, nem desídia, pois a preguiça era atacada por forte
estímulo para orar e servir ao Senhor.
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