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De fato, não devemos sepultar no silêncio a eficácia admirável de
sua oração que, ainda no começo de sua consagração, converteu uma
alma para Deus, e a protegeu. Tinha uma irmã jovem, irmã na carne
e na pureza. Desejando sua conversão, nas primeiras preces que
oferecia a Deus com todo afeto, insistia nisso: que, assim como no
mundo tinha tido com a irmã conformidade de sentimentos, assim agora
se unissem, ambas, para o serviço de Deus em uma só vontade.
Pedia insistentemente ao Pai da misericórdia que o mundo perdesse o
gosto e que Deus fosse doce para Inês, a irmã deixada em casa,
mudando-a da perspectiva de um casamento humano para a união de seu
amor, desposando com ela, em virgindade perpétua, o Esposo da
glória. Um afeto admirável tomara conta das duas e, embora por
diferentes razões, tinha tornado dolorosa para ambas a recente separação.
A divina Majestade atendeu depressa a excepcional orante e lhe
concedeu imediatamente aquele primeiro dom, pedido mais que tudo e que
mais agradava a Deus regalar. Assim, dezesseis dias depois da
conversão de Clara, Inês, levada pelo Espírito divino, correu
para a irmã e, contando seu segredo, disse que queria servir só ao
Senhor. Ela a abraçou toda feliz e exclamou: "Dou graças a
Deus, dulcíssima irmã, porque abriu os ouvidos à minha solicitude
por você".
À conversão maravilhosa seguiu-se não menos maravilhosa defesa.
Quando as felizes irmãs estavam na igreja de Santo Ângelo de
Panço, aplicadas em seguir as pegadas de Cristo, e a que mais sabia
do Senhor instruía sua irmã e noviça, de repente levantaram-se
contra as jovens novos ataques dos familiares. Sabendo que Inês
tinha ido para junto de Clara, correram no dia seguinte ao lugar doze
homens acesos de fúria e, dissimulando a malvadeza por fora,
apresentaram-se para uma visita de paz.
Logo, voltando-se para Inês, pois de Clara já antes tinham
perdido a esperança, disseram: "Por que veio a este lugar? Volte
quanto antes para casa conosco". Quando ela respondeu que não queria
separar-se de sua irmã Clara, lançou-se sobre ela um cavaleiro
enfurecido e, a socos e pontapés, queria arrastá-la pelos cabelos,
enquanto os outros a empurravam e levantavam nos braços. Diante
disso, a jovem, vendo-se arrancada das mãos do Senhor, como presa
de leões, gritou: "Ajude-me, irmã querida, não deixe que me
separem de Cristo Senhor".
Os violentos atacantes arrastaram a jovem renitente pela ladeira,
rasgando a roupa e enchendo o caminho de cabelos arrancados. Clara
prostrou-se numa oração em lágrimas, pedindo que a irmã mantivesse
a constância e suplicando que a força daqueles homens fosse superada
pelo poder de Deus.
De repente, o corpo dela, caído por terra, pareceu fincar-se com
tanto peso que, mesmo diversos homens, juntando as forças, não
conseguiram de modo algum levá-lo para além de um riacho. Acorreram
também alguns dos campos e vinhas para ajudá-los, mas não puderam
levantar do chão aquele corpo. Tiveram que desistir do esforço e
exaltaram o milagre comentando em brincadeira: "Passou a noite
comendo chumbo, não é de admirar que esteja pesada".
O próprio senhor Monaldo, seu tio paterno, que, tomado por tanta
raiva, tentou dar-lhe um soco mortal, sentiu de repente que uma dor
atroz invadia a mão levantada e o atormentou angustiosamente por muito tempo.
Então, depois da longa batalha, Clara foi até lá, pediu aos
parentes que desistissem da luta e deixassem a seus cuidados Inês,
que jazia meio morta. Quando eles se retiraram, amargados pelo
fracasso da empresa, Inês levantou-se jubilosa e, já gozando da
cruz de Cristo, por quem travara essa primeira batalha, consagrou-se
para sempre ao serviço divino. Então o bem-aventurado Francisco a
tonsurou com suas próprias mãos e, junto com sua irmã, instruiu-a
nos caminhos do Senhor.
Mas como não dá para explicar em poucas palavras a magnífica
perfeição de sua vida, voltamos a falar de Clara.
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