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Apenas dada à luz, a pequena Clara começou a brilhar com
luminosidade muito precoce nas sombras do século e a resplandecer na
tenra infância pelos bons costumes. De coração dócil, recebeu
primeiro dos lábios da mãe os rudimentos da fé e, inspirando-a e
formando-a interiormente o espírito, esse vaso, em verdade
puríssimo, revelou-se vaso de graças.
Estendia a mão com prazer para os pobres (cfr. Pr 31,20) e,
da abundância de sua casa, supria a indigência (cfr. 2Cor
8,14) de muitos. Para que o sacrifício fosse mais grato a
Deus, privava seu próprio corpozinho dos alimentos mais delicados e,
enviando-os às ocultas por intermediários, reanimava o estômago de
seus protegidos. Assim cresceu a misericórdia com ela desde a
infância (cfr. Jó 31,18) e tinha um coração compassivo,
movido pela miséria dos infelizes.
Gostava de cultivar a santa oração, em que, orvalhada muitas vezes
pelo bom odor, foi praticando aos poucos a vida virginal. Como não
dispunha de contas para repassar os Pai-nossos, usava um monte de
pedrinhas para numerar suas pequenas orações ao Senhor. Ao sentir
os primeiros estímulos do santo amor, instruída pela unção do
Espírito, achou que devia desprezar a instável e falsa flor da
mundanidade, relativizando as coisas que valem menos. Debaixo dos
vestidos preciosos e finos, usava um ciliciozinho escondido,
florescendo por fora e vestindo Cristo no interior (cfr. Rm 13,14).
Afinal, querendo os seus que se casasse na nobreza, não concordou
absolutamente. Fazia que adiava o matrimônio mortal e confiava sua
virgindade ao Senhor. Foram esses os ensaios de virtude em sua casa
paterna. Assim foram suas primícias espirituais e os prelúdios de
santidade. Transbordando de perfumes, mesmo fechada, sua fragrância
atraía, como um cofre de aromas. Sem o saber, começou a ser
louvada pelos vizinhos. A justa fama divulgou seus atos secretos e se
espalhou no povo a notícia de sua bondade.
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