|
Chegou, uma vez, o dia da Sagrada Ceia, em que o Senhor amou os
seus até o fim (cfr. Jo 13,1). Pela tarde, aproximando-se a
agonia do Senhor, Clara, entristecida e aflita, fechou-se no
segredo de sua cela. Acompanhando em oração o Senhor que rezava,
sua alma triste até a morte (cfr. Mt 26,38) embebeu-se da
tristeza dele, a memória foi se compenetrando da captura e de toda
derisão: caiu na cama.
Ficou tão absorta durante toda aquela noite e no dia seguinte, tão
fora de si que, com o olhar ausente, cravada sempre em sua visão
única, parecia crucificada com Cristo, totalmente insensível. Uma
filha familiar voltou diversas vezes para ver se precisava de alguma
coisa e a encontrou sempre do mesmo jeito.
Quando chegou a noite do sábado, a devota filha acendeu uma vela e,
sem falar, com um sinal, lembrou sua mãe da ordem que recebera de
São Francisco. Pois o santo mandara que não deixasse passar um só
dia sem comer. Na sua presença, Clara, como se voltasse de algum
outro lugar, disse o seguinte: "Para que a vela? Não é dia?"
"Madre, respondeu a outra, foi-se a noite, já passou um dia, e
voltou outra noite".
Clara disse: "Bendito seja este sonho, filha querida, porque
ansiei tanto por ele e me foi concedido. Mas guarde-se de contar este
sonho a quem quer que seja, enquanto eu viver na carne".
|
|