CURA DE UM CEGO

Jacobelo, conhecido como filho da espoletana, doente de cegueira havia doze anos, andava com um guia e não podia ir sem ele a lugar nenhum senão ao precipício. Uma vez, deixou o menino um pouquinho e caiu num buraco, quebrando um braço e machucando a cabeça.

Uma noite, dormindo junto à ponte de Narni, apareceu-lhe em sonhos uma senhora que disse: "Tiaguinho, por que não vem a mim em Assis para ficar curado?". Quando acordou, de manhã, contou tremendo essa visão a outros dois cegos. Eles disseram: "Ouvimos falar, há pouco, de uma senhora que morreu na cidade de Assis, e se diz que o poder do Senhor honra seu sepulcro com graças de cura e muitos milagres".

Ouvindo isso, tratou de pôr-se a caminho sem preguiça e, hospedando-se à noite em Espoleto, teve outra vez a mesma visão. Voou ainda mais rápido, só pensando em correr, por amor à vista.

Mas, ao chegar a Assis, encontrou tanta gente acorrendo ao mausoléu da virgem que não conseguiu de modo algum chegar perto do túmulo. Pôs uma pedra embaixo da cabeça e, com muita fé, apesar da dor de não poder entrar, dormiu ali fora. Então, pela terceira vez, ouviu a voz dizendo: "Tiago, o Senhor lhe concederá o favor, se você puder entrar". Por isso, ao acordar, rogou chorando à multidão, gritando e implorando que o deixasse passar, por amor de Deus. Aberto o caminho, jogou os sapatos, despiu-se, passou uma correia no pescoço e foi tocar humildemente o túmulo, onde caiu num sono leve. "Levante-se, disse a bem-aventurada Clara, levante-se que está curado".

Levantou-se na hora e, dissipada toda cegueira, sem nenhuma escuridão nos olhos, viu claramente a claridade da luz, graças a Clara. Glorificou a Deus, louvando-o, e convidou todos a bendize-lo por tão maravilhoso portento.