PRIMEIRO LIVRO

Começa a "recordaçäo pela qual a alma aspira" dos feitos e palavras de nosso pai Säo Francisco

SUA CONVERSÃO


CAPÍTULO 1. Primeiro recebe o nome de João, depois o de Francisco. Profecia de sua mãe e dele próprio a seu respeito. Sua paciência na prisão

3. Servo e amigo do Altíssimo, Francisco recebeu esse nome por providência divina, para que, por sua singular originalidade, mais rapidamente se difundisse por todo o mundo o conhecimento de sua missão. Ao renascer da água e do Espírito Santo, deixando de ser filho da ira para ser filho da graça, recebeu de sua mãe o nome de João.

Essa mulher, modelo de retidão, era de uma virtude notável, e teve o privilégio de se parecer com Santa Isabel, tanto pelo nome que deu ao filho como pelo espírito profético. Pois, quando os vizinhos se admiravam da grandeza de alma e da integridade de Francisco, dizia, como que inspirada: "Quem vocês pensam que vai ser este meu filho? Ainda vão ver que, pelos seus merecimentos, vai ser um verdadeiro filho de Deus".

De fato, era essa a opinião de várias pessoas quando, já mais grandinho, Francisco conquistou a simpatia de todos por suas boas qualidades. Evitava tudo que pudesse ser ofensivo e era um adolescente tão educado que não parecia filho de seus pais mas de gente mais nobre. O nome de João cabia bem à missão que recebeu, mas o de Francisco coube melhor à difusão de sua fama que chegou rapidamente a toda parte, quando ele se converteu totalmente a Deus.

Para ele a festa mais importante entre as de todos os santos era a de São João Batista, cujo nome insigne o havia marcado com uma força mística. Assim como entre os nascidos de mulher não apareceu nenhum maior do que João, entre os fundadores de Ordens não houve nenhum mais perfeito do que Francisco. Esta observação é digna de nota.

4. João profetizou fechado no segredo do seio materno. Francisco predisse o futuro no cárcere do mundo, quando ainda desconhecia os planos de Deus. De fato, numa ocasião em que os cidadãos de Perusa e os de Assis se viram envolvidos em não pequena desgraça por causa da guerra, Francisco foi preso com muitos outros e sofreu com eles as penúrias do cárcere. Os companheiros deixavam-se abater pela tristeza, lamentando-se do cativeiro, mas Francisco exultava no Senhor, ria-se e fazia pouco da cadeia. Ofendidos, os outros increparam esse louco e demente que se alegrava na prisão. Francisco respondeu profeticamente: "Por que vocês pensam que eu estou contente? Estou pensando em outra coisa: ainda vou ser venerado como santo por todo mundo". E, de fato, cumpriu-se o que ele disse.

Entre os prisioneiros havia um soldado soberbo e insuportável, que todos os outros resolveram ignorar. Mas a paciência de Francisco foi firme: tolerava o insuportável e conseguiu fazer com que todos voltassem às pazes com ele. Aberto a todas as graças, era um vaso escolhido de virtudes, já a transbordar de carismas por todos os lados.