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16. Na ocasião em que se apresentou com os seus ao papa
Inocêncio, para pedir a aprovação de sua regra de vida, o Papa
achou que seu propósito estava acima de suas forças e, como era
dotado da maior discrição, disse: "Meu filho, pede a Cristo que
nos manifeste sua vontade, para que possamos concordar com maior
segurança com os teus piedosos desejos".
O santo obedeceu à ordem do Pastor supremo e correu a Cristo
confiantemente. Rezou bastante e exortou os irmãos a suplicarem a
Deus com devoção. Obteve uma resposta na oração e contou aos
filhos a salutar novidade. A conversa familiar com Cristo foi
conhecida numa parábola: "Francisco, dirás isto ao Papa: uma
mulher pobrezinha, mas bonita, morava em um deserto. Um rei se
apaixonou por ela por causa de sua grande formosura, desposou-a todo
feliz e teve com ela filhos muito bonitos. Quando já estavam adultos
e nobremente educados, a mãe lhes disse: 'Não vos envergonheis,
meus queridos, porque sois pobres, pois sois todos filhos daquele
grande rei. Ide com alegria para sua corte, e pedi-lhe tudo que
precisais'. Surpresos e felizes quando ouviram isso e, orgulhosos
por saberem que eram de linhagem real, pois previam que seriam os
herdeiros, já imaginaram sua pobreza transformada em riqueza.
Apresentaram-se ousadamente ao rei, sem temer o rosto que era
parecido com o deles. Vendo essa semelhança, o rei perguntou,
admirado, de quem eram filhos. Quando disseram que eram filhos
daquela mulher pobrezinha do deserto, o rei os abraçou dizendo:
'Sois meus filhos e meus herdeiros, não tenhais medo! Se até
estranhos comem à minha mesa será muito mais justo que eu alimente
aqueles a quem está destinada por direito a minha herança toda'. E
mandou que a mulher levasse todos os seus filhos para serem educados em
sua corte". O santo gostou muuito da parábola e foi logo contar ao
Papa a resposta de Deus.
17. Essa mulher era Francisco, pela fecundidade de seus muitos
filhos, não pela moleza de sua vida. O deserto era o mundo, então
inculto por falta de doutrina e estéril em virtudes. A prole
abundante e formosa era a multidão dos frades, ricos de valores
espirituais. O rei era o Filho de Deus, de quem se tornaram
parecidos pela santa pobreza, em cuja abundante mesa real foram
alimentados por terem desprezado toda vergonha das coisas vis, pois
estavam contentes com a imitação de Cristo e viviam de esmolas,
sabendo que haveriam de conquistar a bem aventurança através dos
desprezos do mundo.
Admirado com a parábola, o Papa não teve dúvida de que Cristo lhe
falava através de Francisco. Lembrou uma visão que tivera poucos
dias antes e, iluminado pelo Espírito Santo, afirmou que haveria de
cumprir-se naquele mesmo homem. Em sonhos, tinha visto a basílica
de Latrão prestes a ruir mas sendo sustentada por um religioso,
pequeno e desprezível, que a firmara com seu ombro para não cair. E
disse: "Na verdade este é o homem que, por sua obra e por sua
doutrina, haverá de sustentar a Igreja".
Foi por isso que aquele senhor acedeu tão facilmente ao seu pedido e,
a partir daí, cheio de devoção, sempre teve especial predileção
pelo servo de Cristo. Concedeu-lhe imediatamente tudo que queria e
prometeu que ainda haveria de fazer mais concessões.
Com a autoridade que lhe foi concedida, o santo começou a lançar as
sementes das virtudes e a percorrer as cidades e vilas pregando com
fervor.
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