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5. Libertado pouco tempo depois, tornou-se ainda mais bondoso para
com os necessitados. Resolveu, desde então, não desviar o rosto de
pobre nenhum, de ninguém que lhe pedisse alguma coisa por amor de
Deus.
Um dia encontrou um soldado pobre e quase nú, ficou com pena e,
levado pelo amor de Cristo, deu-lhe generosamente a roupa elegante
que estava vestindo. Não fez menos que São Martinho, ainda que as
circunståncias tenham sido diferentes, porque a intenção e o ato
foram os mesmos. Francisco deu primeiro as vestes e depois o resto.
Martinho entregou tudo primeiro e a roupa no fim. Ambos foram pobres
e necessitados no mundo, ambos entraram ricos no céu. Aquele,
soldado e pobre, vestiu um pobre com uma parte de sua roupa. Este,
que não era soldado mas rico, vestiu com uma roupa boa um pobre
soldado. Ambos, por terem obedecido ao mandamento de Cristo,
mereceram uma visão de Cristo: Um foi louvado pela perfeição e o
outro recebeu um honroso convite para o que ainda tinha que fazer.
6. De fato, pouco depois, teve a visão de um esplêndido
palácio, em que encontrou toda sorte de armas e uma noiva belíssima.
No sonho, foi chamado de Francisco e seduzido pela promessa de
possuir todas aquelas coisas. Tentou, por isso, ir à Apúlia para
entrar no exército e preparou com muita largueza tudo que era preciso,
com pressa de ser armado cavaleiro. É que seu espírito, ainda
carnal, estava dando uma interpretação mundana à visão que tinha
tido, na realidade muito mais valiosa nos tesouros da sabedoria de
Deus.
Foi assim que uma noite, estando a dormir, ouviu pela segunda vez em
sonhos alguém que lhe falava, interessado em saber para onde estava
indo. Contou seus planos e disse que ia combater na Apúlia. Mas a
voz insistiu:
- "Quem lhe pode ser mais útil: o senhor ou o servo?"
- "O senhor", respondeu Francisco.
- "Então, por que preferes o servo ao senhor?"
- "Que queres que eu faça, Senhor?" perguntou Francisco.
- "Volta para a terra em que nasceste, porque é espiritualmente que
vou fazer cumprir a visão que tivestes".
Voltou imediatamente, já exemplarmente obediente e, deixando de lado
a própria vontade, passou de Saulo a Paulo. Paulo foi derrubado
e, duramente castigado, proferiu palavras admiráveis. Francisco
trocou as armas materiais pelas espirituais, e recebeu o comando de
Deus no lugar da glória militar. Aos muitos que se admiravam de sua
invulgar alegria, dizia que haveria de ser um grande príncipe.
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