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69. Revestido da virtude do alto, o santo se aquecia mais com o
fogo divino que tinha por dentro do que com a roupa que lhe recobria o
corpo. Não suportava os que, na Ordem, usavam roupas a mais ou de
qualidade mais fina. Afirmava que a necessidade que não se firma em
razões válidas mas na veleidade é sinal de perda do espírito:
"Quando o espírito está frio e se vai esfriando na graça, a carne
e o sangue precisam procurar o que é seu".
Também dizia: "Que resta para a alma que só encontra prazer nas
delícias da carne? É então que a vontade animal se disfarça em
necessidade, e o sentido da carne forma a consciência".
Acrescentava: "Se um de meus frades tiver uma necessidade
verdadeira, próxima da indigência, e se apressar em satisfazê-la,
em afastá-la de si, qual será o seu mérito? Teve uma oportunidade
de merecimento, mas procurou demonstrar que não a apreciou".
Submetia os principiantes a essas necessidades e a outras semelhantes,
porque não suportá-las com paciência é o mesmo que retornar ao
Egito.
Afinal, não queria que em nenhuma oportunidade os frades tivessem
mais que duas túnicas, embora permitisse que as reforçassem com
remendos. Ensinava a detestarem os panos luxuosos, e aos que faziam o
contrário repreendia fortemente diante de todos. Para escarmentar
tais frades com seu exemplo, costurou sobre sua túnica um saco rude.
Mesmo na hora da morte pediu para cobrirem a túnica que seria sua
mortalha com outro pano mais pobre.
Mas aos frades que eram forçados pela doença ou por outra necessidade
permitia que usassem outra túnica mais fina junto ao corpo, mas de
forma que exteriormente se observasse a aspereza e pobreza. Dizia:
"Ainda vai haver tamanho relaxamento no fervor, e um domínio tão
grande da tibieza, que filhos do pobre pai não vão se envergonhar de
usar até púrpura, cuidando apenas de mudar a cor". Com isso,
pai, não é a ti que enganamos como filhos falsos; nossa maldade
engana a si mesma. E isso está aumentando e se fazendo cada dia mais
evidente.
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