CAPÍTULO 48. Em Alexandria, transforma um pedaço de frango em peixe

78. Para ele, esmolar visava mais o proveito das almas que o sustento do corpo, e era exemplo para todos quando dava e quando recebia.

Tendo ido a Alexandria da Lombardia para pregar, foi hospedado devotamente por um homem que temia a Deus e tinha muito boa fama. Pedindo-lhe este que, de acordo com o Evangelho, comesse de tudo que lhe fosse servido, concordou bondosamente, vencido pela devoção do hospedeiro.

Este cuidou logo de preparar muito bem um franguinho gordo para o homem de Deus. Estavam sentados á mesa o patriarca dos pobres e a alegre família, quando apareceu à porta um filho de Belial, pobre de toda graça mas feito mendigo por oportunismo.

Usou astuciosamente o nome do Senhor para pedir esmolas e com voz chorosa pediu que o ajudassem por amor de Deus. Ouvindo o nome que para ele era mais doce que o mel e que é abençoado mais que qualquer outro nome, o santo pegou um pedaço de frango com toda a boa vontade, colocou-o num pão e o deu ao pedinte. Ora, o infeliz guardou o que recebera para poder falar mal do santo.

79. No dia seguinte, o santo estava pregando a palavra de Deus ao povo reunido. Rugiu de repente o malvado, querendo mostrar o pedaço de frango a todo o povo. "Vede quem é esse Francisco que está pregando, a quem honrais como um santo. Vede a carne que me deu ontem à tarde quando estava jantando".

Todo mundo o repreendeu, dizendo que parecia um possesso do demônio. Porque, na verdade, todos viam que era peixe aquilo que o homem afirmava que era frango. Até ele, coitado, espantado com o milagre, foi obrigado a confessar o que todos estavam vendo. Envergonhou-se e desfez com a penitência o crime descoberto. Pediu perdão ao santo diante de todos, revelando a má intenção que tinha tido. E a carne voltou a ser o que realmente era, depois que o pecador voltou ao juízo.