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83. Quem poderá contar toda a compaixão que esse homem tinha para
com os pobres? De fato, era de uma clemência nata, redobrada pela
piedade infusa. Por isso, Francisco se derretia todo pelos pobres e
aos que não podia estender a mão nunca deixava de dar seu afeto.
Qualquer necessidade ou penúria que visse em alguém faziam- no
pensar na mesma hora em Jesus Cristo. Via o Filho da pobre Senhora
em todos os pobres, pois o levava despojado em seu coração como ela o
tinha carregado em seus braços.
Apesar de se ter livrado de toda inveja, não conseguiu libertar-se
da cobiça da pobreza. Quando via alguém mais pobre do que ele,
sentia-se logo invejoso e, disputando em pobreza, ficava com medo de
ser vencido pelo outro.
84. Certo dia, em que o homem de Deus andava pregando, encontrou
um pobrezinho na rua. Vendo-o sem roupa, ficou compungido e disse a
seu companheiro: "A miséria desse homem é uma vergonha para nós,
e uma censura à nossa pobreza".
O companheiro respondeu: "Por que, irmão?" E o santo,
lamentando-se: "Escolhi a pobreza como minha senhora e toda minha
riqueza, e ela está brilhando muito mais nesse homem. Ou não sabes
que por todo o mundo correu nossa fama de pobres por amor de Cristo?
Pois esse pobre está provando que isso não é verdade".
Invejável inveja! E' uma emulação que deve ser imitada por seus
filhos! Pois não se aflige com os bens alheios, não teme a luz do
sol, não se opõe à piedade, nem se remói de amarguras. Pensas
que a pobreza evangélica não tem nada para ser invejado? Tem o
próprio Cristo e, nele, tudo em todas as coisas em. Por que
cobiças rendimentos, ó clérigo de nossos dias? Amanhã, quando
só tiveres nas mãos os lucros dos tormentos, ficarás sabendo que
rico de verdade foi São Francisco.
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