AMOR DE SÃO FRANCISCO À ORAÇÃO


CAPÍTULO 61. Tempo, lugar e fervor de sua oração

94. Francisco, o homem de Deus, afastado do Senhor pelo corpo, procurava fazer seu espírito estar presente no céu. Concidadão dos anjos, só estava separado deles pela parede do corpo. Sua alma inteira tinha sede do seu Cristo e a ele dedicava não só o coração mas também todo o corpo. Das maravilhas de sua oração, vamos contar o pouco que vimos com nossos próprios olhos e tanto quanto é possível transmitir a ouvidos humanos, para imitação dos pósteros.

Empregava todo o seu tempo nessa santa ocupação, para gravar a sabedoria em seu coração porque, se não estivesse sempre progredindo, achava que estava regredindo. Quando era impedido por visitas de seculares ou por outros assuntos, interrompia-os antes do fim e voltava para o retiro. Para ele, que se alimentava da doçura celeste, o mundo era insípido. As delícias celestiais tinham-no tornado incapaz de suportar as grosseiros prazeres dos homens.

Procurava sempre um lugar escondido, onde pudesse entregar a seu Deus não só o espírito mas todo o seu corpo. Quando estava em lugares públicos e era visitado de repente pelo Senhor, para não ficar sem cela, fazia um pequeno abrigo com sua própria capa. Às vezes, quando estava sem capa, para não perder o maná escondido, cobria o rosto com as mangas.

Furtava-se sempre aos olhares dos presentes, para que não se dessem conta da presença do Amado e para poder rezar sem que o percebessem, mesmo nos estreitos limites dum navio. Se não o conseguia, fazia de seu próprio peito um templo. Fora de si e totalmente absorto em Deus, ele parava de tossir, de gemer, de suspirar forte, de se entregar a qualquer manifestação externa.

95. Isso em casa. Quando rezava em florestas ou lugares ermos, enchia os bosques de gemidos, derramava lágrimas por toda parte, batia no peito e, achando-se mais oculto que num esconderijo, conversava muitas vezes em voz alta com o seu Deus. Respondia ao juiz, fazia pedidos ao pai, conversava com o amigo, entretinha-se com o esposo. De fato, para fazer um holocausto múltiplo de todo o interior de seu coração, propunha a seus próprios olhos de muitas maneiras aquele que é sumamente simples. Muitas vezes ficava pensando com os lábios parados, e, levando para dentro todo o seu exterior, elevava-se até os céus. Transformado não só em orante mas na própria oração, unia a atenção e o afeto num único desejo que dirigia ao Senhor.

De que suavidade não era invadido, ele que estava acostumado a orar dessa forma! Só ele é quem sabe. Eu apenas posso admirá-lo. Só quem tem a experiência disso pode saber; para os demais o mistério continua inacessível: com o espírito todo abrasado de ardor, interior e exteriormente absorto, ele já se tornara cidadão dos céus.

Acostumara-se a não perder por negligência nenhuma visita do Espírito, e por isso, quando lhe era oferecida alguma, seguia-a, saboreando a doçura que lhe era dada enquanto o Senhor o permitia. Quando era solicitado por outro afazer ou tinha que prestar atenção na viagem, e pressentia sensivelmente algum toque da graça, saboreava aqui e ali, com a maior freqüência, o dulcíssimo maná. Mesmo na estrada, deixava os companheiros irem à frente, parava e, entregando-se ao gozo da nova inspiração, não deixava passar em vão aquela graça.