|
94. Francisco, o homem de Deus, afastado do Senhor pelo corpo,
procurava fazer seu espírito estar presente no céu. Concidadão dos
anjos, só estava separado deles pela parede do corpo. Sua alma
inteira tinha sede do seu Cristo e a ele dedicava não só o coração
mas também todo o corpo. Das maravilhas de sua oração, vamos
contar o pouco que vimos com nossos próprios olhos e tanto quanto é
possível transmitir a ouvidos humanos, para imitação dos pósteros.
Empregava todo o seu tempo nessa santa ocupação, para gravar a
sabedoria em seu coração porque, se não estivesse sempre
progredindo, achava que estava regredindo. Quando era impedido por
visitas de seculares ou por outros assuntos, interrompia-os antes do
fim e voltava para o retiro. Para ele, que se alimentava da doçura
celeste, o mundo era insípido. As delícias celestiais tinham-no
tornado incapaz de suportar as grosseiros prazeres dos homens.
Procurava sempre um lugar escondido, onde pudesse entregar a seu Deus
não só o espírito mas todo o seu corpo. Quando estava em lugares
públicos e era visitado de repente pelo Senhor, para não ficar sem
cela, fazia um pequeno abrigo com sua própria capa. Às vezes,
quando estava sem capa, para não perder o maná escondido, cobria o
rosto com as mangas.
Furtava-se sempre aos olhares dos presentes, para que não se dessem
conta da presença do Amado e para poder rezar sem que o percebessem,
mesmo nos estreitos limites dum navio. Se não o conseguia, fazia de
seu próprio peito um templo. Fora de si e totalmente absorto em
Deus, ele parava de tossir, de gemer, de suspirar forte, de se
entregar a qualquer manifestação externa.
95. Isso em casa. Quando rezava em florestas ou lugares ermos,
enchia os bosques de gemidos, derramava lágrimas por toda parte,
batia no peito e, achando-se mais oculto que num esconderijo,
conversava muitas vezes em voz alta com o seu Deus. Respondia ao
juiz, fazia pedidos ao pai, conversava com o amigo, entretinha-se
com o esposo. De fato, para fazer um holocausto múltiplo de todo o
interior de seu coração, propunha a seus próprios olhos de muitas
maneiras aquele que é sumamente simples. Muitas vezes ficava pensando
com os lábios parados, e, levando para dentro todo o seu exterior,
elevava-se até os céus. Transformado não só em orante mas na
própria oração, unia a atenção e o afeto num único desejo que
dirigia ao Senhor.
De que suavidade não era invadido, ele que estava acostumado a orar
dessa forma! Só ele é quem sabe. Eu apenas posso admirá-lo.
Só quem tem a experiência disso pode saber; para os demais o
mistério continua inacessível: com o espírito todo abrasado de
ardor, interior e exteriormente absorto, ele já se tornara cidadão
dos céus.
Acostumara-se a não perder por negligência nenhuma visita do
Espírito, e por isso, quando lhe era oferecida alguma, seguia-a,
saboreando a doçura que lhe era dada enquanto o Senhor o permitia.
Quando era solicitado por outro afazer ou tinha que prestar atenção
na viagem, e pressentia sensivelmente algum toque da graça, saboreava
aqui e ali, com a maior freqüência, o dulcíssimo maná. Mesmo na
estrada, deixava os companheiros irem à frente, parava e,
entregando-se ao gozo da nova inspiração, não deixava passar em
vão aquela graça.
|
|