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103. Quando estava em Sena, apareceu por lá um frade da Ordem
dos Pregadores, homem verdadeiramente espiritual e doutor em sagrada
teologia. Foi visitar São Francisco e os dois saborearam uma longa
e agradável conversa sobre as palavras do Senhor. Quis o mestre
saber sua opinião sobre aquele texto de Ezequiel: "Se não
advertires ao ímpio sobre sua impiedade, eu te pedirei contas de seu
sangue". E esclareceu: "São muitos, bom pai, os que eu conheço
e sei que estão em pecado mortal, mas nem sempre lhes mostro sua
impiedade. Será que Deus vai me pedir contas de suas almas?"
São Francisco respondeu que era um ignorante e que por isso estava
mais na situação de aprender com ele do que na de dar sentenças sobre
as Escrituras, mas o humilde mestre lhe disse: "Irmão, já ouvi a
exposição de alguns sábios sobre esse texto, mas gostaria de saber
qual é o teu pensamento".
Falou, então, São Francisco: "Se é em geral que devemos
entender essa palavra, eu acho que o servo de Deus deve arder tanto na
vida e na santidade, que repreenda todos os maus com a luz de seu
exemplo e com a voz de seu comportamento. O esplendor da vida e o bom
perfume da fama é que vão convencer a todos de sua iniquidade".
O frade foi embora muito edificado e disse aos companheiros de São
Francisco: "Meus irmãos, a teologia desse homem, firmada na
pureza da contemplação, é uma águia a voar; nossa ciência
arrasta-se pela terra".
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