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106. Havia na Marca de Ancona um secular que, esquecido de sua
salvação e ignorante de Deus, entregara-se à vaidade.
Chamavam-no "Rei dos Versos", porque se projetara como cantor de
coisas desavergonhadas e compositor de canções mundanas. Ficou tão
famoso nas glórias deste mundo, que chegou a ser coroado com toda a
pompa pelo próprio imperador.
Enquanto assim caminhava, nas trevas e arrastando a iniquidade nas
rédeas da vaidade, a bondade divina teve compaixão dele e resolveu
chamá-lo para que não viesse a perecer abandonado. Por providência
divina, encontraram-se em um mosteiro de pobres reclusas ele e São
Francisco. São Francisco fora com seus companheiros para visitar
suas filhas. O cantor fora com alguns colegas visitar uma parenta.
A mão de Deus pousou sobre ele, que viu com seus próprios olhos
São Francisco assinalado por duas espadas refulgentes e cruzadas,
uma da cabeça aos pés e outra atravessando o peito, de uma mão à
outra. Não conhecia São Francisco mas, depois de tão
surpreendente milagre, identificou-o imediatamente. Espantado pelo
que tinha visto, começou imediatamente a fazer bons propósitos,
ainda que para o futuro.
O santo pai, por sua vez, tendo pregado primeiro a todos em comum,
traspassou o homem com a espada da palavra de Deus. Admoestou-o com
bondade a respeito da vaidade do mundo e do seu desprezo, e terminou
cravando seu coração com a ameaça dos julgamentos de Deus.
O cantor respondeu na mesma hora: "Para que mais palavras? Vamos
aos fatos. Tira-me do meio dos homens e devolve-me ao grande
imperador!"
No dia seguinte o santo lhe deu o hábito e, porque tinha voltado para
a paz do Senhor, chamou-o de Frei Pacífico. Essa conversão teve
enorme repercussão, porque seus admiradores eram inúmeros.
Na companhia do bem-aventurado pai, Frei Pacífico começou a ter
consolações que nunca tivera. Viu, diversas vezes, coisas que
ninguém mais via. Pouco tempo depois, viu São Francisco marcado
na fronte com um grande Tau com círculos multicores, bonito como um
pavão.
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