CAPÍTULO 72. Frei Pacífico vê espadas brilhantes em sua boca

106. Havia na Marca de Ancona um secular que, esquecido de sua salvação e ignorante de Deus, entregara-se à vaidade. Chamavam-no "Rei dos Versos", porque se projetara como cantor de coisas desavergonhadas e compositor de canções mundanas. Ficou tão famoso nas glórias deste mundo, que chegou a ser coroado com toda a pompa pelo próprio imperador.

Enquanto assim caminhava, nas trevas e arrastando a iniquidade nas rédeas da vaidade, a bondade divina teve compaixão dele e resolveu chamá-lo para que não viesse a perecer abandonado. Por providência divina, encontraram-se em um mosteiro de pobres reclusas ele e São Francisco. São Francisco fora com seus companheiros para visitar suas filhas. O cantor fora com alguns colegas visitar uma parenta.

A mão de Deus pousou sobre ele, que viu com seus próprios olhos São Francisco assinalado por duas espadas refulgentes e cruzadas, uma da cabeça aos pés e outra atravessando o peito, de uma mão à outra. Não conhecia São Francisco mas, depois de tão surpreendente milagre, identificou-o imediatamente. Espantado pelo que tinha visto, começou imediatamente a fazer bons propósitos, ainda que para o futuro.

O santo pai, por sua vez, tendo pregado primeiro a todos em comum, traspassou o homem com a espada da palavra de Deus. Admoestou-o com bondade a respeito da vaidade do mundo e do seu desprezo, e terminou cravando seu coração com a ameaça dos julgamentos de Deus.

O cantor respondeu na mesma hora: "Para que mais palavras? Vamos aos fatos. Tira-me do meio dos homens e devolve-me ao grande imperador!"

No dia seguinte o santo lhe deu o hábito e, porque tinha voltado para a paz do Senhor, chamou-o de Frei Pacífico. Essa conversão teve enorme repercussão, porque seus admiradores eram inúmeros.

Na companhia do bem-aventurado pai, Frei Pacífico começou a ter consolações que nunca tivera. Viu, diversas vezes, coisas que ninguém mais via. Pouco tempo depois, viu São Francisco marcado na fronte com um grande Tau com círculos multicores, bonito como um pavão.