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122. Chegou uma vez o santo, com um companheiro, a uma igreja
situada longe das casas, e desejando orar sozinho, disse ao
companheiro: "Irmão, gostaria de ficar sozinho aqui. Vai para o
hospital e volta aqui amanhã cedinho!"
Depois de ter passado muito tempo sozinho, fazendo devotíssimas e
longas orações ao Senhor, olhou ao redor procurando um lugar para
descansar a cabeça e dormir. Mas, de repente, começou a se
perturbar, a ter medo e fastio, tremendo no corpo inteiro. Sentia
com clareza os ataques diabólicos e ouvia bandos de demônios correndo
ruidosamente por cima do telhado.
Levantou-se imediatamente, foi para fora e, fazendo o sinal da cruz
na fronte, disse: "Da parte de Deus todo-poderoso eu vos digo,
demônios, que façais em meu corpo tudo que vos tenha sido permitido.
Suportarei de boa vontade porque, não tendo maior inimigo que meu
próprio corpo, vingando-se de mim havereis de vingar-me de meu
adversário".
Mas eles tinham vindo para o abalar. Quando viram que possuia um
espírito decidido naquele corpo frágil, ficaram envergonhados e logo
sumiram.
123. O companheiro voltou ao amanhecer e, vendo o santo prostrado
diante do altar, ficou esperando fora do coro e aproveitou o tempo para
rezar ele mesmo fervorosamente diante da cruz. Entrou em êxtase e
viu, entre muitos outros tronos no céu, um que se destacava, ornado
de pedras preciosas e refulgente de toda glória. Admirou-se com o
trono e ficou pensando consigo mesmo a quem pertenceria. Ouviu,
então, uma voz que lhe dizia: "Este trono pertenceu a um dos que
caíram, e agora está reservado para o humilde Francisco".
Quando voltou a si, o frade viu o bem-aventurado Francisco sair da
oração e, pouco depois, prostrado com os braços em forma de cruz,
falou com ele como se dirigisse a alguém que reinava no céu e não que
vivia na terra: "Pai, pede por mim ao Filho de Deus, para que me
perdoe os pecados!"
O homem de Deus estendeu a mão para que se levantasse, sabendo que
alguma coisa lhe devia ter sido mostrada na oração. Depois, quando
iam indo embora, o frade perguntou a São Francisco: "Pai, qual
é a tua opinião a respeito de ti mesmo?" Ele respondeu: "Acho
que sou o maior dos pecadores porque, se Deus tivesse demonstrado a
algum criminoso toda a misericórdia que teve comigo, ele seria dez
vezes mais espiritual que eu".
Então o Espírito Santo disse no coração do frade: "Fica certo
de que tiveste uma visão verdadeira, porque a humildade vai levar o
humilde para o trono que foi perdido pela soberba".
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