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145. Vendo que alguns ambicionavam cargos, e achando que só essa
vontade de mandar, além do mais, já os tornava indignos, dizia que
não eram frades menores, pois tinham perdido o merecimento,
esquecidos da vocação recebida. E verberava com muitos argumentos
alguns infelizes que recebiam mal a perda dos cargos, porque não
estavam querendo a carga mas a honra.
Uma vez, disse a seu companheiro: "Acho que não sou um frade menor
se não tiver a disposição que vou descrever. Supõe que sou o
superior dos irmãos, vou ao capítulo, prego, admoesto os frades e,
no fim, dizem contra mim: 'Não nos convém um iletrado e
desprezível, por isso não queremos que reines sobre nós, porque
não sabes falar, és simples e idiota'. Afinal, sou
vergonhosamente posto para fora, desprezado por todos. Pois eu te
digo, se não ouvir essas palavras com a mesma feição, com a mesma
alegria interior, com a mesma vontade de ser santo, não sou frade
menor".
E acrescentou: "O cargo é um perigo, o louvor é um precipício e
a humildade de ser súdito é uma vantagem espiritual. Então, por
que vamos preferir os perigos às vantagens, se nos foi dado tempo para
tirar proveito?"
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