|
148. Encontraram-se em Roma com o bispo de Óstia, que depois
foi Papa, os preclaros luminares do mundo: São Domingos e São
Francisco.
Depois de terem conversado coisas muito agradáveis a respeito de
Deus, disse-lhes o bispo: "Na Igreja primitiva os pastores da
Igreja eram homens pobres e transbordavam de caridade, não de
cupidez. Por que não fazemos bispos e prelados os vossos frades que
se destacam entre os outros pela doutrina e pelo exemplo?"
Surgiu então entre os dois santos uma porfia, não para ver quem
respondia primeiro, mas porque um cedia ao outro a honra e assim queria
obrigá-lo a falar antes. Na realidade, superavam-se numa
competição de mútua veneração.
Por fim venceu a humildade; em Francisco, porque não tomou a
dianteira, e em Domingos porque obedeceu humildemente e respondeu por
primeiro.
Disse pois Domingos ao bispo: "Senhor, meus frades já foram
promovidos a um bom grau, se o souberem reconhecer, e, se depender de
mim, não permitirei que assumam outro tipo de dignidade".
Depois que ele fez esse breve discurso, São Francisco se inclinou
diante do bispo e disse: "Senhor, meus frades têm o nome de menores
para não desejarem ser maiores. Sua vocação é ficar embaixo,
seguindo os passos de Cristo, e dessa maneira, na glorificação dos
santos, serão mais exaltados que os outros. Se quereis que produzam
fruto na Igreja de Deus, conservai-os no estado de sua vocação.
Reduzi-os aos graus inferiores mesmo contrariando suas vontades.
Pai, eu vos suplico: para que não sejam tanto mais soberbos quanto
mais pobres, nem insolentes com os outros, de maneira alguma permitais
que sejam promovidos a prelaturas".
Foi essa a resposta dos santos.
149. Que dizeis disso, filhos dos santos? A presunção e a
inveja estão demonstrando que sois degenerados, e a ambição de bens
prova que, além disso, sois também bastardos. Vós vos dilacerais
e vos devorais mutuamente. Vossas lutas e rivalidades não provêm
senão da concupiscência. Há uma batalha contra as trevas, um duro
combate contra os exércitos dos demônios, e vós virais a espada uns
contra os outros.
Cheios de sabedoria, vossos pais tinham o rosto voltado para o
propiciatório e olhavam um para o outro com familiaridade. Os
filhos, cheios de inveja, não suportam olhar uns para os outros.
Que pode fazer um corpo que tem o coração dividido?
Realmente, o ensino da piedade poderia dar muito mais frutos pelo
mundo inteiro se os ministros da palavra de Deus fossem mais fortemente
unidos pelo vínculo da caridade. O que falamos e ensinamos torna-se
tanto mais suspeito quanto mais se percebe em nós, por sinais
evidentes, algum fermento de ódio. Sei que o que estou falando não
se aplica a alguns homens bons que existem aqui e ali, mas acho que os
maus devem ser extirpados, para não prejudicar os santos.
Que dizer, enfim, dos desejam postos elevados? Que seus pais
chegaram ao reino pelo caminho da humildade, não pelo caminho das
alturas. Os filhos estão perdidos nas curvas da ambição e não vão
encontrar o caminho da cidade em que eles moram. Que podemos esperar?
Se não seguimos o seu caminho também não conseguiremos a sua
glória.
Longe de nós, Senhor! Fazei-nos discípulos humildes dos mestres
humildes. Fazei com que - consangüíneos de espírito - nos
queiramos bem e possamos ver os filhos de vossos filhos e a paz sobre
Israel.
|
|