|
162. Seja-me permitido, pai santo, elevar hoje ao céu a minha
lamentação por aqueles que se dizem teus. São muitos os que
detestam o exercício das virtudes e preferem descansar em vez de
trabalhar, provando que não são filhos de Francisco mas de
Lúcifer. Temos mais doentes que militantes quando, nascidos para o
trabalho, deveriam ver sua vida como um combate. Não gostam de ser
úteis pela ação, e pela contemplação não o conseguem. Perturbam
a todos com sua singularidade, trabalham mais com a boca que com as
mãos, odeiam quem os repreende e não se deixam tocar nem com a ponta
dos dedos.
O que mais me escandaliza são aqueles que, como dizia São
Francisco, em sua casa só conseguiam viver suando e agora, sem
trabalhar, alimentam-se com o suor dos pobres. Mas não são tolos!
Não fazem nada mas parecem sempre ocupados. Sabem muito bem as horas
das refeições e, quando a fome aperta muito cedo, dizem que o sol é
que está atrasado.
Será que posso acreditar, pai bondoso, que as monstruosidades dessas
pessoas vão ser dignas de tua glória? Não merecem nem o hábito!
Sempre ensinaste que, neste tempo passageiro e fugaz, precisamos nos
enriquecer de méritos, para não ter que mendigar no futuro. Mas
esses frades, destinados ao exílio, não estão aproveitando nem a
pátria. E a doença grassa entre os súditos porque os superiores se
omitem, como se fosse possível virem a escapar do suplício desses
frades cujos vícios eles sustentam.
|
|