CAPÍTULO 121. Queixa feita ao santo dos preguiçosos e dos gulosos

162. Seja-me permitido, pai santo, elevar hoje ao céu a minha lamentação por aqueles que se dizem teus. São muitos os que detestam o exercício das virtudes e preferem descansar em vez de trabalhar, provando que não são filhos de Francisco mas de Lúcifer. Temos mais doentes que militantes quando, nascidos para o trabalho, deveriam ver sua vida como um combate. Não gostam de ser úteis pela ação, e pela contemplação não o conseguem. Perturbam a todos com sua singularidade, trabalham mais com a boca que com as mãos, odeiam quem os repreende e não se deixam tocar nem com a ponta dos dedos.

O que mais me escandaliza são aqueles que, como dizia São Francisco, em sua casa só conseguiam viver suando e agora, sem trabalhar, alimentam-se com o suor dos pobres. Mas não são tolos! Não fazem nada mas parecem sempre ocupados. Sabem muito bem as horas das refeições e, quando a fome aperta muito cedo, dizem que o sol é que está atrasado.

Será que posso acreditar, pai bondoso, que as monstruosidades dessas pessoas vão ser dignas de tua glória? Não merecem nem o hábito! Sempre ensinaste que, neste tempo passageiro e fugaz, precisamos nos enriquecer de méritos, para não ter que mendigar no futuro. Mas esses frades, destinados ao exílio, não estão aproveitando nem a pátria. E a doença grassa entre os súditos porque os superiores se omitem, como se fosse possível virem a escapar do suplício desses frades cujos vícios eles sustentam.