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165. Embora desejasse sair logo deste mundo como se fosse um
desterro onde devia peregrinar, este feliz viajante sabia aproveitar o
que há no mundo, e bastante. Usava o mundo como um campo de batalha
com os príncipes das trevas, mas também como um espelho claríssimo
da bondade de Deus.
Louvava o Criador em todas as suas obras e sabia atribuir os atos a
seu Autor.
Exultava em todas as obras das mãos do Senhor e, através dos
espetáculos que lhe davam prazer, sabia encontrar aquele que é razão
e causa de toda vida. Nas coisas belas reconhecia aquele que é o mais
belo, e ouvia todas as coisas boas clamarem: "Quem nos fez é
ótimo". Seguia sempre o amado pelos vestígios que deixou nas coisas
e fazia de tudo uma escada para chegar ao seu trono.
Abraçava todas as criaturas com afeto e devoção jamais vistos, e
falava com elas sobre o Senhor, convidando-as a louvá-lo. Poupava
os candeeiros, lâmpadas e velas, porque não queria apagar com sua
mão o fulgor que era um sinal da luz eterna. Andava com respeito por
cima das pedras, pensando naquele que foi chamado de Pedra. Quando
usavam o versículo: "Vós me exaltastes sobre a pedra", para dizer
alguma coisa mais reverente, exclamava: "Vós me exaltastes aos pés
da Pedra".
Aos frades que cortavam lenha proibia arrancar a árvore inteira, para
que tivesse esperança de brotar outra vez. Mandou que o hortelão
deixasse sem cavar o terreno ao redor da horta, para que a seu tempo o
verde das ervas e a beleza das flores pudessem apregoar o formoso Pai
de todas as coisas. Mandou reservar um canteiro na horta para as ervas
aromáticas e para as flores, para lembrarem a suavidade eterna aos que
as olhassem.
Recolhia do caminho os vermezinhos, para que não fossem pisados, e
mandava dar mel e o melhor vinho às abelhas, para não morrerem de
fome no frio do inverno. Chamava de irmãos todos os animais, embora
tivesse preferência pelos mais mansos.
Quem poderia contar tudo? Toda aquela Fonte de bondade, que vai ser
tudo para todos, já iluminava tudo em tudo para este santo.
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