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166. Todas as criaturas procuravam retribuir o amor do santo e
recompensá-lo à altura, com gratidão. Sorriam quando as
acariciava, atendiam quando chamava e obedeciam quando mandava. Vamos
contar alguns casos.
Quando esteve doente dos olhos e teve que permitir que o tratassem,
chamaram um médico. Ele veio com um ferro de cauterizar e mandou
colocá-lo no fogo até ficar em brasa. O bem-aventurado pai,
animando o corpo já abalado pelo medo, assim falou com o fogo: "Meu
irmão fogo, o Altíssimo te fez forte, bonito e útil, para
emulares a beleza das outras coisas. Sê amigo meu nesta hora, sê
delicado, porque eu sempre te amei no Senhor. Rogo ao grande Senhor
que te criou, para que abrande um pouco o teu calor, para que queime
com suavidade e eu possa agüentar".
Depois da oração, fez o sinal da cruz e ficou esperando
intrepidamente. Quando o médico segurou o ferro em brasa, os frades
fugiram por respeito, mas o santo se apresentou ao ferro alegre e
sorridente.
O instrumento penetrou crepitando na carne delicada e a cauterização
se estendeu desde a orelha até o supercílio. As palavras do santo
testemunham melhor a dor que ele mesmo sentiu. Quando os frades, que
tinham fugido, voltaram, ele disse sorrindo: "Covardes e fracos de
coração, por que fugistes? Na verdade eu vos digo que não senti
nem o ardor do fogo nem dor alguma em minha carne". E para o
médico: "Se ainda não queimou bem, aplica outra vez!"
Percebendo a diferença daquele caso, o médico exaltou o milagre:
"Eu vos digo, irmãos, que hoje vi uma coisa admirável". Acho
que tinha recuperado a inocência primitiva esse homem que amansava,
quando queria, o que por si não é manso.
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