CAPÍTULO 125. As criaturas lhe retribuem o amor. O fogo que não o queima

166. Todas as criaturas procuravam retribuir o amor do santo e recompensá-lo à altura, com gratidão. Sorriam quando as acariciava, atendiam quando chamava e obedeciam quando mandava. Vamos contar alguns casos.

Quando esteve doente dos olhos e teve que permitir que o tratassem, chamaram um médico. Ele veio com um ferro de cauterizar e mandou colocá-lo no fogo até ficar em brasa. O bem-aventurado pai, animando o corpo já abalado pelo medo, assim falou com o fogo: "Meu irmão fogo, o Altíssimo te fez forte, bonito e útil, para emulares a beleza das outras coisas. Sê amigo meu nesta hora, sê delicado, porque eu sempre te amei no Senhor. Rogo ao grande Senhor que te criou, para que abrande um pouco o teu calor, para que queime com suavidade e eu possa agüentar".

Depois da oração, fez o sinal da cruz e ficou esperando intrepidamente. Quando o médico segurou o ferro em brasa, os frades fugiram por respeito, mas o santo se apresentou ao ferro alegre e sorridente.

O instrumento penetrou crepitando na carne delicada e a cauterização se estendeu desde a orelha até o supercílio. As palavras do santo testemunham melhor a dor que ele mesmo sentiu. Quando os frades, que tinham fugido, voltaram, ele disse sorrindo: "Covardes e fracos de coração, por que fugistes? Na verdade eu vos digo que não senti nem o ardor do fogo nem dor alguma em minha carne". E para o médico: "Se ainda não queimou bem, aplica outra vez!"

Percebendo a diferença daquele caso, o médico exaltou o milagre: "Eu vos digo, irmãos, que hoje vi uma coisa admirável". Acho que tinha recuperado a inocência primitiva esse homem que amansava, quando queria, o que por si não é manso.