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172. Já que a força do amor tinha feito dele um irmão das outras
criaturas, não nos admiraremos de que a caridade de Cristo tenha
feito dele um irmão ainda maior daqueles que foram distinguidos pela
semelhança com o Criador.
Dizia que não havia coisa mais importante que a salvação das almas e
o provava com freqüência ainda maior lembrando que o Unigênito de
Deus dignou-se ser crucificado pelas almas. Daí seu esforço na
oração, sua pregação constante e seu excesso nos exemplos que
dava.
Achava que não seria amigo de Cristo se não amasse as almas que
Cristo amava. Essa era a principal causa de sua veneração pelos
mestres de teologia, que eram auxiliares de Cristo e exerciam com ele
o mesmo ofício.
Mas amava de maneira especial, profunda, de todo o coração, os
próprios irmãos, por conviverem da mesma fé e partilharem da
herança eterna.
173. Todas as vezes que lhe chamavam a atenção pelo rigor da vida
que levava, respondia que tinha sido dado à Ordem como modelo, para
ser como uma águia, animando seus filhotes a voar. Por isso, embora
sua carne inocente já se submetesse espontaneamente ao espírito, sem
precisar de nenhum castigo por causa de ofensas, ele a cumulava de
sacrifícios para dar exemplo, mantendo-se no caminho duro só para
animar os outros.
E com razão, porque costumamos olhar mais para as ações que para as
palavras dos superiores. E era com as obras, pai, que discursavas
mais suavemente, persuadias com mais facilidade e provavas com certeza
maior.
Se os superiores falarem as línguas dos homens e dos anjos mas não
derem exemplo de caridade, para mim valem pouco, e para si mesmos não
valem nada. Mas, onde o que repreende não é temido e o capricho
substituiu a razão, será que os selos da autoridade vão ser
suficientes para salvar?
De qualquer jeito, devemos fazer o que mandam, para que a água
chegue ao canteiro ainda que seja por um canal ressecado. Enquanto
isso, vamos colhendo rosas no meio dos espinhos, de maneira que os
maiores sirvam os menores.
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