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182. Como o coração cheio de caridade detesta o que é
detestável aos olhos de Deus, essa era a atitude de São
Francisco. Execrava os detratores com horror, e dizia que tinham
veneno na língua e envenenavam os outros. Por isso evitava
encontrar-se com os maldizentes, pulgas que picam quando falam, e
desviava os ouvidos para não manchá-los, como nós mesmos vimos.
Certa vez ouviu um frade denegrindo a fama de outro. Virou- se para
Frei Pedro Cattani, seu vigário, e proferiu este terrível
juízo: "A Ordem corre grande perigo, se não neutralizar os
difamadores. Bem depressa o perfume suavíssimo de muitos vai começar
a cheirar mal se não for fechada a boca fétida dessa gente.
Levanta-te, levanta-te, faz uma inquisição severa e, se
descobrires que o frade acusado é inocente, inflige um castigo tão
duro no acusador que os outros nunca mais se esqueçam. Se tu mesmo
não o puderes punir, entrega-o nas mãos do atleta florentino!"
(Chamava de lutador Frei João de Florença, homem grande e muito
forte). "Quero que tenhas o maior cuidado, tu e todos os
ministros, para que essa peste não se alastre".
Disse diversas vezes que aquele que despojasse seu irmão da boa fama
devia ser despojado de seu hábito e não poderia levantar os olhos para
Deus enquanto não devolvesse o que tinha tirado. Foi por isso que os
frades daquele tempo abominaram esse vício de maneira especial e
estabeleceram firmemente que haveriam de evitar com todo cuidado
qualquer coisa que diminuísse a honra dos outros ou que soasse a
desprezo.
Ótima solução! Que é o detrator senão o fel dos homens, o
fermento da maldade, a desonra do mundo? Que é o falador senão o
escândalo da Ordem, o veneno do claustro, a quebra da unidade?
Infelizmente a superfície da terra está cheia de animais venenosos,
e não se pode esperar que algum dos homens de valor escape das mordidas
dos invejosos. Oferecem prêmios aos delatores e às vezes se derruba
a inocência para dar a palma à falsidade. Quando alguém não
consegue viver com sua honradez, ganha comida e roupas devastando a
honradez dos outros.
183. A esse respeito, dizia muitas vezes São Francisco:
"Isto é o que pensa o murmurador: 'Minha vida não é perfeita,
não tenho ciência nem algum outro dom particular, e por isso não
estou bem nem com Deus nem com os homens. Já sei o que vou fazer:
porei defeito nos escolhidos, e assim conseguirei o favor dos
importantes. Sei que meu superior é também um homem, que já agiu
comigo do mesmo jeito, por isso basta cortar os cedros que o meu
arbusto há de se destacar na floresta. Vamos, miserável,
alimenta-te de carne humana e, como não podes viver de outra
maneira, rói as entranhas dos irmãos!'"
"Pessoas assim esforçam-se por parecer, não por ser boas. Acusam
os vícios, mas não os corrigem em si mesmas. Só louvam uma pessoa
quando querem ser favorecidas por sua autoridade, mas calam os louvores
que acham que não vão chegar aos ouvidos dos interessados. Em troca
de elogios funestos, vendem a palidez de suas faces macilentas, para
parecerem espirituais, com direito de julgarem os outros sem serem
julgados por ninguém. Querem ser chamados de santos, sem o ser, e
gostam de ter o nome dos anjos, mas sem a sua virtude".
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