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184. Estando já o santo próximo de seu fim e aguardando o chamado
do Senhor, um frade que sempre se interessava muito pelas coisas de
Deus, levado por sua devoção para com a Ordem, disse- lhe o
seguinte: "Pai, tu vais passar, e a família que te seguiu vai ser
deixada no vale de lágrimas. Indica alguém que conheças na Ordem,
em quem teu espírito possa descansar e a quem possas confiar com
segurança a responsabilidade do serviço geral da Ordem".
São Francisco respondeu, entremeando suas palavras de suspiros:
"Filho, não vejo ninguém que seja suficientemente capaz de ser o
comandante de um exército tão numeroso, pastor de um rebanho tão
grande. Mas vou tentar descrever ou, como se diz, fazer para vós o
retrato de como deve ser o pai desta família".
185. "Deve ser um homem - prosseguiu - de vida austeríssima,
de grande discrição, de fama intocável. Um homem que não tenha
amizades particulares, para que não tenha mais amor por uma parte,
gerando um escândalo no conjunto. Um homem amigo do esforço pela
oração, que reserve algumas horas para sua alma e outras para o
rebanho que lhe foi confiado. Deve começar logo de manhã com a
missa, recomendando à proteção divina a si mesmo e o rebanho, em
longa oração. Depois da oração, deve colocar-se em público à
disposição de todos para ser 'depenado', para responder a todos,
para atender a todos com mansidão".
"Deve ser um homem que não olhe as coisas pelo ângulo sórdido do
favoristismo, que se preocupe tanto com os menores e os simples quanto
com os instruídos e os maiores. Um homem que, mesmo que se distinga
pelo dom da cultura, se destaque mais ainda pela simplicidade, e que
cultive a virtude. Um homem que deteste o dinheiro, que é o que mais
prejudica nossa profissão de perfeição, e que, chefe de uma Ordem
pobre, possa ser imitado por todos, sem jamais abusar da bolsa".
"Para si mesmo deve contentar-se com o hábito e um livrinho de
notas; para o serviço dos frades, com a caixa de penas e o carimbo.
Não seja colecionador de livros, nem muito entregue às leituras,
para não roubar de seu encargo o que dá aos estudos. Deve ser um
homem que console os aflitos, porque é o último refúgio dos
atribulados; para que, se não tiver os remédios para a saúde, os
enfermos não acabem se desesperando. Para amansar os atrevidos,
humilhe-se, ceda alguma coisa de seus direitos, para ganhar sua alma
para Cristo. Não feche as entranhas de sua misericórdia para os
egressos da Ordem, pobres ovelhas tresmalhadas, sabendo que são
muito fortes as tentações que podem levar a essa queda extrema".
186. "Quisera que todos o respeitassem por fazer as vezes de
Cristo, e que o atendessem com bondade em tudo que for necessário.
Mas também seria oportuno que ele não se alegrasse com as honras e
não tivesse maior prazer com os favores que com as injúrias. Quando
precisasse comer por estar enfraquecido ou cansado, que preferisse
fazê-lo em público e não às escondidas, para que os outros também
não fiquem envergonhados de alimentar seus corpos enfraquecidos".
"Cabe principalmente a ele distinguir as consciências escondidas,
descobrir a verdade em seus veios mais profundos e guardar seus ouvidos
dos falatórios. Enfim, deve ser tal que jamais macule a beleza
austera da justiça pelo desejo de preservar a própria honra, e veja
em seu alto ofício mais uma carga que um cargo. Mas, para que a
excessiva mansidão não favoreça a moleza e para que a indulgência
demasiada não acabe com a disciplina, ame a to- dos mas saiba também
ser temido pelos que praticam o mal".
"Gostaria que tivesse companheiros cheios de virtude, que, como
ele, dessem exemplo de todas as coisas boas: austeros consigo mesmos,
fortes diante das angústias, mas também devidamente afáveis, para
receberem com santa alegria todos os que chegarem".
"Assim deveria ser o ministro geral da Ordem", concluiu.
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