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191. Sempre manteve um desejo constante e um esforço vigilante
para preservar entre seus filhos o vínculo da união, para que fossem
formados pacificamente no seio da mesma mãe aqueles que tinham sido
atraídos pelo mesmo espírito e gerados pelo mesmo pai. Queria que os
grandes se unissem aos pequenos, que os sábios e os simples vivessem
em comunhão fraterna e que os que se encontrassem longe sentissem que
estavam ligados pelo amor.
Uma vez, contou esta parábola, rica de ensinamentos: "Vamos supor
que todos os religiosos da Igreja se reuniram em um só capítulo
geral! Estando presentes letrados e analfabetos, sábios e os que
sabem agradar a Deus mesmo sem sabedoria, encomendaram um sermão a um
dos sábios e a um dos simples".
"O sábio, por ser sábio, calculou consigo mesmo: 'isto aqui não
é lugar de demonstrar conhecimentos, porque estão presentes homens
perfeitos na ciência, e não convém que eu me faça notar pela
afetação, dizendo coisas sutis diante de pessoas mais sutis. Talvez
seja mais proveitoso falar com simplicidade'".
"Amanheceu o dia combinado, reuniram-se as congregações de
santos, sequiosas de ouvir o sermão. O sábio se apresentou vestido
de saco, com a cabeça coberta de cinza e, diante da admiração de
todos, pregando mais com o exemplo, foi breve nas palavras. Disse:
'Prometemos grandes coisas, maiores são as que nos foram
prometidas. Observemos as primeiras e suspiremos pelas segundas. O
prazer é breve, o castigo é perpétuo, o sofrimento é pequeno, a
glória não tem fim. Muitos são os chamados, poucos os escolhidos,
todos terão a sua retribuição"'.
"Os ouvintes romperam em lágrimas com o coração compungido e
veneraram aquele verdadeiro sábio como um santo.
"'Vejam só, disse o simples em seu coração. O sábio me tirou
tudo que eu ia fazer e dizer. Mas já sei o que farei. Conheço
alguns versículos de salmos: vou agir como um sábio, já que ele
agiu como um simples'".
"Chegou a sessão do dia seguinte, o simples se levantou, propôs um
Salmo como tema. Inspirado pelo Espírito Santo, falou com tanto
fervor, com tanta sutileza, com tanta doçura, por um dom que só
podia vir de Deus, que todos ficaram muito admirados e disseram:
'Deus fala com os simples'".
192. Depois o homem de Deus dava esta explicação para a
parábola que tinha contado: "Nossa Ordem é uma assembléia muito
grande, um verdadeiro capítulo geral, que se reuniu de todas as
partes do mundo para viver de uma maneira comum. Nela os sábios
aproveitam o que é dos simples, vendo que os ignorantes buscam as
coisas do céu com inflamado vigor e que os não instruídos pelos
homens aprenderam com o Espírito as coisas espirituais.
Nela também os simples aproveitam o que é dos sábios, porque vêem
que nela convivem com eles homens preclaros, que poderiam gozar de
grande conceito no mundo. É isso que faz brilhar a beleza desta
bem-aventurada família, cuja variedade tanto agrada ao Pai de
família".
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