PASSAMENTO DO SANTO PAI


CAPÍTULO 162. Exortação e bênção final aos frades

214. Na morte do homem - diz o Sábio - suas obras serão postas às claras. Neste santo vemos que isso se realizou por completo, e gloriosamente. Ele percorreu com alegria interior o caminho dos mandamentos de Deus, chegou ao alto passando pelos degraus de todas as virtudes e atingiu o fim como uma obra amoldável, aperfeiçoada pelo martelo das múltiplas tribulações.

Quando partiu livre para os céus, pisando as glórias desta vida mortal, resplandeceram mais as suas obras admiráveis, e ficou provado que tudo que tinha vivido era de Deus. Achou que viver para o mundo era um opróbrio, amou os seus até o fim e recebeu a morte cantando.

Sentindo já próximos seus últimos dias, em que a luz perpétua substituiria a luz que se acaba, demonstrou pelo exemplo de sua virtude que não tinha nada em comum com o mundo. Prostrado pela doença grave que encerrou todos os seus sofrimentos, fez com que o colocassem nu sobre a terra nua, para que, naquela hora extrema em que ainda podia enraivecer o inimigo, estar preparado para lutar nu contra o adversário nu.

Esperava intrepidamente o triunfo e já apertava em suas mãos a coroa da justiça. Posto no chão, sem a sua roupa de saco, voltou o rosto para o céu como costumava e, todo concentrado naquela glória, cobriu a chaga do lado direito com a mão esquerda, para que não a vissem. E disse aos frades: "Eu cumpri a minha missão. Que Cristo vos ensine a cumprir a vossa!"

215. Vendo isso, os filhos sucumbiram à dor imensa da compaixão, em meio a intensas lágrimas e dando suspiros profundos.

O guardião, contendo os soluços e adivinhando por inspiração divina o que o santo queria, levantou-se, foi correndo buscar uma calça, o hábito de saco e o capuz, e disse ao pai: "Fica sabendo que te empresto, em virtude da obediência, este hábito, as calças e o capuz! Para saberes que não tens nenhum direito de propriedade, tiro-te o poder de dá-los a quem quer que seja".

O santo gostou e se rejubilou de alegria interior, vendo que tinha mantido a fidelidade para com a Senhora Pobreza até o fim. Fizera tudo isso por zelo da pobreza, a ponto de não querer ter no fim nem o hábito emprestado. Usara na cabeça o capuz de saco para esconder as cicatrizes da doença dos olhos, quando teria necessidade de um gorro de lã cara, que fosse bem macio.

216. Depois disso, o santo levantou as mãos para o céu e louvou a Cristo porque, livre de tudo, já estava indo ao seu encontro.

Mas, para demonstrar que era um verdadeiro imitador do Cristo, seu Deus, em todas as coisas, amou até o fim os frades seus filhos, a quem amara desde o começo. Pois fez chamar todos os irmãos presentes e, consolando-os de sua morte, exortou-os com afeto de pai ao amor de Deus. Falou também sobre a observância da paciência e da pobreza, dizendo que o santo Evangelho era mais importante do que todas as normas. Estando todos os frades sentados ao seu redor, estendeu sobre eles a mão e, começando por seu vigário, a impôs sobre a cabeça de cada um.

E disse: "Filhos todos, adeus no temor do Senhor! Permanecei sempre nele! A tentação e a tribulação estão para chegar. Felizes os que perseverarem no que começaram. Eu vou para Deus, a cuja graça recomendo-vos todos". Nos que estavam presentes, abençoou a todos os frades que estavam por todo o mundo e os que haveriam de vir depois deles, até o fim dos tempos.

Que ninguém usurpe para si mesmo essa bênção que, nos presentes, deu aos ausentes. Assim como se acha parece ter em vista uma pessoa particular, mas isso é um desvirtuamento.