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214. Na morte do homem - diz o Sábio - suas obras serão postas
às claras. Neste santo vemos que isso se realizou por completo, e
gloriosamente. Ele percorreu com alegria interior o caminho dos
mandamentos de Deus, chegou ao alto passando pelos degraus de todas as
virtudes e atingiu o fim como uma obra amoldável, aperfeiçoada pelo
martelo das múltiplas tribulações.
Quando partiu livre para os céus, pisando as glórias desta vida
mortal, resplandeceram mais as suas obras admiráveis, e ficou provado
que tudo que tinha vivido era de Deus. Achou que viver para o mundo
era um opróbrio, amou os seus até o fim e recebeu a morte cantando.
Sentindo já próximos seus últimos dias, em que a luz perpétua
substituiria a luz que se acaba, demonstrou pelo exemplo de sua virtude
que não tinha nada em comum com o mundo. Prostrado pela doença grave
que encerrou todos os seus sofrimentos, fez com que o colocassem nu
sobre a terra nua, para que, naquela hora extrema em que ainda podia
enraivecer o inimigo, estar preparado para lutar nu contra o
adversário nu.
Esperava intrepidamente o triunfo e já apertava em suas mãos a coroa
da justiça. Posto no chão, sem a sua roupa de saco, voltou o rosto
para o céu como costumava e, todo concentrado naquela glória, cobriu
a chaga do lado direito com a mão esquerda, para que não a vissem.
E disse aos frades: "Eu cumpri a minha missão. Que Cristo vos
ensine a cumprir a vossa!"
215. Vendo isso, os filhos sucumbiram à dor imensa da
compaixão, em meio a intensas lágrimas e dando suspiros profundos.
O guardião, contendo os soluços e adivinhando por inspiração
divina o que o santo queria, levantou-se, foi correndo buscar uma
calça, o hábito de saco e o capuz, e disse ao pai: "Fica sabendo
que te empresto, em virtude da obediência, este hábito, as calças
e o capuz! Para saberes que não tens nenhum direito de propriedade,
tiro-te o poder de dá-los a quem quer que seja".
O santo gostou e se rejubilou de alegria interior, vendo que tinha
mantido a fidelidade para com a Senhora Pobreza até o fim. Fizera
tudo isso por zelo da pobreza, a ponto de não querer ter no fim nem o
hábito emprestado. Usara na cabeça o capuz de saco para esconder as
cicatrizes da doença dos olhos, quando teria necessidade de um gorro
de lã cara, que fosse bem macio.
216. Depois disso, o santo levantou as mãos para o céu e louvou
a Cristo porque, livre de tudo, já estava indo ao seu encontro.
Mas, para demonstrar que era um verdadeiro imitador do Cristo, seu
Deus, em todas as coisas, amou até o fim os frades seus filhos, a
quem amara desde o começo. Pois fez chamar todos os irmãos presentes
e, consolando-os de sua morte, exortou-os com afeto de pai ao amor
de Deus. Falou também sobre a observância da paciência e da
pobreza, dizendo que o santo Evangelho era mais importante do que
todas as normas. Estando todos os frades sentados ao seu redor,
estendeu sobre eles a mão e, começando por seu vigário, a impôs
sobre a cabeça de cada um.
E disse: "Filhos todos, adeus no temor do Senhor! Permanecei
sempre nele! A tentação e a tribulação estão para chegar.
Felizes os que perseverarem no que começaram. Eu vou para Deus, a
cuja graça recomendo-vos todos". Nos que estavam presentes,
abençoou a todos os frades que estavam por todo o mundo e os que
haveriam de vir depois deles, até o fim dos tempos.
Que ninguém usurpe para si mesmo essa bênção que, nos presentes,
deu aos ausentes. Assim como se acha parece ter em vista uma pessoa
particular, mas isso é um desvirtuamento.
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