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44. Quando São Francisco morava em um eremitério perto de
Rieti, visitava-o um médico, todos os dias, para cuidar de seus
olhos. Certo dia, disse o santo aos frades: "Convidai o médico e
dai-lhe um bom almoço". O guardião respondeu: "Pai, digo
ruborizado que tenho vergonha de convidá-lo, porque estamos muito
pobres".
O santo retrucou: "Será que vou ter que repetir?" E o médico,
que estava presente, disse: "Irmãos caríssimos, para mim vai ser
muito bom partilhar da vossa pobreza".
Os frades correram e puseram na mesa toda a provisão da sua dispensa,
isto é, um pouquinho de pão, um pouco de vinho e, para comerem
alguma coisa melhor, alguns legumes trazidos da cozinha. Nesse meio
tempo, a mesa do Senhor teve pena da mesa dos servos: bateram à
porta e eles foram atender. Era uma mulher que lhes deu uma cesta
cheia: um belo pão, peixes e pastéis de camarão, coroados, por
cima, com mel e uvas.
Diante de todas essas coisas, a família dos pobres ficou exultante
e, deixando os pratos miseráveis para o dia seguinte, comeu logo os
mais preciosos. Comovido, o médico disse: "Irmãos, nem vós
religiosos nem nós seculares sabemos apreciar devidamente a santidade
deste homem". Teriam ficado saturados, se não os tivesse satisfeito
mais o milagre que a comida.
Pois é assim que o olhar paterno de Deus jamais abandona os seus;
pelo contrário, serve-os melhor quanto mais são necessitados. Como
Deus é mais generoso que o homem, alimenta-se melhor o pobre que o
tirano.
Livra Frei Ricério de uma tentação
44a. Um frade chamado Ricério, tão nobre de coração como de
nascimento, tinha tamanha confiança nos merecimentos de São
Francisco, que achava que mereceria a graça de Deus aquele a quem
São Francisco desse algum sinal de sua benevolência, mas que
mereceria a ira de Deus quem não tivesse a sua amizade. Como tinha
uma vontade enorme de merecer a amizade do santo, tinha muito medo de
que o pai descobrisse nele algum defeito ignorado, fazendo com que seu
favor ainda ficasse mais distante.
Numa ocasião em que esse frade já estava sendo afligido diária e
gravemente por esse temor, sem nunca ter revelado seu pensamento a
ninguém, passou por perto da cela em que São Francisco estava
rezando. Estava perturbado como de costume. Percebendo tanto a sua
chegada como seu estado de ånimo, o homem de Deus o chamou com
bondade e lhe disse: "Não tenhas mais medo, filho, nem te perturbe
nenhuma tentação, porque gosto muito de ti, e és mesmo um dos mais
queridos, a quem tenho um amor especial. Aqui podes vir confiadamente
quando quiseres, ou ir embora quando te parecer". O frade se
espantou bastante e ficou contente com as palavras do santo pai. A
partir desse dia, seguro de sua amizade, cresceu também na graça do
Salvador, conforme acreditava.
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