CAPÍTULO 2. Descobre a falsidade de um irmão tido por santo

28. Havia um frade que, a julgar pelas aparências, demonstrava uma santidade insigne, embora singular. Estava sempre entregue à oração, observava um silêncio tão rigoroso que até se acostumara a confessar-se por gestos e não por palavras. Tinha grande entusiasmo pelas palavras da Sagrada Escritura e, quando as ouvia, sentia um admirável prazer. Todos achavam que era três vezes santo. Mas aconteceu que o santo pai foi a esse lugar, viu o frade, ouviu o santo. Enquanto todos o louvavam e elogiavam, ele comentou: "Deixai disso, irmãos, não me venhais louvar seu diabólico fingimento. Podeis ficar sabendo que isso é tentação do demônio e engano. Tenho certeza, e o fato de não querer confessar-se é uma prova".

Os frades ficaram chocados, principalmente o vigário do santo. Perguntaram: "Mas como é possível haver engano em todos esses sinais de perfeição?" Disse-lhes o pai: "Aconselhai-o a confessar-se uma ou duas vezes por semana. Se não obedecer, sabereis que é verdade o que eu disse".

O vigário chamou-o à parte e, depois de conversar familiarmente com ele, acabou mandando que se confessasse. Ele não quis saber. Pôs o dedo nos lábios, cobriu a cabeça e deu a entender que não se confessaria de maneira alguma. Os frades emudeceram, com medo do escåndalo do falso santo. Não muitos dias depois, ele saiu espontaneamente da Ordem, voltou para o mundo, retornou ao seu vômito. Afinal, dobrando seus crimes, foi privado tanto a penitência como da vida.

Precisamos tomar sempre muito cuidado com a singularidade, que não é mais do que um precipício atraente. Temos a experiência de tantas pessoas singulares, que pareciam estar subindo aos céus e se precipitaram no abismo. Também devemos considerar o valor da confissão bem feita, porque não só faz mas também mostra quem é santo.