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52. Os santos às vezes são obrigados pela força do Espírito
Santo a falar coisas maravilhosas a respeito de si mesmos, quando é a
glória de Deus que exige uma revelação, ou há alguma exigência da
caridade para edificação do próximo.
Foi por essa razão que, um dia, o santo pai contou a um frade a quem
tinha grande estima uma revelação que tinha tido em sua comunicação
familiar com a majestade divina: "Em nossos dias, existe na terra um
servo de Deus, por quem o Senhor não vai permitir que a fome se
abata sobre a humanidade enquanto ele viver".
Não tinha vaidade nenhuma. Só a santa caridade, que busca seus
interesses, fez com ele que relatasse isso para nossa edificação, em
palavras santas e modestas. E nem devia mesmo esconder com um
silêncio inútil tão admirável prerrogativa da predileção de Deus
para com seu servo.
Todos que estivemos presentes sabemos como foram calmos e pacíficos os
tempos enquanto o santo viveu, e transbordaram na fertilidade de todos
os bens. Não havia fome da palavra de Deus, porque as palavras dos
pregadores eram então cheias de maior virtude, e os corações de
todos os ouvintes estavam mais dispostos para Deus. Refulgiam os
exemplos de santidade na figura dos religiosos, a hipocrisia dos
"caiados" ainda não tinha atacado tantos santos, e a doutrina dos
"transfigurados" ainda não tinha despertado tanta curiosidade. Era
justo que houvesse abundåncia dos bens temporais quando todos tinham
tanto amor pelos bens eternos.
53. Quando ele nos foi tirado, houve uma alteração e tudo ficou
diferente. Guerras e revoluções se espalharam por toda parte, e de
uma hora para outra muitos reinos foram invadidos por calamidades
mortais. Uma fome atroz se estendeu em todas as direções, e sua
crueldade, superando todos os males, acabou com muita gente. A
necessidade transformou tudo em alimento, e os homens comeram o que nem
os animais costumam comer. Chegaram a fazer pães com cascas de nozes
e de árvores. Para falarmos um tanto veladamente, há testemunhas
para confirmar que nem a morte de um filho chegou a comover um pai
torturado pela fome.
Mas, para que fique bem certo quem era aquele servo fiel, por cujo
amor a mão de Deus estava suspendendo a vingança, o próprio pai
São Francisco, poucos dias depois de sua morte, apareceu ao frade a
quem tinha predito a desgraça e afirmou claramente que era ele aquele
servo do Senhor.
Certa noite, estando o frade a dormir, chamou-o com voz clara e
disse: "Irmão, já chegou a fome que Deus não permitiu que viesse
sobre a terra enquanto eu estava vivo". Acordado pela voz, o frade
contou depois tudo direitinho. Três noites depois, o santo apareceu
de novo e repetiu as mesmas palavras.
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