CAPÍTULO 23. Prediz fome para depois de sua morte

52. Os santos às vezes são obrigados pela força do Espírito Santo a falar coisas maravilhosas a respeito de si mesmos, quando é a glória de Deus que exige uma revelação, ou há alguma exigência da caridade para edificação do próximo.

Foi por essa razão que, um dia, o santo pai contou a um frade a quem tinha grande estima uma revelação que tinha tido em sua comunicação familiar com a majestade divina: "Em nossos dias, existe na terra um servo de Deus, por quem o Senhor não vai permitir que a fome se abata sobre a humanidade enquanto ele viver".

Não tinha vaidade nenhuma. Só a santa caridade, que busca seus interesses, fez com ele que relatasse isso para nossa edificação, em palavras santas e modestas. E nem devia mesmo esconder com um silêncio inútil tão admirável prerrogativa da predileção de Deus para com seu servo.

Todos que estivemos presentes sabemos como foram calmos e pacíficos os tempos enquanto o santo viveu, e transbordaram na fertilidade de todos os bens. Não havia fome da palavra de Deus, porque as palavras dos pregadores eram então cheias de maior virtude, e os corações de todos os ouvintes estavam mais dispostos para Deus. Refulgiam os exemplos de santidade na figura dos religiosos, a hipocrisia dos "caiados" ainda não tinha atacado tantos santos, e a doutrina dos "transfigurados" ainda não tinha despertado tanta curiosidade. Era justo que houvesse abundåncia dos bens temporais quando todos tinham tanto amor pelos bens eternos.

53. Quando ele nos foi tirado, houve uma alteração e tudo ficou diferente. Guerras e revoluções se espalharam por toda parte, e de uma hora para outra muitos reinos foram invadidos por calamidades mortais. Uma fome atroz se estendeu em todas as direções, e sua crueldade, superando todos os males, acabou com muita gente. A necessidade transformou tudo em alimento, e os homens comeram o que nem os animais costumam comer. Chegaram a fazer pães com cascas de nozes e de árvores. Para falarmos um tanto veladamente, há testemunhas para confirmar que nem a morte de um filho chegou a comover um pai torturado pela fome.

Mas, para que fique bem certo quem era aquele servo fiel, por cujo amor a mão de Deus estava suspendendo a vingança, o próprio pai São Francisco, poucos dias depois de sua morte, apareceu ao frade a quem tinha predito a desgraça e afirmou claramente que era ele aquele servo do Senhor.

Certa noite, estando o frade a dormir, chamou-o com voz clara e disse: "Irmão, já chegou a fome que Deus não permitiu que viesse sobre a terra enquanto eu estava vivo". Acordado pela voz, o frade contou depois tudo direitinho. Três noites depois, o santo apareceu de novo e repetiu as mesmas palavras.