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30. No tempo em que o exército cristão estava sitiando Damieta,
lá estavam o santo de Deus e seus companheiros: desejosos do
martírio, tinham atravessado o mar.
Ouvindo dizer que os nossos estavam se preparando para o dia da
batalha, o santo ficou muito triste. Disse a seu companheiro: "O
Senhor me revelou que, se houver um combate nesse dia, os cristãos
não vão sair-se bem. Se eu disser isso, vão achar que estou
louco; se me calar, minha consciência não vai me deixar em paz.
Que te parece?" O companheiro respondeu: "Pai, não te importes
de ser julgado pelos homens, pois não vai ser a primeira vez que te
chamarão de louco. Descarrega tua consciência, teme mais a Deus
que aos homens".
O santo foi correndo dar bons conselhos aos cristãos, dizendo que
não deveriam ir à guerra e avisando que haveriam de fracassar. Mas
eles levaram a verdade na brincadeira, endureceram seus corações e
não aceitaram o aviso. Partiram, atacaram, combateram e foram
derrotados pelo inimigo. Durante a batalha, o santo, angustiado,
mandou o companheiro levantar-se para olhar. Como não visse nada na
primeira e na segunda vez, mandou olhar uma terceira. E viu o
exército cristão em debandada, carregando no fim da guerra não o
triunfo mas a vergonha. O desastre foi tão grande que os nossos
perderam seis mil, entre mortos e prisioneiros. O santo ficou cheio
de compaixão, e eles não tiveram menor arrependimento.
Compadeceu-se especialmente dos espanhóis porque eram mais audaciosos
e tinham sobrado muito poucos.
Pensem nisso os príncipes de todo o mundo, convençam-se de que não
se pode combater impunemente contra Deus, isto é, contra a vontade
do Senhor. Costuma acabar mesmo em desgraça o atrevimento, porque
confia em suas próprias forças e não merece o auxílio do céu. Se
é do céu que esperamos a vitória, já devemos entrar na luta com o
espírito de Deus.
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