CAPÍTULO 4. Em Damieta, prediz a derrota dos cristãos

30. No tempo em que o exército cristão estava sitiando Damieta, lá estavam o santo de Deus e seus companheiros: desejosos do martírio, tinham atravessado o mar.

Ouvindo dizer que os nossos estavam se preparando para o dia da batalha, o santo ficou muito triste. Disse a seu companheiro: "O Senhor me revelou que, se houver um combate nesse dia, os cristãos não vão sair-se bem. Se eu disser isso, vão achar que estou louco; se me calar, minha consciência não vai me deixar em paz. Que te parece?" O companheiro respondeu: "Pai, não te importes de ser julgado pelos homens, pois não vai ser a primeira vez que te chamarão de louco. Descarrega tua consciência, teme mais a Deus que aos homens".

O santo foi correndo dar bons conselhos aos cristãos, dizendo que não deveriam ir à guerra e avisando que haveriam de fracassar. Mas eles levaram a verdade na brincadeira, endureceram seus corações e não aceitaram o aviso. Partiram, atacaram, combateram e foram derrotados pelo inimigo. Durante a batalha, o santo, angustiado, mandou o companheiro levantar-se para olhar. Como não visse nada na primeira e na segunda vez, mandou olhar uma terceira. E viu o exército cristão em debandada, carregando no fim da guerra não o triunfo mas a vergonha. O desastre foi tão grande que os nossos perderam seis mil, entre mortos e prisioneiros. O santo ficou cheio de compaixão, e eles não tiveram menor arrependimento. Compadeceu-se especialmente dos espanhóis porque eram mais audaciosos e tinham sobrado muito poucos.

Pensem nisso os príncipes de todo o mundo, convençam-se de que não se pode combater impunemente contra Deus, isto é, contra a vontade do Senhor. Costuma acabar mesmo em desgraça o atrevimento, porque confia em suas próprias forças e não merece o auxílio do céu. Se é do céu que esperamos a vitória, já devemos entrar na luta com o espírito de Deus.