|
32. Havia outro frade, famoso entre os homens e ainda mais estimado
diante de Deus, por sua santidade. Invejoso de suas virtudes, o pai
de toda inveja quis cortar a árvore que já estava chegando aos céus e
arrancar a coroa de suas mãos. Rodeia, revira, discute e examina os
seus costumes, para encontrar um bom tropeço para o frade. Com a
desculpa de maior perfeição, inspira- lhe o desejo da solidão.
Mas era para atacá-lo a sós e derrubá-lo mais depressa e também
para que, caindo sozinho, não tivesse ninguém para ajudá-lo a
levantar-se.
Digamos logo: ele se afastou do convívio dos frades e foi pelo mundo
como peregrino e forasteiro. Reduziu seu hábito a uma túnica curta,
com o capuz solto. Percorria assim as regiões, desprezando-se em
tudo.
Mas aconteceu que, viajando dessa maneira, bem depressa perdeu a
consolação divina e começou a ser sacudido por tormentosas
tentações. Subiram-lhe as águas até a alma e, desolado por
dentro e por fora, foi adiante como um pássaro prestes a cair na
armadilha. Já estava á beira do precipício quando a providência
paterna teve pena e olhou para ele com bondade. Teve a graça de
compreender o próprio engano e, voltando a si, finalmente, disse:
"Volta para a Ordem, miserável, porque lá está a tua
salvação". Não deixou para depois, levantou-se logo e correu
para o regaço materno.
33. Quando chegou a Sena, onde moravam os frades, lá estava
São Francisco. Coisa admirável! Logo que o santo o viu, fugiu
dele e foi correndo fechar-se em sua cela. Os frades ficaram
desconcertados e perguntaram por que tinha fugido. Respondeu o santo:
"Por que vos admirais de minha fuga, se não conheceis o motivo?
Fugi para a proteção da oração, para livrar um errado. Senti
nesse meu filho alguma coisa que justamente me desgostou. Mas agora,
pela graça de Cristo, já se afastou todo engano".
O irmão se ajoelhou e se confessou culpado, todo envergonhado.
Disse-lhe o santo: "Deus te perdoe, irmão. Mas toma cuidado
daqui para frente para não te separares de tua Ordem e de teus irmãos
mesmo a pretexto de santidade". Desde então, esse frade passou a
ser amigo da vida em comum e da companhia dos frades, e tinha especial
devoção para com as comunidades em que mais imperava a observåncia
regular.
Como são admiráveis as obras do Senhor quando os justos se reúnem e
se congregam! Porque então os tentados resistem, os caídos são
levantados, os tíbios são estimulados, o ferro se afia no ferro e os
frades se ajudam uns aos outros estabelecendo-se como uma cidadela
inabalável. As multidões deste mundo impedem ver Jesus, mas não
é isso que acontece quando a multidão é de anjos do céu. Quem for
fiel até a morte e não fugir, receberá a coroa da vida.
Outro caso semelhante
34. Pouco depois, aconteceu outro caso semelhante. Um dos frades
não se submetia ao vigário do santo, mas seguia um outro frade como
seu preceptor. Avisado por um intermediário do santo, que também
estava presente, o frade lançou-se imediatamente aos pés do vigário
e, deixando de lado seu antigo preceptor, passou a obedecer àquele
que o santo tinha constituído como prelado. Mas o santo, dando um
profundo suspiro, disse ao frade que lhe tinha servido de
intermediário: "Irmão, eu vi um diabo nas costas do desobediente,
apertando-lhe o pescoço. Guiado por tal condutor, desprezava o
freio da obediência e seguia as rédeas do seu instinto. Roguei ao
Senhor e logo o demônio foi embora todo confuso".
Essa era a perspicácia do santo, que tinha os olhos fracos para ver
as coisas do corpo, mas enxergava muito bem as coisas espirituais. De
fato, não temos de que nos admirar por ele ter visto carregado com
esse peso torpe aquele que não queria suportar o Senhor da majestade.
Não há meio-termo: ou levamos a carga leve, que na verdade nos
carrega, ou vamos ter uma mó de burro pendurada no pescoço, com a
iniquidade sentada em cima como se fosse um talento de chumbo.
|
|