CAPÍTULO 7. Livra os habitantes de Gréccio dos lobos e do granizo

35. O santo gostava de morar na eremitério dos frades em Gréccio, tanto porque achava rica a sua pobreza como porque podia entregar-se com maior liberdade aos exercícios espirituais numa pequena cela construída na ponta de um rochedo. Foi nesse lugar que recordou pela primeira vez o Natal do Menino de Belém, fazendo-se menino com o Menino.

Mas o povo do lugar estava sofrendo diversas calamidades: um bando de lobos vorazes atacava não só os animais mas até pessoas, e uma tempestade de granizo acabava todos os anos com o trigo e as vinhas. Num dia em que estava pregando para eles, São Francisco disse: "Para honra e louvor de Deus onipotente, ouvi a verdade que eu vos anuncio. Se cada um de vós confessar seus pecados e fizer frutos dignos de penitência, eu vos garanto que esse mal se afastará e que o Senhor olhará para vós e multiplicará os vossos bens materiais. Mas ouvi isto também, que tenho outro aviso: se fordes ingratos aos benefícios e voltardes ao próprio vômito, a praga se renovará, o castigo vai ser duplo e uma ira ainda maior cairá sobre vós".

36. De fato, pelos merecimentos e orações do santo pai, desde aquela hora acabaram as pragas, cessaram os perigos, e os lobos e o granizo não lhes causaram mais nenhum mal. Até mais: quando o granizo assolava os campos dos vizinhos e chegava perto dos deles, ou parava por ali ou se desviava para outro lado.

Tranqüilos, cresceram muito e se encheram de bens temporais. Mas a prosperidade fez o que costuma fazer: eles enterraram o rosto na gordura das coisas temporais, ou melhor, ficaram cegos com o esterco.

Por fim, caindo em coisas piores, esqueceram-se de Deus que os tinha salvo. E isso não ficou impune, porque a censura da justiça divina castiga menos quem cai do que quem recai. Excitou-se o furor de Deus contra eles, voltaram os males que tinham ido embora e mais a guerra, e ainda caiu do céu uma epidemia que acabou com muitos. É justo que os benefícios se transformem em castigo para os que são ingratos.