CAPÍTULO 34. O que lhe acontece numa noite ao usar um travesseiro de penas

64. Por falar em camas, lembro-me de um outro fato que talvez seja bom contar. Desde o tempo em que o santo se converteu para Cristo e tratou de esquecer as coisas do mundo, não quis mais deitar sobre um colchão ou pôr a cabeça num travesseiro de penas. E não quebrava essa resolução nem quando estava doente ou hospedado em casa de outros.

Mas, no eremitério de Greccio, quando sua doença dos olhos se agravou, foi obrigado contra sua vontade a usar um pequeno travesseiro. Quando amanheceu a primeira noite, chamou seu companheiro e disse: "Irmão, não pude dormir nesta noite, nem ficar em pé para rezar. A cabeça tremia, os joelhos cediam, e o corpo se sacudia todo, como se tivesse comido pão de joio. Acho que o diabo está nesse travesseiro em que pus a cabeça. Leva-o, que não quero mais saber de diabo na cabeça".

O frade se compadeceu do pai, que continuava a se lamuriar, e pegou o travesseiro que lhe foi jogado para levar embora. Quando saiu, perdeu a fala, e se sentiu oprimido e preso por tamanho horror, que nem podia mover os pés do lugar nem mexer os braços de lado algum.

Depois de algum tempo, quando o santo ficou sabendo disso, mandou chamá-lo. Então ficou livre, voltou e contou o que tinha sofrido. Disse-lhe o santo: "'A tarde, quando estava rezando Completas, tive certeza de que o diabo vinha para a minha cela". E acrescentou: "É muito esperto e matreiro o nosso inimigo. Quando não pode fazer o mal dentro da alma, faz com que o corpo tenha oportunidade de murmurar".

Ouçam-no os que espalham almofadas por todos os lados, para caírem sempre no mole. O diabo segue o luxo de boa vontade, gosta de estar ao lado das camas muito cômodas, principalmente quando não há necessidade e quando são contrárias à vida que se professou. Mas a antiga serpente foge com horror do homem despojado, ou porque detesta a companhia dos pobres, ou porque tem medo da grandiosidade da pobreza. Se o frade se convencer de que o diabo está embaixo das penas, ficará contente com palha para a cabeça.