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O interesse que levantou a condenação eclesiástica do físico e
astrônomo pisano Galileu Galilei, o famoso "Caso Galilei", é
manifestado pela literatura que provocou e ainda suscita em todas as
línguas culturais. Quando, no século passado, a cúria romana
franqueou as atas dos processos de 1616 e 1632, quase
imediatamente e no mesmo ano de 1877, os documentos principais
foram publicados em três línguas: alemã, francesa e italiana.
Desde então propriamente não se pode mais falar de "Questão
Galilei", pois todos os fatos estão à luz do dia.
Sem falar. dos inúmeros ataques à Igreja Católica, onde domina a
má fé, podem-se apontar numerosos estudos bem documentados, que
levam ao público o conhecimento do caso.
Os trabalhos mais valiosos apareceram em língua alemã. Além das
atas do processo e posteriores à sua publicação, conhecemos do
século passado o estudo criterioso de G. Schneemann sobre Galilei.
Adolfo Mueller escreveu sobre Copérnico, com referência ao caso
Galilei, e publicou outros estudos sobre os argumentos galileianos das
manchas solares (1897) e das marés (1899).
O mesmo autor, que se revela abalizado matemático e astrônomo,
editou no princípio deste século um trabalho valioso sobre Kepler
(1903), e outro sobre Galilei.
Este importante estudo do caso Galilei, de quase 400 páginas
(Editora Herder, Friburgo, B. 1909), baseia-se na grande
coleção de documentos sobre Galilei, editada por Antônio Favaro
em Florença (1890-1907), sob os auspícios do rei da
Itália; em 20 tomos in-fólio. A cúria romana abriu
generosamente seus arquivos e no tomo XIX, Favaro deu pela primeira
vez uma edição completa dos documentos da Inquisição Romana sobre
Galilei.
Alguns decênios mais tarde (1927 e 1929) a monumental obra
da História dos Papas de Ludovico von Pastor incluiu os processos
de Giordano Bruno (tomo XI) e GaIilei (tomos XII e
XIII). O mesmo fazem historiadores como G. Schnuerer
(História da Igreja Católica no tempo do barroco 1937), K.
Eder (1949) e as enciclopédias. Trabalho de menor extensão
sobre Galilei apareceu recentemente nos fascículos editados pela
Specola Vaticana. Outro maior, que porém reprovamos, foi
publicado por Frederico Dessauer.
O presente estudo baseia-se na literatura acima mencionada, incluindo
ainda alguns dados de outras fontes. Como no Brasil nunca apareceu um
trabalho de maior vulto, tratamos de preencher modestamente tal
lacuna, relatando e documentando por citações autênticas o curso
histórico da questão.
O caso Galilei não é ignorado no Brasil, porém os comentários
que se fazem têm como fontes principais o ataque do espírita Camille
Flammarion - pelo que lhe dedicamos especial atenção - e a fonte
turva do romance aleivoso de Zsolt Harsanyi, que caracterizamos no
fim.
Possa o trabalho concorrer para facilitar a consideração histórica
do célebre caso, remover preconceitos e espargir luz onde até hoje as
nuvens escureciam o sol da verdade!
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