O LIVRO DOS DIÁLOGOS.

"Dialogo intorno ai due massimi sistemi del mondo Tolemaico e Copernicano", era o titulo da nova obra. Riccardi se opusera à menção das marés no título, e assim Galilei a tivera que abandonar.

O livro não satisfazia às condições de Riccardi. A introdução propunha corretamente o livro como uma defesa do ponto de vista eclesiástico. Também afirmava considerar o sistema de Copérnico como mera hipótese. O próprio texto, porém, era completamente diferente. Ouçamos a este respeito uma voz insuspeita, Gebler, o editor alemão das atas do processo de Galilei. Apesar de se mostrar adversário da Igreja Católica, ele escreve: "Do princípio até o fim os Diálogos contradiziam o espírito do decreto de 5 de Março de 1616 e as prescrições papais. Era uma grande ingenuidade pensar que o prefácio, habilmente limado, e os pequenos estratagemas diplomáticos, camuflassem os verdadeiros intentos diante do público científico". O amigo Campanella escreveu a Galileu: "Eu defendo contra todos que o livro foi escrito , em defesa do decreto (eclesiástico)... Porém meus discípulos sabem o segredo".

As intenções do autor já transparecem claramente na forma externa dos Diálogos. Salviati expõe magistralmente, com meios polidos de dialética, os argumentos a favor do sistema de Copérnico. A defesa do sistema de Ptolomeu e inclusivamente do modo de ver eclesiástico, é confiada a "Simplício". Aqui vemos um dos "estratagemas diplomáticos" de Galilei. Ele realça que Simplício é o nome de um célebre comentador de Aristóteles. Apesar da ilustre descendência do nome, ele não deixa de significar Simplório e são de um simplório os modos de falar e os argumentos que Galilei lhe assinala. Assim todos o deviam interpretar e realmente o interpretavam. Basta ouvir os próprios amigos do autor. O indefectível Castelli escreve-lhe (29-5-1632)

"Quase desarticulava as queixadas de tanto rir, todas as vezes que topava com o Senhor Simplício... admirando na sua simplicidade a papalvice de toda a sua escola". Segundo Campanella: "Simplício é o palhaço desta comédia filosófica e mostra a estupidez de toda a sua escola". Assim pois os amigos de Galilei pensavam dos filósofos do seu tempo. E os adversários de Galilei podiam saber que eram equiparados a um simplório. Para completar a ironia, Simplício sai vitorioso da disputa apesar de suas argumentações lamentáveis, "por estar com a Bíblia".

Mais comprometedor do que a forma era o próprio texto dos Diálogos. Em 1616 Galilei prometera abster-se de defender o sistema de Copérnico. Riccardi exigira, para salvaguardar os decretos do mesmo ano e do Monitum de 1620, que o livro tomasse a forma de uma defesa dos decretos romanos e que o sistema de Copérnico fosse considerado como mera hipótese. Assim também se lia no prefácio, mas, todo o argumento do livro era uma evidente contradição a estas normas. O novo sistema, reprovado pela Inquisição, era proposto como certo e provado, e em certa ocasião Galilei o concede abertamente, quando faz dizer a Salviati: "Assim vemos de um lado (a favor de Ptolomeu) só razões sem valor, do outro porém (a favor de Copérnico) demonstrações sumamente convincentes". Ou ainda: "que só desde Copérnico conhecemos o verdadeiro sistema do mundo". O livro constituía uma flagrante desobediência às ordens e decretos do Tribunal da Inquisição.

No processo que se instaurou contra Galilei, influiu também o valor científico dos Diálogos. Se o autor pudesse trazer as "demonstrações sumamente convincentes", em outras palavras: provas peremptórias, os juizes não o poderiam intimar a abjurar uma doutrina certa. Porém Galilei ficou devendo as provas peremptórias.

Em certas argumentações secundárias, o gênio de Galilei se mostra com brilhantismo. Argumentavam os adversários: Se a terra estivesse em movimento, nenhum corpo pesado poderia cair verticalmente, pois, enquanto cai o corpo a terra se desloca e o corpo atinge o solo num ponto atrás da vertical. Galilei responde muito acertadamente que o mesmo fenômeno se deveria produzir numa nau em movimento. Façam pois os adversários a experiência e verão que um peso caindo da ponta do mastro, cai sempre no mesmo ponto do navio, esteja ele em repouso ou em movimento. Mas também sem fazer a experiência, pode se mostrar que o fenômeno se deve produzir desta forma. O peso na ponta do mastro está dotado do mesmo movimento de translação como o navio e o conserva enquanto cai. A combinação de dois movimentos, o horizontal da marcha e o descendente da queda, dá uma resultante paralela ao. mastro e vertical em relação ao navio.

Se pois em tais argumentos físicos brilha o gênio de Galilei, nos argumentos principais a favor do sistema a provar, o livro dos Diálogos constitui uma falha lastimável.

Os argumentos se podem reduzir a três: A simplicidade do novo sistema a provar, o argumento das manchas solares e o das marés.

A simplicidade do sistema já fora o argumento principal de Copérnico e, reproduzindo-o, Galilei não" traz nenhum progresso que justifique a edição do seu livro, tanto mais que sua exposição é até menos correta do que a de Copérnico. O autor do novo sistema suprimia os grandes epiciclos, porém, desconhecendo ainda a forma elíptica das. órbitas, tinha que admitir círculos excêntricos e pequenos epiciclos, defeitos corrigidos mais tarde pelo gênio de Kepler. Galilei cala os defeitos originais e as correções de Kepler e fala como se todos os movimentos do sistema solar se explicassem por meras órbitas circulares concêntricas. Sejam porém círculos, sejam elipses, o argumento da simplicidade do novo sistema, embora valioso, não o prova peremptoriamente e Galilei teve que procurar mais argumentos.

A segunda prova do movimento terrestre, Galilei a tira das manchas solares. Com sua luneta ele tinha descoberto aquelas manchas e constatara que elas se deslocavam na superfície do sol, prova de que o sol girava sobre si mesmo. O eixo desta rotação está inclinado sobre o plano da órbita terrestre. Galilei argumenta: Se a terra anda em redor do sol, estando ela em certo ponto, as manchas se devem deslocar no sol em linha reta (inclinada); depois de três meses a terra está em nova posição, onde as manchas solares devem apresentar um movimento curvo. Cada três meses devem aparecer alternadamente movimentos retos e curvos. Até aqui devemos concordar com Galilei. Ele porém continua: este fenômeno se produz; portanto a terra anda em redor do sol. E se (com razão) os adversários objetam que o mesmo fenômeno se deve produzir quando o sol gira em redor da terra, conservando o eixo sempre na mesma posição, . Galilei nega esta conclusão. Afirma: Se o sol gira em redor da terra, o eixo do sol não se pode conservar paralelo a si mesmo, mas deve ter um movimento cônico da duração exata de um ano, "il quale assunto all'intelletto mio si rappresenta molto duro e quasi impossibile". Em seguida acrescenta: "Eu sei, o que acabo de dizer é muito obscuro; tudo ficará mais claro, quando chegarmos a falar do terceiro movimento que Copérnico atribui ao eixo da terra": E' verdade que Copérnico fala de um movimento cônico do eixo terrestre, mas só aparente para um observador colocado no sol. Este movimento Galilei tomou por real e o exige erradamente para o sol, no caso que esteja em movimento. Mais tarde ele o atribui ao eixo da terra e neste caso "o assunto não se lhe apresenta muito duro"... porém sim a nós, pois constatamos os graves equívocos cometidos pelo cientista.

Menos feliz ainda é Galilei na sua "grandissima proposizione" sobre as marés. Sua argumentação pode ser exemplificada do modo seguinte: Se a terra se desloca em torno do sol e ao mesmo tempo gira sobre si, seu movimento é semelhante ao de uma roda que corre na estrada. Quando um ponto da roda toca no solo, seu movimento em relação á terra é nulo, o ponto está parado. Quando, alguns momentos depois, o mesmo ponto da roda está na posição mais elevada, ele avança em relação à terra com a dupla celeridade do carro. A conclusão de Galilei seria pois que o ponto sofreu uma grande aceleração. Semelhante fenômeno ele atribui à terra, afirmando que do meio-dia até a meia-noite cada ponto na superfície da terra sofre aceleração. Na bacia de um mar a inércia impede as águas de acompanhar a aceleração com a mesma rapidez, por conseguinte elas se afastam da costa leste e se acumulam na costa oeste. Nas doze horas seguintes dá-se um fenômeno contrário de retardamento, o que faz voltar as águas para o leste. Estes movimentos das águas, as marés, são pois, segundo Galilei, o produto e a prova convincente dos movimentos da terra.

O que o sábio físico não viu, é que de aceleração só se pode falar com respeito a pontos parados, fora da terra - respectivamente fora da roda. Em relação à mesma terra - respectivamente roda - só há movimento uniforme que não pode pôr em jogo a inércia das águas.

E' fácil de ver que segundo esta teoria as marés altas só se podem produzir uma vez ao dia, enquanto a experiência, já no tempo de Galilei, dizia, ao contrário, que elas se produzem duas vezes ao dia. A objeção era gravíssima, porém Galilei prefere admitir contradições, para não abandonar seu argumento predileto. Como toda resposta nega o fato e se o concede para o Mediterrâneo, o considera como caso excepcional e casual.

Mais uma grave objeção se levanta contra ,a argumentação de Galilei. Sua teoria exige que as marés se produzam sempre na mesma hora do dia solar, enquanto elas se produzem cada dia cerca de 50 minutos mais tarde, ou seja sempre na mesma hora lunar, o que já desde a antigüidade era considerado como prova da influência lunar nas marés. Galilei não podia ignorar o fato e não admiramos que um amigo, João Batista Baliani, lhe escrevesse (23-41632) que toda a exposição era espirituosa, mas que não compreendia por que Galilei omitia a refutação de uma grave objeção: Segundo aquela teoria as marés se deviam produzir sempre à mesma hora, enquanto a experiência diz que o fenômeno ocorre cada dia cerca de 4/5 de hora mais tarde. Na fonte histórica que usamos achamos impresso: "4/5 horas mais cedo". Supomos tratar-se de um erro de imprensa.

Galilei pode reclamar para si a triste honra de ser talvez o primeiro e o último cientista que negasse a influência preponderante da lua no fenômeno das marés. Assim ele escreve nos Diálogos: "Antes de tudo me causa espanto que Kepler, aliás tão inteligente e clarividente e conhecedor de todos os movimentos da terra, tenha preferido admitir certa influência da lua nas águas, certas forças ocultas (atração das massas) e semelhantes criancices". Galilei não se peja de tratar com certo desprezo o genial Kepler, seu fiel amigo, cujas idéias ele tacha também de fantasias e cujos méritos pela simplificação do sistema de Copérnico ele cala completamente. Portanto o que todo o mundo científico admitia, até o genial Kepler, eram criancices para o sábio de Florença. Constatemos ajuda que sua "grandiosa proposição" não achou lugar em nenhum livro de física ou cosmografia, enquanto as "criancices" de Kepler saíram vitoriosas em toda linha.

Porém a influência da lua era clara demais. Não só o fenômeno do atraso diário de 50 minutos, também a notável diferença das marés das sizígias, em comparação com as produzidas por ocasião dos quadrantes crescentes e minguantes da lua, as marés das águas vivas e das águas mortas, exigem uma influência predominante da lua. Galilei finalmente não se podia esquivar e acrescentou nos Diálogos esta explicação: que o sistema terra-lua é uma espécie de pêndulo combinado e assim a lua influi nos movimentos da terra.

Uma explicação tão confusa não podia contentar a ninguém. Micanzio, seu amigo, lhe escreve: "Non bene arrivo come il moto delia Luna vario influisca in quello della Terra per il flusso".

Omitimos outros pormenores da longa argumentação galileiana. Ela está cheia de explicações obscuras e mais de uma vez ò autor mesmo o confessa, p. ex., quando lamenta faltar abundante material de observação que permitisse expor com mais precisão o que "até aqui deixamos escrito sobre o problema tão envolto de escuridão".

Pode-se desculpar a ignorância de Galilei? Haviam passado 1600 anos, desde que Cícero, Plínio e outros tinham reconhecido a influência da lua, nos movimentos das marés. A 6-9-1624, portanto no tempo em que Galilei planejava sua nova obra, um amigo lhe comunica a aparição de um livro que reduz as marés ao influxo da lua e acrescenta que o sábio jesuíta Grassi louvou muito aquela obra. Falando em seguida da teoria de Galilei o mesmo jesuíta acrescentou : que era espirituosa porém contradizia aos fatos reais.

Se apesar de tudo os admiradores de Galilei até hoje o consideram como um gênio e desculpam sua ignorância e os inegáveis erros, seria justo conceder a mesma indulgência aos adversários de Galilei que não pretendiam ser gênios, mostravam menos teimosia e cometiam erros menos crassos do que o sábio celebrado.

Não admiramos que os adversários de Galilei declaravam não aceitar exposições tão confusas e evidentemente falsas. Os qualificadores da Inquisição Romana mostram-se superiores a Galilei até nesta questão puramente física, inserindo no "corpo del delitto" a seguinte acusação: "Haver final ridotto l'esistente flusso e riflusso del mare nella stabilità del Sole e nella mobilità della Terra non esistenti".

Consideremos o estado das ciências daquela época. O sistema antigo reinava desde quase dois milênios, estava admitido em todas as escolas filosóficas, parecia confirmado pela Bíblia. Aparece Galilei e com argumentos evidentemente falsos quer desfazer toda a tradição tão profundamente arraigada. O efeito foi diametralmente oposto ao que Galilei sonhara. Os adversários convenceram-se que o novo sistema não estava provado e nisto tinham razão. Dali era só um passo à conclusão: que não abandonariam o antigo sistema pelo novo não provado. Também entendemos que muitos eram da convicção de que o sistema de Copérnico nunca poderia ser provado. Assim pensava o mesmo Papa Urbano VIII e sem dúvida ainda muitos outros. Hoje mal compreendemos tal modo de ver, que naquele tempo era natural e justificado. Não esqueçamos que hoje ainda não se pode acusar de ignorante a quem declara ser de opinião que nunca se explicará a essência da eletricidade, da gravitação e outros segredos do mundo criado, já que até hoje as ciências naturais só conseguiram explicar fenômenos e em nenhum caso penetraram a última essência da vida, da matéria e de suas forças.