O SEGUNDO PROCESSO.

O livro dos Diálogos aparecera com o Imprimatur do Mestre do Sacro Palácio, o censor oficial do próprio S. Ofício, da Inquisição Romana. Esta licença que Galilei conseguira com meios pouco honestos e em que ele pusera tantas esperanças, foi fatal para o livro. Diante de todo o mundo a Igreja Católica parecia contradizer-se a si mesma, proibindo Copérnico e todos os livros que defendiam seu sistema e agora ordenando oficialmente pelo Imprimatur a publicação de semelhante obra.

O Papa Urbano VIII ficou sumamente indignado. Fora enganado , por seu amigo Galilei, e pelo próprio secretário Ciampoli. O que ele fizera era uma "Ciampolata" que lhe valeu a deposição. O Magister, Pe. Riccardi, teve que confiscar imediatamente o livro dos Diálogos, mas não foi deposto. Admiramos os nobres sentimentos deste chefe da Igreja, tão injustamente acusado e caluniado pelos admiradores de Galilei. Apesar de se sentir profundamente magoado pelo proceder de Galilei, o Papa perseverou em se declarar seu amigo. Porém, consciente do seu dever em face do ato escandaloso que prejudicava a fama da própria Igreja, ele exprimia sua mágoa de ter que proceder contra o culpado, "devia desgostá-lo por se tratar de interesses da fé e da religião".

Em face do mundo Roma devia agir. O Papa procurou meios de o fazer com a maior moderação, e a maior justiça. Galilei não foi logo chamado a Roma, mas constituiu-se primeiro uma comissão para referir sobre o livro dos Diálogos. Chefe da comissão era o amigo de Galilei, o Cardeal Francesco Barberini. Esta comissão redigiu um parecer de oito pontos sobre o livro e acrescentou que: "no ano de 1616 fora intimado Galilei a não sustentar, ensinar ou defender a doutrina copernicana, senão a Inquisição procederia contra ele. Esta ordem fora aceita por Galilei e agora ele a tinha transgredido". Este acréscimo contornou os planos do Papa. Desejava compor tudo sem ação judiciária, mas em face da desobediência formal à ordem e cominação da Inquisição, ele devia permitir o processo.

Em 23-9-1632, Galilei foi citado para Roma. Tentou desculpar-se com seu estado precário de saúde e sua idade de 70 anos. A Inquisição insistiu, mas esperou pacientemente até que, tendo viajado na liteira do grão-duque de Toscana, Galilei chegou a Roma a 13-2-1633, "gozando de boa saúde". As atenções com que foi tratado o acusado da Inquisição eram sem precedentes, a tal ponto que o mesmo Galilei ficou admirado. Não foi detido na prisão do tribunal, mas podia morar na embaixada toscana. Retido duas vezes no prédio da Inquisição, morava em espaçosos aposentos, não trancados, com a presença de seu servente.

O espírito que dirigia o andamento do processo é-nos revelado por uma carta escrita pelo comissário da Inquisição ao Cardeal Barberini, cujo conteúdo reproduzimos: "Para a continuação do processo tinham surgido várias dificuldades, principalmente porque Galilei negava o que claramente aparecia nos Diálogos (isto é: ter defendido o sistema de Copérnico). Esta obstinação exigia maior rigor. (Naqueles dias Galilei estava retido no edifício da Inquisição). O comissário teve a licença de tratar com Galilei em particular e conseguiu convencê-lo da falta e induzi-lo a fazer um depoimento sincero. Galilei só pediu alguns dias de reflexão para fazer honrosamente o depoimento (para "honestar a confissão"). Termina o comissário: "Eu me julguei obrigado a fazer imediatamente esta comunicação a Vossa Eminência, pois espero que desta forma o processo terminará sem dificuldade. O Tribunal conservará sua fama e apesar disto será possível tratar o acusado com brandura".

A 30-4-1633 Galilei confessou: "Depois de três anos tornei a ler meu livro; e como agora reconheço, falo realmente mais vezes de tal modo, que um leitor, que não conhece minhas intenções, pode chegar à impressão de que a "refutação" seja antes uma defesa do novo sistema". Fora impelido "por certa vaidade de cientista, queria mostrar sua agudez de espírito".

Era uma meia confissão, mas os juizes e o Papa se contentaram com pouco.

Restava ainda um ponto importante. Galilei declarou: Até o decreto de 1616 ele atribuía probabilidade tanto ao sistema de Ptolomeu como ao de Copérnico. Depois daquele decreto tinha desaparecido qualquer dúvida e só aderia ao sistema de Ptolomeu.

Não duvidamos que os admiradores de Galilei não acreditem nesta afirmação do próprio sábio, eles que querem fazer dele um "mártir da ciência". Também os juizes não se mostravam convencidos e, cominando-lhe até a tortura, o intimaram a dizer a completa verdade. Galilei não se impressionou, sabia que não se torturavam anciãos de 70 anos. Ficou com a afirmação dada.

Deste modo terminou o inquérito, a parte informativa do processo. O que Galilei dizia não era muito convincente. Ele deveria portanto confirmar sob juramento suas afirmações, dando assim remate ao processo.

Nas intenções dos juizes o juramento de Galilei tinha principalmente outra finalidade. Ele defendera uma doutrina que o decreto de 1616 considerava contrária à Sagrada Escritura. Mas sustentar tal convicção incluía a dúvida herética sobre a infalibilidade da Bíblia. Galilei tornara-se, pois, suspeito de uma falta contra a fé e desta suspeita ele se devia livrar pelo juramento contrário, ou abjuração da doutrina proibida.

Assim chegou no dia 22-6-1633 o desfecho do triste drama, a publicação oficial da sentença. O ato se fez na aula magna (não na igreja!) do colégio dominicano Maria sopra Minerva, só em presença dos membros do S. Oficio (Inquisição). Os juizes declaram: Galilei se tornou suspeito de heresia. Existe a suspeita de ter ele defendido a doutrina falsa e contrária à Sagrada Escritura de que o Sol seja imóvel, a Terra móvel, o Sol e não a Terra o centro do mundo e que se possa sustentar e defender como provável uma opinião ainda depois de ela ser declarada contrária à Sagrada Escritura. Desta forma Galilei incorreu nas censuras eclesiásticas das quais será absolvido se fizer abjuração. Seu livro é proibido, ele mesmo condenado à prisão segundo o beneplácito da Inquisição e, durante três anos, rezará semanalmente os sete salmos penitenciais.

Depois de promulgada a sentença, Galilei leu a fórmula da abjuração. E' uma lenda, sem verdade histórica, que no fim ele tenha acrescentado: "Eppur si muove" (contudo ela se move).

Galilei não foi encarcerado. O Papa logo transformou a pena de prisão em detenção livre no palácio do embaixador toscano. Mais tarde ele pôde transferir-se para Sena e finalmente para sua chácara em Arcetri, onde vivia tranqüilamente, entregue a seus estudos até sua morte, ocorrida em 1642. O Papa concedeu-lhe uma subvenção anual até à morte.

Não pode haver dúvida de que todo o processo de 1633 foi instaurado e conduzido de forma moderada e justa. Galilei faltara por gravíssima desobediência. Infelizmente o proceder supunha uma opinião errada, e os inimigos da Igreja aproveitaram-se triunfantes da ocasião para combater o farol da verdade. "A Igreja se enganou", "a Igreja impede o progresso das ciências", "a Igreja é inimiga da verdade", são as acusações que em mil formas sempre se repetem. E para provar tão graves acusações o que alegam? Um único caso de simples engano, onde um tribunal, provocado de um modo inaudito, condenou um cientista arrogante, cujo proceder na interpretação da Bíblia se assemelhava aos princípios protestantes. Contra o perigo da infiltração protestante devia-se, a todo custo, imunizar o povo católico, e a Inquisição se lembrava que fora fundada para esse fim.

Na Igreja católica tudo se faz à luz do dia e, apesar de constante e malévola vigilância, os seus inimigos descobriram só esta falha do erro humano. Que glória para a Igreja! Bem entendido, o caso Galilei enche a cada católico de ufania, por pertencer a uma agremiação a que tão pouco se pode assacar.

Uma insignificante mancha não pode escurecer o sol. O lamentável caso Galilei não pode ofuscar o brilho da Igreja Católica, cujo aparecimento marcou o progresso indefectível da civilização, cultura; das ciências e artes, desde a sua divina fundação até os dias de hoje.

Por que é lembrado só o caso Galilei?

Para serem justos, os acusadores da Igreja Católica deveriam trazer também casos como estes:

O parlamento de Paris ameaçava de morte a quem quer que atacasse a doutrina de Aristóteles.

Kepler, o genial astrônomo, foi perseguido pelos protestantes por defender o sistema de Copérnico. Teve que sé refugiar em Praga, onde achou proteção junto aos jesuítas e ao imperador católico.

No século XVIII o jesuíta C. Mayer considerou certos pares de estrelas como estrelas duplas. Foi atacado fanaticamente por colegas astrônomos, de modo que um astrônomo russo do século passado confessou: que o tom da contenda não honrou a astronomia. Galilei foi julgado por juizes talvez incompetentes em astronomia, mas o jesuíta Mayer foi atacado, rebaixado, condenado pelos colegas astrônomos, por razões semelhantes e em tempos em que o progresso já realizado menos os desculpava.

Tycho Brahe era considerado como um fenômeno de inteligência e foi um dos maiores astrônomos da história. Mas também Tycho Brahe combateu Copérnico e alegou as mesmas provas religiosas como os juizes de Galilei. "A terra, disse, é para movimento coisa mui desejeitada". Como devia ser difícil naquele tempo reconhecer a verdade, se assim se enganava um astrônomo da envergadura de um Tycho Brahe.