ÚLTIMOS ANOS.

A respeito dos últimos anos de vida de Galilei lemos em certos autores estranhas afirmações. Urbano VIII, o "Papa cruel", perseguia sua vítima até a mais avançada velhice. Anos inteiros Galilei esteve no cárcere (Ernesto Haeckel); a pena de prisão durou três anos (Draper) ou até cinco anos (Bernini, Storia delle Eresie). Além disto estava constantemente vigiado, separado de todo o mundo e até com a correspondência fiscalizada...

Todas estas afirmações são puras calúnias. Galilei propriamente nunca esteve encarcerado, nem durante o processo, como acima foi referido,, nem depois da condenação. Vimos que o Papa mudou imediatamente a pena de cárcere em detenção livre no palácio do embaixador toscano. Poucos dias depois teve licença de se transferir para Sena. Os. cinco meses que ali passou em casa do arcebispo, Galilei os descreve nas cores mais rosadas. Constantemente recebia visitas nobres da cidade... O arcebispo o tratava como a um filho...

Ao embaixador Nicolini, que pedia a volta do condenado a Florença, o Papa respondeu que era melhor proceder passo por passo para reabilitar Galilei. já a 3 de Dezembro do mesmo ano, Galilei recebeu a autorização de se transferir para sua chácara Arcetri perto de Florença. Podia receber visitas de parentes e amigos. A única restrição era de não fazer conferências e reuniões.

O Rapa conhecia o caráter veemente de Galilei. Até já vinham para Roma novas denúncias contra o ancião. A prudência exigia manter certas restrições de liberdade, para preservar Galilei de novos passos errados e novas desgraças. E esta prudência era completamente justificada. Por pouco o irrequieto sábio não entrou em terceiro conflito com a Inquisição.

Quando nos últimos anos de sua vida o ancião ficou cego, o Papa lhe permitiu morar em Florença. Mas em breve ele voltou a Arcetri, onde ficou até à morte.

O isolamento de Arcetri foi uma bênção para o eremita forçado. Ali ele compôs a melhor obra de sua vida, o Dialogo delle scienze nuove, tratado de física que constitui com razão a glória do seu autor. O livro apareceu sem licença eclesiástica. Mas Roma não se comoveu com o caso.

Também apareceu o tentador. Amigos mal avisados aconselhavam fingir penitência; outros propunham a fuga para o estrangeiro. Em 1635 apareceu na Holanda uma tradução latina dos seus Diálogos condenados. Devemos supor que, como autor, ele tenha dado sua autorização. No ano seguinte cometeu mais uma flagrante infração de suas solenes promessas e juramentos, editando novamente sua carta à Grã-duquesa Cristina, que defendia o sistema de Copérnico. Em todo o caso consta por carta do próprio Galilei que ele reviu as provas é desejava que quanto antes chegassem exemplares à Itália para "confundir seus inimigos".

Felizmente ele não chegou a executar um plano, que teria sido o passo mais funesto da sua vida. Estava pronto a fazer uma edição completa de suas obras, inclusive dos Diálogos condenados, se o editor (holandês, protestante) quisesse assumir a responsabilidade.

Tal era pois a disposição do ancião ainda poucos anos antes da morte.

A 8 de Fevereiro de 1642 apagou-se esta vida que devemos considerar como fracassada em grande parte e por própria culpa. Ao homem violento e apaixonado o mundo respondeu com violência e paixão, e estando só, devia sucumbir à multidão. A sua desgraça o tornou célebre. Se o sistema de Copérnico fosse mesmo errado, ninguém mais falaria hoje de Galilei. Talvez algum historiador, topando com os processos contra o cientista apaixonado e revoltoso, admiraria a clemência com que foi tratado.

Resumindo em poucas palavras o caso Galilei, constatamos:

Galilei, o belicoso, provocou larga oposição por suas digressões teológicas, contrárias à tradição. Aconselhado a "sair da sacristia" para se restabelecer a paz, Galilei perseverou nos seus ataques que lembravam a insubmissão protestante.

Em seguida a Inquisição deu um passo infeliz: Reprovou o sistema de Copérnico como contrário à (tradicional) interpretação da Sagrada Escritura e impôs silêncio a Galilei, que prometeu obedecer. Não se fez violência insuportável ao sábio, pois ele podia procurar quantos argumentos científicos pudesse achar, só não devia sustentar como certo o sistema novo. Eis o sentido do primeiro processo.

Galilei desobedeceu e faltou à sua promessa, pelo que com justiça foi condenado no segundo processo. Os juizes procederam no espírito do seu tempo, porém cometeram o grave erro de fazer abjurar uma doutrina de ordem natural, que mais tarde foi reconhecida como certa. A sentença do tribunal obrigava a um único homem, contudo ela não ficou esquecida na história.

Todas as circunstâncias provam que o infeliz erro judiciário não se teria produzido sem as provocações de Galilei.