ACUSAÇÕES.

O caso Galilei suscitou uma enorme literatura, de agressão e defesa da Igreja Católica. Ele dá o material para múltiplas acusações.

Os admiradores do "sábio perseguido" queriam fazer dele um "mártir da ciência" e o representar como herói. Porém nada de heróico transparece na sua vida. No principio era apaixonado e arrogante, de modo que o moderado São Bellarmino caracterizou sua propaganda de correrias furiosas; depois da proibição de 1616 ele se tornou fingido, não ousando mostrar abertamente suas intenções. Os fatos são tão evidentes, para um observador desprevenido, que já há mais de um século, o escritor anglicano Whewell negava merecer. Galilei o título de mártir.

Para Galilei ser mártir, ele devia ser perseguido. Por conseguinte seus defensores supõem nos juizes da Inquisição má fé, a vontade de condenar a todo transe um sábio inocente. Ainda há pouco um astrônomo francês, falando sobre o caso Galilei, mostrou a intenção de dizer a verdade, concedendo, p. ex., que Galilei não foi torturado. , Contudo era de opinião que os juizes lhe puseram uma armadilha, induzindo-o a entrar na disputa teológica onde tinham jogo fácil com ele. Porém a história prova exatamente o contrário. De todos os lados, jesuítas, cardeais, o embaixador toscano e outros insistiam com o sábio a abandonar as discussões teológicas e restringir-se ao aspecto científico. da questão. A culpa da sentença de 1616 repousa em primeiro lugar na teimosia de Galilei, que resistia a todos os conselhos de moderação.

Entre os acusadores da Igreja Católica está também o célebre popularizador da astronomia, Camille Flammarion, que foi íntimo e assíduo colaborador de Allan Kardec. Desde o século passado centenas de milhares liam e ainda lêem suas belas obras sobre astronomia. Infelizmente ele explorou o caso Galilei de um modo indigno. Consideremos seu proceder como exemplo das injustas acusações feitas à Igreja Católica.

Camille Flammarion escreve na sua Astronomie Populaire: "... E são estes sóis distantes (as estrelas) que o orgulho humano queria fazer gravitar em, redor do nosso átomo! E para nossos olhos, declarava a velha teologia, são criadas aquelas luzes que são invisíveis sem o telescópio. E porque o astrônomo filósofo Giordano Bruno desconfiava que estes sóis distantes fossem centros de novos mundos, ele foi queimado vivo pela inquisição romana, à vista do povo pertérrito. E porque Galilei insistia em que a terra estivesse sujeita ao sol, e que este astro fosse só uma estrela, perdida no infinito, a mesma inquisição lhe ordenou, sob pena de morte, a se ajoelhar diante do evangelho (na igreja da Minerva, em Roma, 22-6-1633) e de abjurar a verdade que sua consciência reconhecia! Está ele culpado, o pobre septuagenário, de ter assim renegado sua fé? Não. Todas as fórmulas que os senhores do dia o obrigaram a pronunciar, não impediam a terra de girar, e, se não fosse ali na história do progresso um drama espantoso, seria uma verdadeira comédia. Façam o que quiserem o Papa Urbano VIII e seus cardeais:

La Terre nuit et jour à sa marche fidèle
Emporte Galilée et son juge avec elle".

Este texto de Flammarion contém mais inverdades e calúnias do que frases.

A primeira frase é uma acusação injusta contra a humanidade. Até os últimos séculos, toda a humanidade julgava erradamente a natureza dos astros, não por orgulho, mas por simplicidade e ignorância. Flammarion, se vivesse alguns séculos mais cedo, teria pensado da mesma forma.

Na segunda frase o autor torce e desvirtua maliciosamente uma bela doutrina dos teólogos.

A afirmação sobre Giordano Bruno é uma evidente calúnia, como abaixo veremos.

O presente trabalho histórico já revelou ao leitor atento quantas falsidades Flammarion acumula nas poucas frases que falam do caso Galilei. Vejamos:

Que a terra fosse sujeita ao sol, já o afirmara Copérnico e muitos depois dele durante 80 anos e nenhum juiz romano se inquietou. Se Galilei só fizesse o mesmo, nunca fora citado e condenado. Ele provocou os juizes por suas digressões teológicas e multiplicou seus adversários por seus modos arrogantes. Pode-se dizer: Não Galilei foi a vítima da Inquisição, mas sim a Inquisição foi vítima de Galilei, pois sem suas provocações ela ficaria isenta do seu lamentável deslize.

E' caluniosa a afirmação de que Galilei tenha sido condenado por afirmar que o sol era uma simples estrela. Disto não se tratou no processo.

Galilei não foi ameaçado com a morte, nem sequer foi torturado, vimos com quantas atenções foi tratado. Ninguém o tratou com a irreverência, que ele até mostrou em face de cardeais.

Galilei teria abjurado as verdades reconhecidas por sua consciência, diz Flammarion. Galilei mesmo afirmava ser desde 1616 defensor do sistema antigo. Onde está a verdade? Em todo o caso ele fez durante longos anos um jogo duplo, apaixonado e de repelente falta de sinceridade.

A expressão emocional: "drama espantoso" deve impressionar o leitor a desfavor da Igreja Católica e a favor do "pobre septuagenário". Sim, foi um drama, mas causado por grave desobediência e falta à palavra dada em 1616. Foi um drama em que um ator genial procurou demonstrar uma verdade com demonstrações evidentemente erradas. Por que Flammarion cala os erros de Galilei? Desta forma pode-se provocar compaixão para qualquer malfeitor condenado por um tribunal. Flammarion não é o único a explorar deste modo o caso Galilei.

Também a gravura, com que Flammarion acompanha o texto, mostra tendência malévola. Representa a abjuração de Galilei em presença de mais bispos do que podia haver em Roma, e todos solenemente de báculo, mitra e capa magna. A fantasia do artista falsificou cientemente a verdade histórica.

Flammarion, que se dizia amigo do padre astrônomo Secchi, e que em Roma visitou o Papa, mereceria mais aplausos, se tivesse omitido este e outros ataques aleivosos e desnecessários a pessoas eclesiásticas. Laplace fala de modo semelhante como Flammarion.

Flammarion não se pode desculpar alegando ignorância, porque as atas do processo de Galilei já eram publicadas na França em 1877, e antes já eram conhecidas as de Giordano Bruno.