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Quem não ouviu falar de Galileu Galilei? O grande sábio, o
gênio turbulento, matemático, físico, astrônomo, observador e
pensador, lutador vitorioso e derrotado, promovendo a ciência e
sucumbindo a erros, entregue a altas contemplações e inclinado aos
prazeres da vida, admirado e louvado, criticado e acusado, elevado
aos fastígios da glória e humilhado como réu e criminoso. Como sua
vida está cheia de estranhos contrastes e contradições, também o é
sua memória na história. Seus admiradores o exaltam, seus
adversários o condenam. Boa e má fé se misturam, como também os
fatos históricos se entremeiam com lendas. O que devemos pensar deste
homem enigmático?
A esta pergunta não é possível responder em poucas palavras. O
presente trabalho procura. elucidar o "Caso Galilei", expondo e
ponderando os fatos históricos, tirados de documentos originais e
transmitidos por testemunhas fidedignas. Ouvindo as próprias palavras
de Galilei e dos mais atores da tragédia, ser-nos-á possível
separar a lenda da verdade e formar um juízo seguro e justo.
Galileu Galilei nasceu no ano de 1564 em Pisa, na Itália, da
família dos Galilei e, segundo uma praxe do tempo, deram-lhe o
mesmo nome, em forma um pouco alterada. Com 25 anos tornou-se
professor na cidade natal e três anos depois na célebre universidade
de Pádua, onde em breve foi admirado tanto pelo talento como por suas
descobertas e invenções no domínio da física. Em 1610 o
grão-duque de Florença chamou Galilei para a cidade dos Medici e o
nomeou matemático da corte, com o elevado ordenado de 1.000
florins-ouro. Muitos o consideram como o fundador da física
moderna, pôr ter ensinado a procurar as leis da natureza, não por
argumentos abstratos, mas pela observação dos fenômenos e pelo
inteligente uso da experiência sistemática. Conta-se que aos 19
anos, na catedral de Pisa, ele observava os balanços de um
lampadário pendurado da abóbada e notou a duração igual das
oscilações. Por repetidas experiências descobriu as leis do
pêndulo. Também estabeleceu as leis fundamentais da mecânica,
descobriu o fenômeno importante da inércia da matéria. Não se pode
passar seu nome em silêncio, quando se fala do termômetro, do
microscópio e da luneta.
A primeira descoberta da luneta deve-se a um ótico holandês. Em
1609 Galilei recebeu a notícia; foi quanto lhe bastava para em
breve descobri-la por si. Teve a idéia feliz de dirigi-la para o
céu. Pela primeira vez na história da Inumanidade armou-se a vista
humana, aumentou-se seu poder visual na contemplação de segredos,
ocultos desde a criação. Os resultados foram estupendos. Quem
descreve a emoção do observador quando descobriu manchas no disco
luzente do sol, quando constatou que a ]tia não é um globo liso,
mas coberto de altas montanhas e serras, entremeadas de planícies.
Os planetas, até então só conhecidos como pontos luminosos,
apareciam aumentados na luneta de Galilei. Além disto Vênus
apresentava fases de crescente e cheia, como a lua. Marte aparecia
maior e menor, Júpiter estava rodeado por quatro "planetas"
(luas) e Saturno apresentava forma alongada ou até tripla.
Dirigindo sua luneta para as estrelas fixas, Galilei constatou a
presença de muitíssimas estrelas cuja existência era sempre negada;
em particular a Via Láctea não apresentava um clarão leitoso,
uniforme, mas era um conjunto de imensas nuvens de estrelas.
Não imaginamos o alvoroço que se apoderou de todo o mundo
civilizado, quando Galilei divulgou suas descobertas. As novidades
eram de molde a mudar profundamente a visão do universo, estabelecida
pelo sábio grego Aristóteles (384-322 A.C.) e pelos
célebres astrônomos, Hiparco (130 A.C.) e Ptolomeu
(150 A.C.). Em breve o. professor de física, até então
só conhecido em círculo mais íntimo, alcançou fama mundial.
Príncipes queriam ouvi-lo; nenhum auditório podia receber as massas
de estudantes que afluíam a Pádua, atraídos pela fama de Galilei.
Em toda a Europa comentavam-se as incríveis novidades. Eram mesmo
incríveis, e entre os intelectuais a primeira reação não era de
entusiasmo, mas de ceticismo e incredulidade. Para compreender os
acontecimentos posteriores, é forçoso considerar a imensa dificuldade
dos contemporâneos de Galilei de abandonar convicções que reinavam
inconcussas desde séculos e até milênios. O homem moderno, pronto
a admitir cada dia novas opiniões científicas, dificilmente se dá
conta da constância de convicções em tempos passados. Os argumentos
tirados da tradição são hoje considerados como suspeitos ou
simplesmente errados, mas nos tempos de Galilei as doutrinas
tradicionais eram respeitadas e para muitos sé ligavam as visões
filosóficas, que incluíam o reduzido cabedal científico daquele
tempo, com as doutrinas religiosas, num edifício único e coeso.
Atacar uma parte significava perigo para todo o conjunto.
Citemos só um exemplo. 1624 em Paris. A Sorbonne censura
algumas teses dirigidas contra Aristóteles. O Parlamento manda
rasgar as teses, exila o autor de Paris e de todos , os lugares sob
sua jurisdição e proíbe a todos, sob pena de morte, de sustentar ou
ensinar princípios contrários aos antigos e provados autores (Cf.
Jourdain, Hist. Universitatis Paris. saec. 16 et 17). De
certo esta decisão vai muito além dos decretos romanos contra
Copérnico e Galilei. Por que se cita sempre o erro da Inquisição
e nunca o da Sorbonne? Galilei combatia Aristóteles: Em Paris o
teriam condenado à morte.
Galilei, por sua vez, não era homem do seu tempo, mas homem do
futuro. Não admitia tradição, não aceitava argumentos "ex
auctoritate", não queria jurar "in verba magistri". Queria
pessoalmente averiguar, experimentar, deduzir, admitir não o que sé
afirmava, mas o que os fatos, a natureza lhe demonstravam. Com
intuição genial, que infelizmente não excluía obcecação
apaixonada, ele via e seguia os métodos científicos do futuro. Não
compreendia seu tempo, nem era mesmo compreendido pelos
contemporâneos. Assim se desencadeou uma luta, em que Galilei
estava com a verdade; mas no ardor da luta ele se deixou arrastar a
defendê-la com todos os meios, ataques irônicos, provocações e
argumentos errados. Era combativo, querendo vencer a todo o transe,
sem permitir que a evidência da verdade convencesse lentamente seus
adversários.
A oposição já começou quando se espalharam os primeiros boatos das
novas descobertas, devidos a cartas e comunicações orais de
Galilei, antes de aparecer seu livro sensacional Sidereus Nuntius.
Em carta escrita em 19-4-1610 ao mesmo Galilei, o grande
astrônomo Kepler confessou a sua reação inicial, quando em Praga
um conselheiro do imperador lhe deu as primeiras notícias:
"Estávamos tão surpreendidos e admirados deste boato irrazoável,
que nosso riso alegre não queria terminar enquanto ele contava e eu
escutava... e nosso assombro crescia ainda quando ele afirmou que
havia gente eminente em sabedoria, seriedade e de juízo seguro, muito
acima do povo comum, que contava tal coisa de Galileu, e que o livro
já estava no prelo..."
Do mesmo modo mostrava-se incrédulo Magini, astrônomo em
Mântua. "Parece-me uma coisa ridícula, a destes quatro planetas
que Galilei faz circular em redor do planeta (Júpiter)".
Mas Galilei não aturava contradição. Passou uma noite em casa de
Magini, 24 a 25-4-1610, para mostrar com sua luneta a mais
de 20 sábios os satélites de Júpiter. O resultado foi negativo,
pois como dois dias depois escreveu Martinho Horky a Kepler: Magini
perseverou na sua obstinação "por ninguém os ter visto
perfeitamente".
Também o jesuíta Cristóvão Grienberger, matemático no Colégio
Romano, inventor da montagem paraláctica da luneta, confessa
sinceramente sua incredulidade inicial, em carta ao próprio Galilei
(22-1-1611) : "... Deu-se comigo o que se deu com
muitos para não dizer com todos... tinha a suspeita que deveriam ser
chamados planetas de vidro e não dos Medici (como Galilei os chamara
em honra da casa reinante de Florença) ... Coisas tão incríveis
não podem nem devem ser admitidas com credulidade. E bem sei como é
difícil renunciar a opiniões, sustentadas desde tantos séculos pela
autoridade de tantos sábios. Em verdade se eu mesmo - enquanto o
permitem os instrumentos em Roma - não tivesse visto com meus
próprios olhos as maravilhas que vós anunciais ao mundo, não sei se
desde já teria assentido a vossas razões".
Como Grienberger, também Magini e Kepler escreveram finalmente a
Galilei, reconhecendo-se vencidos pela evidência dos fatos.
Kepler o fez com grande entusiasmo; "Reconheço que aos filósofos e
astrônomos, e se não me engano também a mim mesmo, sé apresentam
grandiosas e maravilhosas perspectivas; vejo que todos que anelam à
verdadeira filosofia, são chamados a elevadas contemplações".
Vivia ainda em Roma o Pe. Cristóvão Clavius, o grande
protagonista da reforma do calendário (1582), chamado o
Euclides do século XVI. Galilei estimava muito o grande sábio,
esperava ansiosamente sua aprovação e quando recebeu a desejada
carta, escreveu entusiasmado ao célebre matemático
(30-12-1610): "A carta de V. R. foi-me tanto mais
agradável quanto mais à desejava e menos a esperava. Recebi-a
estando enfermo, mas ela me confortou, trazendo-me um testemunho tão
precioso pela verdade das minhas recentes observações. A
apresentação deste testemunho convenceu alguns incrédulos, porém os
mais obstinados perseveram na sua oposição e consideram a vossa carta
como falsificada ou escrita por mera complacência. De certo eles
esperam que eu encontre meio de trazer pelo menos um dos quatro
"Planetas Mediei" do céu à terra, para lhes dar conta da sua
existência, e tirar toda dúvida..." Mais um tópico importante
da mesma carta fala dos planetas inferiores e remata: "...e assim,
Sr., temos exposto que Vênus (e sem dúvida também Mercúrio o
faz) circula em redor do sol, indubitavelmente o centro das
revoluções de todos os planetas..."
Pouco depois morreu o sábio amigo. Porém, antes de morrer, ainda
teve ocasião de acrescentar um suplemento à edição das suas obras
completas. Menciona as descobertas de Galilei e recomenda aos
astrônomos de revisar suas idéias.
Referindo-se a esta recomendação escreve o grande Kepler
(Epítome Astronomiae Copernicanae): "...após o prolongado
nevoeiro das opiniões comuns, irrompeu finalmente o raio puro da
verdade... Esta verdade impressionou e convenceu aquele mestre,
defensor da antiga astronomia, Cristóvão Clavius. Quando, já
vizinho da morte, viu as estrelas galileianas rodear a Júpiter, a
Vênus contraída em foice e outras novidades, ele recomendou aos
astrônomos de finalmente ponderar como deviam ser constituídas as
esferas celestes para se não contradizer a estes fenômenos,
insinuando estarem votadas à morte as antigas hipóteses".
Também Cristóvão Clavius não se rendera sem relutância. Com
ele concordavam os seus confrades na Itália. Com uma cínica
exceção, todos admiravam a Galilei e suas descobertas, e por seu
lado o sábio pisano reconheceu sincera e gratamente o apoio valioso
daquela companhia (Carta a Frederico Cesi, 19-12-1611).
Pelos testemunhos alegados vemos qual foi, no mundo científico, a
aceitação das descobertas de Galilei. Os homens mais eminentes e
competentes da época, um Kepler, Clavius, Grienberger, Magini
dobraram-se finalmente diante da evidência da verdade. Mas também
confessaram com a mesma franqueza que só fatos e não teorias ou
argumentos os puderam vencer. O que será, quando mais tarde Galilei
defender teorias ainda não provadas e evidentes?
Entretanto muitos espíritos, menos clarividentes, preferiam
perseverar na incredulidade. Na resposta a Clavius, Galilei
mencionou tais adversários obstinados. A estes pertencia também um
jesuíta de Mântua. Num discurso pronunciado em público ele opinou
que "sob a argumentação de Galilei se escondia a serpente do
engano". Tratava-se das montanhas da lua. Um colega, Pe.
Biancani, professor de matemática em Parma, recomendara em vão ao
orador de omitir aquelas palavras. Em seguida o mesmo Pe. Biancani
e o Pe. Grienberger escreveram a Galilei desaprovando aquele
ataque. Galilei mostrou-se sinceramente agradecido.
Não faltaram outras oposições de espíritos acanhados, rebeldes à
evidência. O acadêmico Martinho Horky, ao que parece amigo de
Magini, participou da incredulidade do astrônomo de Mântua, mas
não de sua conversão. Publicou um panfleto contra Galilei. O
mesmo fez o fidalgo Francesco Sizzi de Florença. Por ocasião de
sua visita aos jesuítas em Roma, Galilei encontrou os matemáticos
do Colégio Romano, Clavius, Grienberger, Van Malote, lendo e
comentando com hilaridade as "argumentações pueris" de Sizzi.
Aquelas vozes de oposição tiveram que emudecer em breve diante dos
fatos. O feliz descobridor tornou-se repentinamente o homem mais
célebre do seu tempo. Nas cortes e universidades eram reconhecidos
seus méritos. Em particular foi honrado em Roma, quando ali chegou
em 29-3-1611, para demonstrar as novidades do céu com sua
"ótima luneta" e granjear adeptos da doutrina copernicana.
Raras vezes em Roma um sábio recebeu tantas demonstrações de
apreço como Galilei. Na residência do Cardeal Bandini, no
palácio de Frederico Cesi e em outros lugares viu-se rodeado e
aclamado pela elite do estado pontifício. Em 25 de Abril foi
solenemente admitido na Academia dei Lincei fundada por Cesi. Três
dias antes o Papa Paulo V o tinha recebido em prolongada audiência.
No Colégio Romano foi festejado por solene academia, em presença
de numerosos patrícios, condes, duques, cientistas, prelados e pelo
menos três cardeais. Cristóvão Clavius estava ausente, impedido
pela velhice e doença. Em seu lugar falou o Pe. Grienberger.
Relatou as novidades inauditas, reveladas ao mundo pelo Sidereus
Nuntius (mensageiro das estrelas) do patrício florentino Galilei,
o mais célebre e fecundo astrônomo do seu tempo... Não faltava
gente que duvidasse ou se risse destas novidades; pelo que chegava
agora ele próprio; o orador, para confirmar a verdade, como segundo
mensageiro e testemunha ocular, tendo observado, sem sombra de.
erro, as mesmas maravilhas com a luneta do Pe. Clauvius. O orador
leu também a carta do sábio florentino ao Pe. Clavius, sem omitir
a afirmação de estar agora definitivamente provado que Vênus circula
em redor do sol. Prudente, o Pe. Grienberger termina com estas
palavras: "Acabo de expor os fatos, deixo a outros tirar as
conclusões".
Tantas honras conferidas na cidade eterna, "em face do mundo
inteiro", segundo uma expressão do próprio Galilei, teriam bastado
para estontear pessoas menos sensíveis a honrarias do que o matemático
de Florença. Resolveu conservar e aumentar esta fama, levando ao
reconhecimento universal o sistema de Copérnico. Antes de suas
descobertas sensacionais ele ensinara, durante 20 anos, a astronomia
segundo o sistema de Ptolomeu, em que os planetas se moviam em
órbitas compostas de dois círculos. O próprio planeta girava numa
pequena órbita, epiciclo, cujo centro se transladava numa órbita
maior, diferente, tendo esta como centro a terra. A terra era o
centro do mundo.
Até a idade de 45 anos Galilei se interessava pouco pela
astronomia, nem se importava da exatidão ou falsidade do sistema que
ensinava. Esta disposição mudou repentinamente quando a luneta lhe
revelou fenômenos que estavam em contradição com Ptolomeu. Os
"Planetas Medici", os satélites de Júpiter, provavam a
existência de corpos celestes que circulavam em redor de outro corpo e
não da terra. A terra não era pois o centro absoluto do universo.
De ora em diante ninguém poderia mais negar aos planetas a
possibilidade de girar em redor de outro corpo, p. ex., em redor do
sol, se havia de fato planetas que giravam até em redor de Júpiter,
muito menor do que o sol, e se Júpiter levava satélites, também a
terra podia levar a lua, possibilidade até então negada, por ser
ainda desconhecida a lei da gravitação universal.
Vênus apresentava fases de crescente, cheia, minguante, exatamente
conto a lua. Também este fenômeno contradizia os antigos conceitos.
Só um corpo escuro iluminado por outro pode apresentar fases.
Portanto Vênus não era luminosa por si mesma, não era da matéria
indelével, do "elemento fogo", como queriam os antigos. E para
apresentar as diferentes fases, Vênus devia-se colocar ora aquém do
sol (Vênus crescente e minguante), ora além do sol (Vênus
cheia); em outras palavras, Vênus devia girar em redor do sol e
não da terra. Este argumento era convincente para os matemáticos e
astrônomos, mas exasperava os depositários cias antigas tradições;
é o que se deduz das palavras que o jesuíta Gregório de S.
Vicente escreveu ao célebre astrônomo holandês Huygens: "Que
Vênus rodeia o sol, o temos demonstrado manifestamente, não sem
murmúrio dos filósofos".
Na rica literatura que, nos últimos três séculos, versou sobre o
caso Galilei, discordam os autores se o feliz descobridor de tantas
novidades estava intimamente convencido da exatidão do sistema de
Copérnico. Devemos admitir que no menos no princípio as suas
descobertas, o convenceram neste sentido, pensando já possuir provas
convincentes. Também não duvidamos que a luta em perspectiva
provocava sua índole belicosa. Começou pois a executar seu plano de
fazer triunfar o sistema de Copérnico.
Apenas ficou conhecida a nova orientação de Galilei, também se
levantou nova oposição. De certo modo até a oposição o preveniu.
Galilei a tinha provocado desde longos anos.
Consciente de sua superioridade intelectual, orgulhoso e arrogante,
ele sempre fora combativo e provocante. Como professor em Pisa e
Pádua, seus colegas se ofendiam com os ataques irônicos que
levantava contra a filosofia aristotélica. Foi também um colega,
Boscaglia, que revidou com o primeiro contra-ataque. A mesa do
grão-duque de Florença, ele segredou à duquesa-mãe que o sistema
de Copérnico era contrário à Sagrada Escritura. A conseqüência
foi uma calorosa disputa teológica, em que o beneditino Castelli,
discípulo, grande admirador e amigo de Galilei, tomou a defesa do
novo sistema e do seu mestre. Todos, fora a velha duquesa,
deixaram-se convencer.
E' típico, para o caráter de Galilei, que a resistência daquela
idosa senhora não mais lhe deu sossego. Escreveu uma longa carta a
Castelli, destinada a larga publicidade. Não faltava o tom
provocador e, o que era mais funesto, pela primeira vez o leigo se
intrometeu em questão teológica, expondo que "a Sagrada Escritura
não podia errar, mas sim seus intérpretes. Estes deviam pois
adaptar suas interpretações aos resultados certos das ciências
naturais. Era um abuso consultar primeiro a Sagrada Escritura quando
se tratava de verdades que só de longe se relacionavam com a fé
religiosa".
Fora dado o passo trágico. Galilei não voltará para trás.
Chamou ao plano um novo grupo de adversários, os teólogos, e por
sua vez, a nova oposição provocará cada vez mais o espírito
combativo do defensor de Copérnico; e na sua índole bastante
ingênua, ele se recusará constantemente a reconhecer a seriedade da
situação.
A reação enérgica que se levantou e os avisos alarmados dos seus
amigos tiveram o efeito contrário. Em vez de se restringir a
argumentos científicos, Galilei teimou tanto mais em insistir no
aspecto teológico da questão. Não contente com a primeira carta a
Castelli, até sentiu a necessidade de escrever uma segunda à
duquesa-mãe, com os mesmos argumentos. Em seguida preparou uma
publicação popular para a mais ampla publicidade, intitulada:
"Considerações sobre a intenção de Copérnico". Aqui Galilei
arvora-se em mestre dos teólogos, dando instruções sobre a
interpretação da Sagrada Escritura, a autoridade dos Padres da
Igreja e a doutrina do Concílio de Trento. Avisava os teólogos de
não fazer da Bíblia um livro de mentiras, lendo nela doutrinas que
talvez mais tarde seriam reconhecidas como falsas. De certo era
prudente, continua Galilei, não aceitar os movimentos da terra sem
serem provados. Se os argumentos não fossem ao menos 90% certos,
podiam ser afoitamente reprovados... E assim aconteceu mais tarde.
Finalmente Galilei mandou imprimir três cartas sobre as manchas
solares, em cujo movimento aparente ele via uma prova a favor do
movimento da terra. O carmelita Foscarini, amigo de Galilei,
publicou também um trabalho para defender o sistema de Copérnico.
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