A OPOSIÇÃO CONTRA O SISTEMA DE COPÉRNICO.

Enquanto Galilei e seus amigos desenvolviam sua atividade febril a favor de Copérnico, começou entre os, católicos, principalmente entre os teólogos, uma viva reação, que no campo católico era completamente nova, inesperada e unicamente provocada pela turbulência do matemático florentino.

O novo sistema astronômico fora proposto ao mundo pelo padre católico Copérnico. Até então toda a humanidade admitia que a terra, aparentemente imensa, estava em repouso e que todos os astros giravam em redor dela. Aristóteles e Ptolomeu tinham dado as melhores interpretações desta convicção. Também a Sagrada Escritura, parecia confirmar a convicção geral, dizendo da terra, no salmo 103, que Deus a fundou em firmes alicerces. Do sol diz a Sagrada Escritura que Josué o mandou parar. Harmonizando assim com a opinião geral, a Bíblia era interpretada ao pé da letra.

Copérnico ousou levantar-se contra o consenso comum, afirmando que o centro do mundo era o sol e que a terra girava em redor do astro central, como simples planeta. Ele receou tão pouco contradizer a Bíblia, que dedicou seu livro, impresso em 1543, ao Papa Paulo III. O editor protestante, Hosiander, foi mais receoso e acrescentou um prefácio, em que cautelosamente tratou o novo sistema como mera hipótese.

A primeira oposição levantou-se no campo protestante. Lutero, 4-6-1539, tratou Copérnico como tolo: "Foi anunciado um novo astrólogo, este queria provar que a terra era movida e circulava, e não o céu ou o firmamento, sol e lua... Aquele tolo quer virar a arte da Astronomia. Mas como indica a Sagrada Escritura, Josué mandou parar o sol e não a terra". Melanchthon declarou-se adepto de Ptolomeu (1549) e alegou contra o novo sistema os textos da Bíblia. O mesmo fez o grande astrônomo dinamarquês Tycho Brahe, que por sua vez imaginou um novo sistema, conhecido sob o nome do autor. Em geral os protestantes eram contrários ao "sistema católico". Ouçamos um pregador protestante do ano 1589: "Toda a nova astronomia é uma obra miserável, como também o que Copérnico ensinou é contra a Sagrada Escritura e por conseguinte foi rejeitado por Lutero. O anticristo romano (O Papa) e os jesuítas querem, com a razão, a meretriz do demônio, como diz Lutero, intrometer-se e virar tudo o que está proposto pela palavra divina". Mais tarde devia-se dar uma reviravolta: quando Roma se declarou contrária às idéias de Copérnico, os protestantes tornaram-se seus adeptos. Assim, já em 1624, o Cardeal Frederico de Hohenzollern informou o Papa que na Alemanha "todos os protestantes" estavam a favor do sistema de Copérnico. (Porém até o século passado muitos ficaram fiéis à tradição luterana). Também foi referido ao mesmo Papa que alguns nobres protestantes desejavam voltar à Igreja Católica, porém hesitavam por causa do decreto contra Copérnico (Castelli a Galilei 16-3-1630).

Entretanto entre os católicos ninguém se alarmou por causa da novidade. Prelados eminentes tinham animado Copérnico, outros, como o Cardeal Pazmany, eram de aviso que da Sagrada Escritura não se podia inferir nada contra Copérnico. A Bíblia não queria ensinar ciências naturais e se exprimia segundo as aparições pelo modo comum de falar.

Na segunda metade do século XVI, cientistas como Célio Galgani e outros faziam conferências na Itália sobre o sistema de Copérnico. No mesmo tempo foi introduzido o livro de Copérnico na universidade espanhola de Salamanca. A reforma do calendário, feita em 1582, por ordem do Papa Gregório XIII, foi preparada com o auxílio das Tabuadas Prutênicas, calculadas segundo o sistema de Copérnico.

A história mostra com evidência que, nos 80 anos de Copérnico até Galilei, a resistência (de oposição mal se pode falar) ia diminuindo. O maior impedimento para a aceitação universal da nova teoria era, por parte do novo sistema, sua falta de provas peremptórias. O seu argumento de maior peso, a simplicidade do novo sistema, por si só não dirimia a questão. Além disto era ainda imperfeito, contendo erros, corrigidos mais tarde por Kepler. Este grande astrônomo aumentou muito a probabilidade do novo sistema. Também as descobertas de Galilei concorreram poderosamente para o mesmo fim. Sem as provocações de um Galilei não se teria levantado oposição tão decidida e a Igreja nunca se teria pronunciado contra as novas teorias. O protestante Kepler, perseguido por seus correligionários . como adepto de Copérnico, admirava a sabedoria da Igreja Católica, que proibia a astrologia, mas dava livre curso às novas idéias introduzidas pelo sábio polonês.

E' um fato histórico que a menor resistência se fez precisamente no centro da Igreja Católica, em Roma. Quando no norte da Itália já ardia a luta, provocada por Galilei, em Roma os jesuítas, principalmente Grienberger e o grande Clauvius, insinuavam, segundo a expressão de Kepler, estarem condenadas à morte as antigas teorias. O Cardeal Barberini, que mais tarde como Papa Urbano VIII devia condenar a desobediência de Galilei, era grande admirador do sábio pisano, aceitou e louvou as cartas sobre as manchas solares que defendiam o sistema de Copérnico. De modo semelhante pensavam outros eminentes prelados de Roma. Em particular a escola peripatética (de Aristóteles) não gozava em Roma de fama tão inconcussa como em Paris e Pádua; basta dizer que o Cardeal Barberini nunca fora aristotélico, e que o Cardeal Bellarmino procurava argumentos contra a mesma escola. Mas a prova mais `evidente de moderação e largueza de vista deu o próprio Tribunal da Inquisição. O dominicano Lorini tinha denunciado a carta de Galilei a Castelli, que defendia o sistema de Copérnico e propunha novas interpretações da Sagrada Escritura. A. Inquisição examinou a carta e não achou nada a repreender. Era um novo triunfo de Galilei. Mas tudo mudou quando ele mesmo apareceu em Roma para, com sua arrogância habitual, defender suas opiniões e convencer os adversários.