O CARÁTER DE GALILEU.

Já há oitenta anos existia o livro de Copérnico sem que se manifestasse alguma oposição entre os católicos.

Vem Galilei, começa por afirmar muito menos do que Copérnico, e já surgem adversários.

Para compreender a oposição que quase constantemente se levantou contra Galilei, devemos considerar não só o valor científico dos seus escritos e conversações, mas também seu caráter, sua índole combativa, com que sabia dar a todas as suas manifestações um cunho provocador. Convém que tal consideração preceda o estudo do primeiro processo.

Esta razão já seria suficiente para nos obrigar a revelar as falhas de caráter do grande físico. Mas acresce outra.

Os admiradores de Galilei querem granjear para seu herói a admiração, a fim de despertar tanto mais compaixão com o grande homem, tão "injustamente hostilizado pelos indignos padres e monges". Falam pois do seu idealismo, com que sem descanso procurava a luz da verdade, dos seus sentimentos nobres, do seu coração magnânimo.

Para salvar a honra de pessoas eclesiásticas, que ao mesmo tempo representavam a Igreja Católica e sua reputação, vemo-nos forçado, embora a contragosto, a revelar o caráter do célebre personagem. Matéria não falta.

Para conseguir este propósito, não podem bastar simples afirmações; devem falar os fatos históricos, as citações autênticas de testemunhas contemporâneas do sábio, a opinião de cientistas e historiadores insuspeitos. Nem oferecemos uma análise psicológica, mas um simples mosaico de realidades.

Esperamos que os fatos corrijam muitos conceitos errados.

Não afirmamos que Galilei fosse um monstro, incapaz de sentimentos elevados. De certo ele tinha ótimas qualidades, que lhe valeram muitas amizades. Porém havia também defeitos.

Galilei era cristão católico e o ficou até o fim da vida. Porém sua vida moral não concordava com a ética de sua, religião. Em Pádua tinha três filhos sem estar casado. Em Roma (1615) o embaixador toscano se queixava ao grão-duque de Florença da vida desregrada de Galilei.

A 15-8-1602 o inglês Bruce, escrevendo de Florença a Kepler, acusa Galilei de plagiato científico. Kepler lhe tinha mandado sua obra Mysterium Cosmographicum. Galilei, ocultou a recepção do livro, mas propunha a seus discípulos as idéias de Kepler como suas. Na vida de Galilei existem também outros fatos indubitáveis de semelhante plagiato. Ainda o veremos.

O que ele assim se permitia não o concedia a outros. Em Pádua ele tinha um jovem colega Aurélio Capra. Galilei lhe mostrou certa vez um "compasso proporcional". Num estudo, publicado em 1606, Galilei confessa que já anteriormente existia um compasso semelhante, porém muito inferior e aperfeiçoado por várias invenções suas.

Com incrível ingenuidade o colega Capra traduziu o estudo para o latim, cometendo muitos erros e o publicou em 1607 como seu, sem nomear o autor uma única vez. Imediatamente Galilei dirigiu queixa indignada à autoridade universitária. No memorandum ele trata o compasso como exclusiva invenção sua.

Diante do perigo Capra caiu em si, reconheceu seu erro e ofereceu a Galilei retratação e completo desagravo. Mas a cólera do cientista ofendido foi sem limites. Não aceitou o desagravo do colega e não descansou até este ser citado diante do tribunal acadêmico. Ali Capra não soube responder palavra, nem sequer lembrar o fato de Galilei reivindicar indevidamente para si a completa invenção do compasso. Galilei por sua vez o examinou como a uma criança e o deixou completamente aniquilado. Seu proceder foi tão mesquinho que os próprios juizes ficaram revoltados.

Capra foi condenado, e confiscado seu estudo sobre o compasso. O julgamento foi publicado ao som de trombetas.

Nem assim Galilei estava satisfeito. Todo o mundo devia saber da sua vitória sobre o atrevido colega. Com o pretexto de 30 exemplares do estudo terem escapado á confiscação, ele publicou ainda no mesmo ano de 1607 uma Difesa, cheia das mais violentas invectivas contra o infeliz colega (Calunie ed imposture, fraude inaudita, ignoranza, ínvido inimigo, mordace e mendace língua, brutíssima creanza, odio intestino, etc.).

Aqui aparece uma índole sumamente apaixonada. Não só Capra, também outros, já anteriormente, tiveram encontros pouco amistosos com o pisano. No tempo de escola seus camaradas lhe tinham dado a alcunha de "O Brigalhão".

Historiadores que conhecem todos os documentos históricos da vida, correspondência e obras de Galilei, afirmam que ele invejava colegas de renome. Só assim se pode explicar a maneira com que tratava os maiores astrônomos do seu tempo. De Tycho Brahe só realça a "loquacidade", as idéias de Kepler são "criancices", e as publicações do célebre Pe. Scheiner são "fantasias".

Consideremos o caso de Kepler. Galilei nunca menciona os trabalhos seculares do eminente astrônomo. Bem os conhecia, pois Kepler lhe enviou suas obras e em carta lhe pediu sua opinião. A única vez em que, além das "criancices de Kepler", ele se refere velada e depreciativamente aos trabalhos do colega, ele o faz nos seguintes termos: "... o planeta Marte, que faz tantas dificuldades a alguns".

Aqui fica só uma alternativa. Ou Galilei era dominado pela inveja, ou desconhecia o imenso valor das descobertas de Kepler. E se o desconhecia, a sua ignorância é uma prova evidente da sua inferioridade em matéria de astronomia.

O astrônomo A. Mueller nega a Galilei o meritório título de grande astrônomo. O que ele descobriu no céu foi antes devido à sua luneta do que ao seu grande gênio. Também outros descobriram o mesmo, independentemente de Galilei. Mas o que Galilei escreveu sobre astronomia teórica, já era atrasado no seu tempo ou até declaradamente falso, como veremos mais abaixo.

Pouco fala a favor do seu caráter o sarcasmo e desprezo com que trata seus adversários. Lendo suas exposições, Galilei não pode deixar de escrever à margem observações como estas: Arcibue, animalaccio, castrone, pezzo d'asino, porco, solenissima bestia...

Nos Diálogos que causaram a desgraça final no processo e condenação de 1633, Galilei chama aos prelados romanos de "Reverendíssimos e humílimos escravos de Aristóteles". Toda a obra está cheia de rebuscadas expressões para realçar os erros (errori veramente puerili), a estupidez (solenissime sciocchezze), a loucura (balordagine, sciempiezze) daqueles que discordam das suas afirmações.

Na sua índole combativa Galilei procurava as ocasiões de golpear os outros. Inúmeros casos o provam. Citemos um, também tirado dos Diálogos. Suponhamos o seguinte: Se as manchas solares se movem. de leste para oeste na face anterior e visível do sol, na face posterior o movimento será de oeste para leste. O Pe. Scheiner pois afirmara que as manchas se moviam de leste para oeste. Nos Diálogos Galilei dizia também que elas apareciam no leste e desapareciam no oeste, concordando portanto com o Pe. Scheiner. Mas algumas páginas mais adiante ele se anima contra "aqueles que afirmam o movimento das manchas de leste para oeste". Não, responde Galilei, elas se deslocam no sentido do zodíaco, de oeste para leste... bem entendido: na face posterior do sol... E' difícil de compreender como semelhante ataque pueril se possa encontrar na obra de um homem maduro.

Outro caso de injusto ataque é a longa polêmica que manteve com o Pe. Grassi, professor do Colégio Romano.

No ano de 1618 apareceram no céu em curtos intervalos três cometas. Em certa conferência, que mais tarde publicou, o Pe. Grassi falou da grande distância dos cometas. Expôs o seguinte: Os cometas, principalmente o último, foram observados em muitos lugares, desde os Países Baixos até a Sicília. Não se constatou deslocação (paralaxe) em relação às estrelas vizinhas. A lua, porém, observada de lugares tão distantes entre si mostra uma paralaxe notável. Os cometas achavam-se, pois, mais distantes do que a lua. Devemos, portanto, nos afastar da opinião contrária de Aristóteles.

Este argumento, já alegado por Tycho Brahe, era exato e convencia aos matemáticos e astrônomos.

Por que Galilei se mostrou ofendido? Ele não fizera observações dos cometas, e no discurso científico de Grassi não fora mencionado nem agredido. Como astrônomo devia ter conhecido o peso da argumentação do professor romano. Devemos concordar com a afirmação de conhecedores da vida de Galilei que, neste como em outros casos, era-lhe insuportável ver de outrem aparecer um trabalho de valor em matéria de astronomia. Incontinenti ele se constituía adversário.

Presenciamos um estranho paradoxo. Os amigos de Galilei afirmam que só ele era progressista, enquanto seus adversários se mostravam incapazes de se livrar das antiquadas idéias de Aristóteles. Aqui um representante da antiga filosofia se levanta contra Aristóteles, e Galilei, o copernicano, teima em defender a opinião de Aristóteles. Queria provar que, apesar da falta de paralaxe, os cometas podiam ser exalações da terra, elevadas a grande altura, arrastadas pelo movimento diurno do céu e refletindo a luz solar.

Não podemos aqui acompanhar a longa polêmica que se seguiu. O primeiro ataque foi feito, em lugar de Galilei, por seu amigo Mário Guiducci. Grassi responde com sua Libra, em que pesa as razões de Guiducci. Por sua vez Galilei aparece com Il Saggiatore, balança para ouro, ainda mais fina do que a Libra de Grassi. Finalmente Grassi publica um Exame dos pesos usados na Libra e no Saggiatore.

Grassi sempre se mostra calmo, evitando expressões ofensivas. Galilei no entanto não é capaz do mesmo autocontrole. No Saggiatore, Grassi, com sua conferência sobre os cometas, "é um escorpião venenoso, que deve ser esmagado e exterminado no seu próprio veneno". Não menos apaixonadas são as observações que escreveu à margem das respostas de Grassi: Acusa seu adversário de ignorância, pedanteria, malícia, estupidez, mentira e fraude.

Em certo lugar escreve: "Tu sei un solenissimo bue". Aos testemunhos alegados por Grassi opõe um enérgico "non credo". - "E se fossem mil testemunhos, seriam mil mentiras".

Vejamos brevemente o que na posteridade astrônomos competentes opinaram da inútil polêmica. Delambre julga que a objeção de Galilei contra Tycho Brahe - citada por Grassi - "a l'air d'une chicane".

Oudemans e Bosscha escrevem: "Il faut reconnaitre que, en plusieurs points essentiels, Grassi se montra de beaucoup supérieur à Galilée".

À última resposta de Grassi, Galilei achou melhor já na o reagir. Mas é característico para o vaidoso cientista o que nela acrescentou: "O que quereis, Sr. Sarsi (Grassi), se a mim só foi dado descobrir no céu todas as novidades e a ninguém mais a menor parte? Isto é uma verdade que nem malícia, nem inveja podem desvirtuar..."

Este desabafo de Galilei chama a atenção sobre os numerosos casos em que o feliz descobridor reivindica para si a prioridade das descobertas, nem sempre com razão. Nos Diálogos ele escreve de si mesmo: "O primeiro descobridor das manchas solares, como em geral das mais novidades no céu estelar, foi nosso acadêmico..." A afirmação é um eco de uma longa polêmica que Galilei teve cora o Pe. Scheiner sobre as manchas solares..

O Pe. Scheiner, astrônomo em lngolstadt, observara as manchas solares pela primeira vez em Março de 1611. Pelo fim daquele ano publicou três cartas sobre estes fenômenos. Welser, amigo de Scheiner, enviou as cartas a vários astrônomos, também a Galilei. Em janeiro de 1612 Scheiner terminou uma quarta carta muito extensa, sobre o mesmo assunto. Na Alemanha, pois, o conhecimento da Nova descoberta estava amplamente divulgado, antes que Galilei tivesse publicado uma única palavra sobre o fenômeno. Assira mesmo ele afirmou mais tarde que Scheiner tomara emprestado de si seus conhecimentos sobre as manchas solares.

Pode ser verdade que Galilei observara as manchas antes do colega. Também Scheiner não contestava esta afirmação, embora Galilei não a tivesse provado.. Mas ele insistia em ter descoberto as manchas independentemente de Galilei e ter feito seus primeiros estudos e publicações antes de existir publicação alguma de Galilei sobre o mesmo assunto. Entre os fenômenos observados por Scheiner, acha-se também a variação aparente da rota, seguida pelas manchas no disco solar, variação de inclinação e de linha reta e curva. A Galilei escapara o fenômeno, ele o aprendeu de Scheiner. Mais tarde o propôs como descoberta própria, cometendo ele mesmo o plagiato de que injustamente acusara o colega.

O direito estava tão claramente do lado de Scheiner, que autores bem informados acham inexplicável o proceder de Galilei. Assim escreve V. Braunmuehl: "Não só é injusto, mas simplesmente ininteligível como Galilei pudesse acusar Scheiner de plagiato".

Finalmente Scheiner pôs termo à discussão, numa longa réplica (66 páginas in-fólio na sua célebre Rosa Ursina de 800 páginas. A parcimônia de palavras não era o lado forte das obras científicas daquele tempo, como se vê nas publicações de Tycho Brahe, Kepler, Scheiner e do próprio Galilei).

As exposições de Scheiner eram tão claras e convincentes que lhe valeram urna vitória esmagadora, reconhecida por todos, até pelo vencido, que não ousou mais replicar. .

Scheiner tinha também um caráter fogoso. Mas à insistência dos seus superiores, ele soube evitar qualquer surto veemente. E' verdade que na sua longa defesa ele acusa Galilei de inverdade, falta de caridade, ambigüidade e até de manifesta injustiça e calúnia. Mas o que afirma é também provado irrefutavelmente. A derrota de Galilei foi completa. Ele a calou, mas nunca a esqueceu. Ainda anos depois, já retirado em Arcetri, em carta a seu amigo, o malafamado Fra Micanzio de Veneza, ele se lembra de seu antigo adversário: A Rosa Ursina deveria ser chamada Ursa Rosina; a justa defesa de Scheiner é "rabbia canina", o Pe. Scheiner é ura "animalaccio", um "porco", um "maligno asinone". Não se pode tachar de escasso o repertório de Galilei.

Os amigos de Galilei lhe insuflaram que os jesuítas o perseguiam. O sábio amargurado deu ouvidos a tais insinuações, tanto mais facilmente quanto se lembrava das suas provocações dirigidas contra Scheiner e Grassi, ambos da Companhia de Jesus. Porém até os mais hostilizados por Galilei, sempre mostravam sincera estima e amizade pelo adversário científico. Ouçamos o que o "escorpião venenoso", segundo a expressão de Galilei, o Pe. Grassi, escreveu a um amigo, pouco depois da condenação do sábio de Florença (22-9-1633) : "Quanto às agruras de Galilei, devo dizer sinceramente que o lastimo deveras; pois sempre lhe conservei mais afeição do que ele se dignava de me demonstrar. Quando no ano passado fui interpelado a respeito do seu livro (II Diálogo) sobre o movimento da terra, esforcei-me por acalmar os ânimos. excitados e mostrar o alcance dos seus argumentos, de modo que alguns externaram sua admiração, de que eu, considerado como seu adversário ofendido, guardava tão pouco ressentimento e falava com tanto ardor em seu favor. Galilei mesmo se atirou à ruína, tendo opinião por demais lisonjeira do seu gênio, e desprezando os trabalhos dos outros; ele não deveria se admirar de que todos o impugnam".

Quão diferente das permanentes invectivas de Galilei é esta linguagem nobre.

Estudando a vida do sábio obtém-se a impressão de que ele se considerava quase infalível. Nunca retratava suas opiniões. Os outros erravam, ele não. Assim chegou ao ponto, reconhecido por conhecedores dos fatos históricos, de não aturar a menor oposição. Qualquer crítica objetiva de suas idéias ele a considerava corro sinal de inveja, de inimizade. Replica com ataques veementes e nem se torna consciente de sua violência. Basta ler uma carta sua, escrita poucos dias depois do decreto de 1616. Ele exalta a prontidão com que se sujeitou às ordens eclesiásticas. "Nenhum santo o teria feito melhor". Porém logo levanta contra os mesmos "adversários , a acusação de "malignità, calunie, ogni diabolica suggestione". Do seu lado só reconhece calma e domínio próprio (flemma e temperanza), enquanto no partido adversário trabalharam "do modo mais odioso" na destruição de sua reputação. Assim porém não pensavam seus amigos, alarmados pela "turbulência de Galilei que deitava tudo a perder".

Os fatos históricos que acabamos de expor nos autorizam a fazer o seguinte reparo. Onde quer que Galilei aparecesse, achava farta admiração pela agudeza do seu espírito e elegância de sua dialética, mas também provocava oposição por seus modos apaixonados. Em particular, pensadores sérios que, principalmente em Roma, nunca faltavam, sentiam-se chocados pelas opiniões arriscadas de Galilei, proferidas em tom de profeta. Não pode haver dúvida que o próprio caráter violento de Galilei, nascido para a luta, foi a causa principal das suas perpétuas agruras e de sua desgraça final. Nunca retrocedia quando a prudência ou a caridade tal aconselhavam. Começou pois, segundo as palavras de Guicciardini, com certo fatalismo "a travar uma luta contra os prelados romanos em que só podia ser derrotado".