A PROIBIÇÃO DO LIVRO DE COPÉRNICO.

A propaganda tão imprudente e apaixonada de Galilei, que lhe valeu a severa proibição de sustentar a doutrina de Copérnico, teve ainda outra conseqüência, mais funesta: a proibição do livro de Copérnico pela Congregação do índice.

Galilei, que mostrou tanta habilidade em provocar seus adversários, também fizera o que dele dependia para provocar em particular a proibição de Copérnico. Na sua carta à grã-duquesa Cristina ele tinha escrito: "Querendo apagar no mundo as idéias de Copérnico, não basta impor silêncio a um só homem (o próprio Galilei), mas deve-se proibir a obra de Copérnico e todos os livros de autores que pensam do mesmo modo e até a mesma ciência da astronomia. E não basta riscar um ou outro tópico do livro, mas é preciso suprimi-lo completamente". Portanto a , Congregação do Índice ocupou-se do livro indicado e o proibiu e também "todos os livros de autores que pensam do mesmo modo".

Os tópicos do decreto que nos interessam são os seguintes: "...E porque chegou ao conhecimento da mesma S. Congregação que aquela falsa doutrina pitagórica, de todo contrária à Sagrada Escritura, da movimentação da terra e imobilidade do sol, que Nicolau Copérnico ...e também Didaco Astunica... ensinam, já se divulga e é aceita por muitos... decreta (a Congregação) que os mencionados Nicolau Copérnico e Didaco Astunica... devem ser suspensos até serem corrigidos... e, da mesma forma, devem ser proibidos todos os livros que ensinam o mesmo..."

Este funesto decreto é sem dúvida um dos atos mais infelizes jamais realizados por um órgão oficial da Igreja Católica. Condena uma verdade das ciências naturais e o faz por um motivo religioso. Não se pode desculpar os autores, os teólogos do S. Oficio, de grave imprudência.

Podia-se-lhes objetar a mesma razão de que eles inculpavam a Galilei. Se o leigo Galilei não devia se intrometer em questões teológicas, os teólogos por sua vez não deviam invadir o campo das ciências naturais.

Confessando assim a gravidade do erro, não podemos omitir de realçar também as valiosas atenuantes.

Obrigados pelas provocações incessantes de Galilei e as reclamações, às vezes não menos apaixonadas, dós seus adversários, a declarar-se em uma questão cuja solução ainda não estava madura, os juizes preferiram ficar com a tradição que, e com razão, não queriam abandonar sem provas convincentes do contrário. Nesta posição ninguém mais os confirmou do que o próprio Galilei, pois com seu argumento principal evidentemente falso ele convenceu os juizes que o novo sistema não estava provado.

Assim pensava o mesmo Papa Paulo V. Em 1624 o Cardeal Zollern pediu ao Papa que se procedesse cautelosamente na questão de Copérnico. O Papa respondeu que o sistema não fora condenado como herético, nem se tencionava fazê-lo, mas só como temerário; do resto não havia perigo que jamais seria provado como o único certo.

Estas palavras do Papa alegam também a segunda atenuante. Os juizes procederam com grande cautela. Não concordaram com o parecer dos qualificadores que tachava a nova doutrina de herética, evitaram esta censura e. só declararam que era contrária à Sagrada Escritura. Assim ficava aberto o caminho para abandonar a tradicional interpretação ao pé da letra, concordante com os sistemas antigos, caso o novo fosse provado. já ouvimos que esta era a opinião do Cardeal Bellarmino. O mesmo pensavam os outros membros do S. Ofício, pois, caso contrário, já em anos anteriores teriam condenado a carta de Galilei a Castelli.

Em terceiro lugar suprimiu-se a fórmula rotineira com que o Papa aprovava o decreto, para tanto mais afastar a impressão de que se tratava de uma decisão dogmática.

Aqui convém frisar que não entra em questão a infalibilidade da Igreja Católica. , A infalibilidade é uma prerrogativa da Igreja toda e do Papa quando ensina a toda a Igreja "ex cathedra". Um órgão inferior como o Tribunal da Inquisição não participa da infalibilidade, e disto eram conscientes os autores do decreto de 1616, pois encaravam a possibilidade de ser um dia revogado o mesmo decreto.

Em quarto lugar a proibição do livro de Copérnico foi restringida, se podemos dizer, ao ínfimo grau. O livro foi grandemente louvado, relevada a necessidade de o conservar e só foi proibido "até ser corrigido". Pelo decreto intitulado Monitum, promulgado mais tarde, sabemos que ficava Integra . toda a parte científica do livro e só se exigiam nove correções insignificantes de textos que afirmavam a exatidão do novo sistema. Como exemplo trazemos aqui a sétima correção. O título do capítulo 11 que rezava: "Prova do movimento tríplice da terra" devia ser mudado em: "Da hipótese do movimento tríplice da terra e dos argumentos em seu favor".

Se alguém possuísse o livro de Copérnico, bastava tomar a pena, riscar algumas linhas do prefácio, corrigir algumas palavras e em poucos minutos o livro estava corrigido e deixava de ser proibido. Era facílimo editar o livro com as emendas exigidas. Em suma, o livro era teoricamente proibido e praticamente licenciado.

Não podemos senão admirar a moderação dos teólogos, tão gravemente provocados por Galilei. Se o turbulento matemático não se deixasse arrastar a disputar apaixonada e irreverentemente com os próprios cardeais do S. Ofício, se tivesse consentido em abandonar seus argumentos teológicos, desistir de suas "correrias furiosas", isto é, de sua propaganda inoportuna e restringir-se a argumentos puramente científicos, não se pode duvidar que, ainda em véspera do funesto decreto, ele teria conseguido sua supressão e preservado o mundo inteiro de um escândalo sem par.

Esta afirmação concorda integralmente com os fatos históricos. Só não foi Galilei, mas seus "irreconciliáveis adversários", que ele culpava de "ogni diabolica suggestione", que tentaram uma composição amistosa, para evitar uma decisão funesta.

Poucos dias antes do decreto eclesiástico, o mais notável antagonista e denunciante de Galilei, Frei Tommaso Caccini, procurou em pessoa o adversário. Humildemente pediu desculpa de seus ataques e se declarou pronto para qualquer satisfação. Fez um último esforço para conseguir reconciliação com Galilei. Foi em vão. Galilei não quis sair da sacristia, onde se intrometera indevidamente pelas digressões teológicas, para afinal se contentar com a luneta, as observações e argumentações científicas.

Devido ao caráter infeliz de Galilei, o efeito da visita foi até um agravamento da situação. Interpretando do seu modo as boas intenções do frade, ele só via "hipocrisia, fraude, malícia e pérfida mania de perseguição, e contrapõe suas santíssimas intenções e puríssimo zelo".

Sendo tão intransigente a disposição de Galilei, tiveram que prosseguir as deliberações da corte judiciária. Frei Caccini terá razão quando afirma que Galilei não foi pessoalmente citado perante o tribunal, só por consideração dos seus altos protetores na corte de Florença.

Por culpa de Galilei aconteceu o que o grande Kepler lamentou: "que pela insistência imprudente de certa gente que tratam questões astronômicas em lugar errado e de modo inconveniente, aconteceu que foi agora proibida a leitura de Copérnico, que era livre durante 80 anos".

Kepler era protestante; por defender a doutrina de Copérnico foi hostilizado tanto por seus correligionários que teve que abandonar a Alemanha. Achou refúgio e proteção junto aos jesuítas em Praga. E' o "Caso Galilei" entre os protestantes. Teve em 1619 ainda o desgosto de ver incluído seu livro Epitome Astronomiae Copernicanae ria proibição dos livros que defendiam o novo sistema. Foi a última proibição nominal deste gênero.