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Não podemos negar que o lamentável erro da Inquisição Romana
prejudicou gravemente a fama da Igreja Católica. E' um fato
histórico que forneceu espontaneamente aos adversários da Igreja um
argumento especioso para a atacar e caluniar. Eles não se fizeram de
rogados e desde mais de três séculos, o caso Galilei é explorado em
todas as ocasiões oportunas e importunas e ainda o será da mesma
forma no futuro.
A condenação do livro de Copérnico foi também um golpe inesperado
contra seu grande autor, sábio de extraordinária envergadura,
sacerdote (desde 1933 está provado que era sacerdote) e glória
da Santa Igreja. Sua memória não merecia tal tratamento.
Terá a condenação do novo sistema prejudicado o progresso das
ciências, como afirmam muitos admiradores de Galilei? Até um autor
católico recente ousou afirmar que o caso Galilei com a proibição do
sistema de Copérnico, ou seja, a "disposição hostil da Igreja em
face das ciências", tenha provocado o divórcio hoje existente entre
a ciência e a religião. E' uma acusação injusta da Igreja
Católica, e logo o veremos.
A questão não foi posta só em nossos dias. Desde o aparecimento do
infeliz decreto todos estavam atentos para reconhecer seus efeitos.
Autores católicos sensatos e historiadores negam simplesmente que se
tenha manifestado um entrave ao progresso científico. Assim fala,
p. ex., o Dictionnaire de Théologie Catholique.
A Igreja sempre fomentava todas as ciências e artes antes e não
menos depois do caso Galilei. Para o mesmo Galilei a condenação
foi , uma bênção, porque depois da primeira e mais ainda depois
da segunda condenação, ele se dedicou a trabalhos científicos mais
frutíferos que grandemente enriqueceram a ciência. Coiro o clérigo
Galilei (ele recebera a tonsura para gozar de uma subvenção que o
Papa lhe concedeu depois de sua condenação, até o fim de sua
vida), também outros padres e prelados e muitíssimos fiéis
católicos se destacaram como eminentes homens da ciência.
Em particular o efeito desastroso da proibição do sistema
astronômico de Copérnico deveria ter-se manifestado no próprio
domínio da astronomia. O autor "católico" acima mencionado afirma
que depois do caso Galilei emudeceu a astronomia nas escolas dos
mosteiros e que aos católicos era vedado "estender a mão ao mais
sublime", quer dizer, à astronomia. Um historiador será culpado
de. falsificação, se não pode provar uma afirmação. O autor
evitou de trazer prova, e desafiamo-lo a alegar um único exemplo de
que se tenha supresso o ensino da astronomia, em conseqüência do caso
Galilei. Nós, ao contrário, podemos refutar peremptoriamente a
afirmação pelo fato de que no Colégio Romano o Pe. Grienberger,
Malcote, Grassi e inúmeros outros continuaram a ensinar matemática
e astronomia. Na Alemanha os célebres Padres Scheiner e Kircher
continuavam suas investigações. Na China florescia ainda durante
séculos o célebre observatório dos jesuítas, famosos por seu
intercâmbio científico com os astrônomos de S. Petersburgo. No
século passado, em Roma, o Pe. Secchi granjeou fama mundial.
Atualmente o observatório do Papa, a Specola Vaticana, ocupa
um lugar de destaque no mundo. Onde se manifesta aqui um divórcio
entre a ciência e. a religião?
Como acima já indicamos, em 1620 a Congregação do:. índice
publicou, a conselho do Cardeal Bellarmino, o seguinte: "Monitum
S. Congregationis ad Nicolai Copernici lectorem, eiusque
emendatio, permissio et correctio". Este documento supõe pois
leitores do livro de Copérnico e fala da sua permissão sob a
condição de nove insignificantes correções. O mais importante do
ato é a licença de tratar livremente do novo sistema, sob a única
condição de o tratar corno hipótese. O católico tinha pois toda a
liberdade de ler o livro de Copérnico corrigido, de considerar o
universo constituído segundo a sua teoria, de o tratar como tal em
suas investigações, cálculos, publicações. Assim procedeu, p.
ex., o P. Riccioli S. J., editando em 1651 seu
"Almagestum novum, astronomiam veterem novamque complectens".
Podia procurar argumentos a favor do novo sistema. A única
condição era de não o declarar mais firme do que os argumentos.
Já o Cardeal Bellarmino, o astrônomo Pe. Grassi e mais tarde,
em 1661, o Pe. Fabri S. J., penitenciário papal, eram de
aviso que se devia conservar a antiga interpretação da Sagrada
Escritura até uma prova convincente mostrar o contrário. Eis as
palavras do Pe. Fabri: Depois de chamar a atenção em que os
defensores do sistema copernicano nem ousavam afirmar que existia um
argumento peremptório a favor de sua causa, ele continua: "Mas, se
alguma vez vós trouxerdes aquele argumento, nesse caso a Igreja não
hesitará de modo algum em declarar que aqueles textos (da Sagrada
Escritura) devam ser entendidos no sentido figurado e impróprio,
como aquelas palavras do poeta: "Terraeque urbesque recedunt",
"(vistas do navio) as terras e as cidades recuam". Deste e de
outros textos alegados vemos também que os jesuítas foram injustamente
acusados de terem perseguido a Galilei.
Não afirmar teorias além dos argumentos já é um postulado da sã
lógica. Pode-se exigir mais ampla liberdade para o astrônomo
católico, para não falar das outras ciências, onde não existia a
menor restrição oficial.
Pode-se até afirmar que pelo decreto romano a investigação sobre a
verdade do novo sistema sofreu antes uma intensificação. O tema
tornou-se tanto mais interessante e palpitante. Não foram só os
protestantes que se "converteram". Já em 30-7-1638 o Pe.
Castelli escreveu a Galilei que em Roma um jesuíta defendeu
publicamente a tese: que o sistema de Copérnico podia ser refutado
pela Sagrada Escritura, porém não por razões astronômicas.
Em 1656 apareceu em Roma uma refutação dos argumentos contra
Copérnico, item em 1661 e 1669 em Pádua. Por conseguinte
também teve pouca importância de a proibição teórica de Copérnico
se ter conservado no índice até 1835, quando, por ocasião de
uma nova edição, Copérnico não foi mais mencionado. Desde
Newton (1686) e Bradley (1725) existiam as provas
necessárias e já muito tempo antes de 1835 o sistema de
Copérnico tinha achado acesso nas escolas católicas.
Aos autores católicos não se pode acusar de terem idéias
acanhadas. Antes eles se. mostram prontos demais para conceder
efeitos funestos dos decretos contra Copérnico e Galilei. Ouçamos
um historiador de nome (G. Schnuerer) : "Os decretos geraram
entre os católicos uma profunda desconfiança que os impedia de
colaborar alegremente nestas investigações (das ciências
naturais). Se naquele tempo os Papas tivessem dado tanta animação
a estes exploradores, como aos artistas do barroco, talvez não
teríamos de chamar a segunda parte do período barroco: o tempo do
crescente racionalismo..."
Estas palavras, mitigadas por um prudente "talvez", não parecem
reproduzir a realidade. Será impossível prová-las.
O autor lembra os favores que os Papas. concediam aos artistas.
Digamos mais, não só em Roma, mas em todo o mundo católico e em
todos os tempos, as artes, como música, pintura, arte plástica,
receberam animação e incremento pela religião católica. E
contudo, hoje estas artes estão tão "divorciadas da religião" como
as ciências indutivas. Em toda parte se ouve música leviana, se vê
arte imoral. Também o fomento papal das ciências não as teria
desviado de semelhante rumo anti-religioso.
Concedemos que a Igreja não mostrava tanto interesse pelas novas
ciências como pelas artes, que serviam para embelezar o culto divino.
Porém esta atitude não tem nexo com o caso Galilei.
Nem se deve exagerar a abstenção da Igreja. Naquele tempo estava
em florescente crescimento a Ordem da Companhia de Jesus, que tomou
parte muito ativa nas investigações, e o autor acima deve
concedê-lo logo após suas afirmações contrárias.
Ficamos pois com aqueles que negam ou reduzem a um mínimo a
influência funesta do caso Galilei, quanto ao progresso das
ciências. Resumimos: Nas regiões protestantes há pelo menos
tantos cientistas descrentes e materialistas como nas regiões
católicas. Se não houvesse caso. Galilei, as ciências não
estariam hoje, mais adiantadas do que são, nem seria maior o número
de cientistas católicos. Apesar dos decretos romanos, inúmeros
sacerdotes, em particular membros das ordens religiosas, se
distinguiram como investigadores e cientistas. Nisto a Igreja
Católica leva enorme vantagem ao protestantismo, onde poucos pastores
têm nome ,no campo da ciência.
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