AS CONSEQUÊNCIAS DO DECRETO DE 1616.

Não podemos negar que o lamentável erro da Inquisição Romana prejudicou gravemente a fama da Igreja Católica. E' um fato histórico que forneceu espontaneamente aos adversários da Igreja um argumento especioso para a atacar e caluniar. Eles não se fizeram de rogados e desde mais de três séculos, o caso Galilei é explorado em todas as ocasiões oportunas e importunas e ainda o será da mesma forma no futuro.

A condenação do livro de Copérnico foi também um golpe inesperado contra seu grande autor, sábio de extraordinária envergadura, sacerdote (desde 1933 está provado que era sacerdote) e glória da Santa Igreja. Sua memória não merecia tal tratamento.

Terá a condenação do novo sistema prejudicado o progresso das ciências, como afirmam muitos admiradores de Galilei? Até um autor católico recente ousou afirmar que o caso Galilei com a proibição do sistema de Copérnico, ou seja, a "disposição hostil da Igreja em face das ciências", tenha provocado o divórcio hoje existente entre a ciência e a religião. E' uma acusação injusta da Igreja Católica, e logo o veremos.

A questão não foi posta só em nossos dias. Desde o aparecimento do infeliz decreto todos estavam atentos para reconhecer seus efeitos. Autores católicos sensatos e historiadores negam simplesmente que se tenha manifestado um entrave ao progresso científico. Assim fala, p. ex., o Dictionnaire de Théologie Catholique.

A Igreja sempre fomentava todas as ciências e artes antes e não menos depois do caso Galilei. Para o mesmo Galilei a condenação foi , uma bênção, porque depois da primeira e mais ainda depois da segunda condenação, ele se dedicou a trabalhos científicos mais frutíferos que grandemente enriqueceram a ciência. Coiro o clérigo Galilei (ele recebera a tonsura para gozar de uma subvenção que o Papa lhe concedeu depois de sua condenação, até o fim de sua vida), também outros padres e prelados e muitíssimos fiéis católicos se destacaram como eminentes homens da ciência.

Em particular o efeito desastroso da proibição do sistema astronômico de Copérnico deveria ter-se manifestado no próprio domínio da astronomia. O autor "católico" acima mencionado afirma que depois do caso Galilei emudeceu a astronomia nas escolas dos mosteiros e que aos católicos era vedado "estender a mão ao mais sublime", quer dizer, à astronomia. Um historiador será culpado de. falsificação, se não pode provar uma afirmação. O autor evitou de trazer prova, e desafiamo-lo a alegar um único exemplo de que se tenha supresso o ensino da astronomia, em conseqüência do caso Galilei. Nós, ao contrário, podemos refutar peremptoriamente a afirmação pelo fato de que no Colégio Romano o Pe. Grienberger, Malcote, Grassi e inúmeros outros continuaram a ensinar matemática e astronomia. Na Alemanha os célebres Padres Scheiner e Kircher continuavam suas investigações. Na China florescia ainda durante séculos o célebre observatório dos jesuítas, famosos por seu intercâmbio científico com os astrônomos de S. Petersburgo. No século passado, em Roma, o Pe. Secchi granjeou fama mundial. Atualmente o observatório do Papa, a Specola Vaticana, ocupa um lugar de destaque no mundo. Onde se manifesta aqui um divórcio entre a ciência e. a religião?

Como acima já indicamos, em 1620 a Congregação do:. índice publicou, a conselho do Cardeal Bellarmino, o seguinte: "Monitum S. Congregationis ad Nicolai Copernici lectorem, eiusque emendatio, permissio et correctio". Este documento supõe pois leitores do livro de Copérnico e fala da sua permissão sob a condição de nove insignificantes correções. O mais importante do ato é a licença de tratar livremente do novo sistema, sob a única condição de o tratar corno hipótese. O católico tinha pois toda a liberdade de ler o livro de Copérnico corrigido, de considerar o universo constituído segundo a sua teoria, de o tratar como tal em suas investigações, cálculos, publicações. Assim procedeu, p. ex., o P. Riccioli S. J., editando em 1651 seu "Almagestum novum, astronomiam veterem novamque complectens". Podia procurar argumentos a favor do novo sistema. A única condição era de não o declarar mais firme do que os argumentos. Já o Cardeal Bellarmino, o astrônomo Pe. Grassi e mais tarde, em 1661, o Pe. Fabri S. J., penitenciário papal, eram de aviso que se devia conservar a antiga interpretação da Sagrada Escritura até uma prova convincente mostrar o contrário. Eis as palavras do Pe. Fabri: Depois de chamar a atenção em que os defensores do sistema copernicano nem ousavam afirmar que existia um argumento peremptório a favor de sua causa, ele continua: "Mas, se alguma vez vós trouxerdes aquele argumento, nesse caso a Igreja não hesitará de modo algum em declarar que aqueles textos (da Sagrada Escritura) devam ser entendidos no sentido figurado e impróprio, como aquelas palavras do poeta: "Terraeque urbesque recedunt", "(vistas do navio) as terras e as cidades recuam". Deste e de outros textos alegados vemos também que os jesuítas foram injustamente acusados de terem perseguido a Galilei.

Não afirmar teorias além dos argumentos já é um postulado da sã lógica. Pode-se exigir mais ampla liberdade para o astrônomo católico, para não falar das outras ciências, onde não existia a menor restrição oficial.

Pode-se até afirmar que pelo decreto romano a investigação sobre a verdade do novo sistema sofreu antes uma intensificação. O tema tornou-se tanto mais interessante e palpitante. Não foram só os protestantes que se "converteram". Já em 30-7-1638 o Pe. Castelli escreveu a Galilei que em Roma um jesuíta defendeu publicamente a tese: que o sistema de Copérnico podia ser refutado pela Sagrada Escritura, porém não por razões astronômicas. Em 1656 apareceu em Roma uma refutação dos argumentos contra Copérnico, item em 1661 e 1669 em Pádua. Por conseguinte também teve pouca importância de a proibição teórica de Copérnico se ter conservado no índice até 1835, quando, por ocasião de uma nova edição, Copérnico não foi mais mencionado. Desde Newton (1686) e Bradley (1725) existiam as provas necessárias e já muito tempo antes de 1835 o sistema de Copérnico tinha achado acesso nas escolas católicas.

Aos autores católicos não se pode acusar de terem idéias acanhadas. Antes eles se. mostram prontos demais para conceder efeitos funestos dos decretos contra Copérnico e Galilei. Ouçamos um historiador de nome (G. Schnuerer) : "Os decretos geraram entre os católicos uma profunda desconfiança que os impedia de colaborar alegremente nestas investigações (das ciências naturais). Se naquele tempo os Papas tivessem dado tanta animação a estes exploradores, como aos artistas do barroco, talvez não teríamos de chamar a segunda parte do período barroco: o tempo do crescente racionalismo..."

Estas palavras, mitigadas por um prudente "talvez", não parecem reproduzir a realidade. Será impossível prová-las.

O autor lembra os favores que os Papas. concediam aos artistas. Digamos mais, não só em Roma, mas em todo o mundo católico e em todos os tempos, as artes, como música, pintura, arte plástica, receberam animação e incremento pela religião católica. E contudo, hoje estas artes estão tão "divorciadas da religião" como as ciências indutivas. Em toda parte se ouve música leviana, se vê arte imoral. Também o fomento papal das ciências não as teria desviado de semelhante rumo anti-religioso.

Concedemos que a Igreja não mostrava tanto interesse pelas novas ciências como pelas artes, que serviam para embelezar o culto divino. Porém esta atitude não tem nexo com o caso Galilei.

Nem se deve exagerar a abstenção da Igreja. Naquele tempo estava em florescente crescimento a Ordem da Companhia de Jesus, que tomou parte muito ativa nas investigações, e o autor acima deve concedê-lo logo após suas afirmações contrárias.

Ficamos pois com aqueles que negam ou reduzem a um mínimo a influência funesta do caso Galilei, quanto ao progresso das ciências. Resumimos: Nas regiões protestantes há pelo menos tantos cientistas descrentes e materialistas como nas regiões católicas. Se não houvesse caso. Galilei, as ciências não estariam hoje, mais adiantadas do que são, nem seria maior o número de cientistas católicos. Apesar dos decretos romanos, inúmeros sacerdotes, em particular membros das ordens religiosas, se distinguiram como investigadores e cientistas. Nisto a Igreja Católica leva enorme vantagem ao protestantismo, onde poucos pastores têm nome ,no campo da ciência.