NOVAS ESPERANÇAS.

No processo de 1616 Galilei foi tratado com a maior moderação. Não houve sentença judicial, nenhum livro dele foi proibido nominalmente, sua fama não sofreu diminuição. Antes de sair de Roma, Galilei foi recebido pelo Papa Paulo V, que teve a consideração de o consolar e de se entreter amigavelmente com ele. Assegurou ao sábio, que tanto ele mesmo como também a Congregação lhe votavam tanta estima que não prestariam ouvidos a calúnias. Enquanto vivesse, disse o Papa, Galilei podia ficar sossegado.

Quanto ao decreto do S. Ofício, Galilei prometera obediência, também o chamou de sábio e salutar, mas não deixou de disputar apaixonadamente contra o mesmo decreto. Aqui se nos depara mais um lado do caráter de Galilei, a sua falta de sinceridade que ainda encontraremos várias vezes. Um dos historiadores de Galilei chama a atenção sobre o fato de ele se deixar arrastar tanto pelo ardor da peleja, que torce a verdade e outras vezes a falsifica completamente. E' preciso considerar com muita discrição o que ele afirma dos seus adversários. Ele chegou ao ponto de considerar cada crítica de suas opiniões como sinais de inveja, ódio e até malícia diabólica.

Durante alguns anos Galilei viveu retirado em Florença, entregue a seus estudos. Continuava copernicano. Em desobediência à promessa dada de não defender o novo sistema, dedicou seu argumento dás marés ao arquiduque Leopoldo da Áustria. Afora duas polêmicas contra os jesuítas Scheiner e Grassi, ele se absteve de novas publicações e só por causa de disputas orais ou talvez cartas confidenciais; Roma não julgou oportuno intervir.

Em 1623 deu-se um acontecimento faustoso para Galilei; seu grande amigo, o Cardeal Maffeo Barberini, foi eleito Papa e tomou o nome de Urbano VIII.

Urbano VIII nunca fora peripatético; em sua presença Galilei podia atacá-los livremente. Também era "Astronomicarum rerum scientissimus" e Galilei lhe agradecia em suas cartas os "muitos" favores recebidos. Com este fautor no trono, papal, o defensor de Copérnico concebeu novas esperanças. Para se inteirar ainda melhor da situação foi a Roma em 1624.. Também desta vez foi distinguido com muitas demonstrações de honra. O próprio Papa o recebeu nada menos de seis vezes em longas conversas e o presenteou com um belo quadro e duas medalhas de ouro e prata. Num breve papal de recomendação ao grão-duque de Toscana, que mandou entregar a Galilei, ele era enaltecido como sábio, cuja glória resplandece no céu e percorre o mundo.

Na mesma permanência em Roma, Galilei foi recebido também honrosamente pelo Cardeal Francesco Barberini e por outros cardeais, como Boncompagni, Cobelluzio, Frederico de Hohenzollern.

Depois de sua volta, Galilei continuava a receber notícias auspiciosas de Roma. O jesuíta Grassi tinha falado da possibilidade de mudar a interpretação da Sagrada Escritura. Sua polêmica contra Grassi fora denunciada à Inquisição, mas um parecer de Guevara, Geral dos Clérigos Menores Regulares, louvara o escrito e o mesmo Guevara dissera que a doutrina do movimento da terra não lhe parecia merecer censura, mesmo quando defendida (por escrito).

O Papa falava muitas vezes de Galilei, em expressões de grande afeição. O Cardeal Barberini afirmava que Galilei não tinha amigos melhores do que ele mesmo e o Papa. De suma importância era que Ciampoli, adepto. de Galilei, tinha grande influência como secretário do Papa e mais ainda que Riccardi, amigo não menos dedicado, era consultor da Inquisição e mais tarde, 1629, se tornou Mestre do Sacro Palácio, isto é, primeiro censor da Inquisição. Segundo Castelli, o amigo indefectível de Galilei, esta última notícia foi decisiva. Convenceu-se Galilei que sua hora tinha chegado e que poderia novamente, e sem perigo, defender o sistema de Copérnico. Pôs mãos à obra.

Devemos aqui, o que passa geralmente despercebido aos autores, distinguir duas tentativas de Galilei, para defender novamente o sistema heliocêntrico.

A primeira data já do ano 1624. Depois de sua volta de Roma, e sob impressões ali colhidas, ele se lembrou de uma publicação feita, havia oito anos, por um certo Monsenhor Ingoli, contra o sistema de Copérnico. Galilei resolveu agora refutar as razões de Ingoli.

já em Setembro do mesmo ano o trabalho estava pronto, e Galilei o mandou a seu amigo Guiducci em Roma, para ser ali publicado. Era uma defesa de Copérnico, uma flagrante desobediência aos decretos de 1616 e agravo à promessa feita, no mesmo ano, em presença do Cardeal Bellarmino.

E' difícil compreender como o autor podia arriscar este passo. Ingoli era desde 1622 secretário da Propaganda, portanto influente para revidar energicamente o ataque. Além disto Galilei sabia que Kepler tinha dado as mesmas réplicas, è o livro dele fora posto no Índice dos livros proibidos. Como podia esperar para si sorte melhor? E não fala veladamente, como é de ver, p. ex., no texto seguinte: "Hoje é mais claro do que o sol, que não a terra, mas sim o sol se acha no centro". E' preciso notar esta clara afirmação, para a confrontar com suas respostas no processo de 1633.

Os amigos romanos de Galilei revisaram o trabalho e ficaram desapontados. Como publicar um tratado que de antemão estava votado ao Índice? O estranho personagem Ciampoli referiu ao Papa que era uma defesa dos decretos romanos. Mas os outros galileianos de Roma não eram deste aviso. Contemporizavam primeiro e finalmente o príncipe Cesi deu uma negativa formal. Guiducci o escreveu a Galilei (18-4-1625): "Na carta contra Ingoli a doutrina de Copérnico é defendida "ex professo". Embora se diga ao mesmo tempo que de fonte mais alta ela é reconhecida como errada, sem dúvida "gente menos séria" não o acreditará e fará barulho..."

Assim já em 1625, pela vigilante prudência dos seus adeptos, Galilei foi preservado de um encontro funesto com a Inquisição. Fora um aviso sério, dado desta vez não por palavras, mas por atos inequívocos. Oxalá Galilei tivesse anuído ao juízo dos amigos sinceros! Porém mostrou-se incapaz de reconhecer os sinais do tempo. "Abandonado até pelos, amigos", tratou de se ajudar por próprias forças.

No espaço dos últimos vinte anos Galilei recebera tantas demonstrações de estima, honra, admiração, que de certo modo perdera o sentido da realidade, considerando-se superior a todos e infalível. Não reconhecera que na sua polêmica com o Pe. Grassi, sobre os cometas, seu adversário estava com a razão. Tão pouco admitia as graves e bem ponderadas objeções contra seu argumento predileto das marés. Este argumento lhe parecia tão valioso que o novo livro que ia escrever, devia ser intitulado: Dialogo del flusso e riflusso. Devia ser uma obra monumental que peremptoriamente resolveria a questão da verdadeira constituição do universo e obrigaria a Inquisição de Roma a retratar sua decisão de 1616. O trabalho durou vários anos (segundo o mesmo Galilei: 10 a 12 anos) e foi concebido em forma de diálogos entre três personagens: Salviati expõe os argumentos a favor de Copérnico, Sagredo representa o leitor, põe perguntas e se deixa instruir, Simplício defende o sistema de Ptolomeu e o ponto de vista eclesiástico. Quanto ao conteúdo o livro traz três argumentos principais, das órbitas planetárias, das manchas solares e das marés.

Mas Galilei sabia que lhe fora vedado o novo sistema sob a ameaça de ser sentenciado pelo tribunal da Inquisição. Para prevenir este perigo resolveu pedir aos mesmos juízes em Roma a autorização de publicar sua obra. Não era seu grande amigo Riccardi primeiro censor da Inquisição e como tal autorizado a dar o almejado Imprimatur?