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O grande historiador dos Papas, barão de Pastor, diz o seguinte:
"Na luta pelo imprimatur, Riccardi preenche um papel lamentável.
Não sendo legislador e só incumbido com a execução das leis
papais, ele devia, em face do seu dever de censor, renunciar a
considerações de amizade e negar decididamente a licença de
impressão aos Diálogos de Galilei. Em vez de tomar tal posição
decidida, ele oscila entre seu dever e as considerações com o
célebre cientista, o embaixador toscano, seu parente, e a corte de
Florença. Diante da pressão dos amigos de Galilei, ele cede,
passo por passo, animando-os assim para esforços dobrados, até
finalmente, com espanto, se achar diante do desfecho trágico,
provocado por si mesmo, e ter causado a desgraça de Galilei". E'
verdade que ele podia trazer a desculpa de Galilei lhe ter ocultado a
proibição pessoal de defender Copérnico, feita em 1616.
Uma influência nefasta exerceu o secretário papal, Ciampoli.
Notando os receios de Riccardi, ele afirmou ser a publicação do
livro a vontade do Papa. Mas Urbano VIII ignorava tudo, nem
dera ordem a respeito da publicação.
Riccardi confiou a revisão dos Diálogos a seu confrade Visconti,
que deu um parecer favorável. Por conseguinte, Riccardi exigiu só
algumas mudanças e se mostrou inclinado a permitir a impressão, mas
decidiu que as provas tipográficas lhe fosse apresentadas. Esta
decisão já incluía a licença de impressão. Entretanto Galilei
voltou a Florença e resolveu fazer ali a impressão. Riccardi o
concedeu sem renunciar à revisão das provas. Objetou Galilei que
reinava a peste e as condições de correio eram pouco seguras.
Novamente cedeu Riccardi, contentando-se com o primeiro e último
fascículo. Para o resto do livro determinou como censor em Florença
o dominicano Stefani, e o autorizou a permitir a impressão.
Riccardi pós ainda algumas condições. O novo sistema não devia
ser tratado como certo mas só como hipótese matemática. Como
finalidade da obra devia transparecer a defesa dos decretos romanos
contra Copérnico, explicando que na Itália a questão era
perfeitamente conhecida e que os decretos não foram dados por
ignorância.
A partir deste momento tudo corria sem obstáculos. Stefani entendeu
que a obra já tinha licença de Roma. Galilei por sua parte falou da
veneração que votava às autoridades eclesiásticas, da sujeição
com que declarava sonhos, quimeras, erros, conclusões falsas todas
as razões e argumentações contrárias aos decretos de Roma. Assim
podia-se reconhecer com que sinceridade ele confessava nunca ter tido
outras opiniões e intenções, fora aquelas dos "santíssimos e
estimadíssimos padres e doutores da Igreja". Stefani verteu
lágrimas em face de tanta sujeição e deu a licença de impressão.
Os autores que se riem dos teólogos romanos de se terem deixado
enganar por um italiano, mais astuto do que eles, confessam
abertamente que Galilei cientemente os induziu em erro.
A batalha estava ganha. Rapidamente se fez a impressão e em breve
Riccardi teve em mão um exemplar da nova obra, onde, com espanto,
viu impresso no frontispício seu próprio Imprimatur.
Não há dúvida de que todos os participantes da luta pelo Imprimatur
são culpados. Ciampoli tinha dado informação inverídica sobre a
vontade do Papa Riccardi, enganado por Ciampoli e Galilei, dera
licença para imprimir um livro cujo conteúdo ignorava. Visconti e
Stefani não se mostraram capazes de ver os graves defeitos da obra.
A falta mais grave foi o jogo duplo de Galilei, que logo devemos
considerar.
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