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5. Além do valor que o Rosário tira da própria natureza da oração, ele contém uma maneira
fácil para fazer penetrar e inculcar nas almas os dogmas principais da fé cristã; o que
certamente constitui outro título insigne de recomendação. De feito, é sobretudo pela fé que o
homem direta e seguramente se aproxima de Deus e aprende a adorar com a mente e com o
coração a imensa majestade desse Deus único, a sua autoridade sobre todas as coisas, o seu
sumo poder, a sua sabedoria e a sua providência: "porquanto, quem se aproxima de Deus
deve crer que Ele existe, e que é remunerador daqueles que o procuram" (Heb 11, 6). Mas,
visto que o eterno Filho de Deus assumiu a natureza humana, viveu no meio de nós, e
continua a ser para nós caminho, verdade e vida, por isto é necessário que a nossa fé abrace
também os profundos mistérios da augusta Trindade das divinas pessoas, e do Filho
unigênito do Pai, feito homem: "E a vida eterna é esta: que eles conheçam a ti, único Deus
verdadeiro, e Aquele que enviaste, Jesus Cristo" (Jo 17, 3). Em verdade, Deus nos deu um
benefício inestimável quando nos deu esta santa fé; porque, por meio dela, nós não só nos
elevamos acima de todas as coisas humanas, até nos tornarmos como que contempladores e
participantes da natureza divina, mas adquirimos outrossim um direito, de mérito imenso, às
eternas recompensas. De modo que se alimenta e se consolida em nós a esperança de que um
dia poderemos contemplar a Deus, não mais através das pálidas imagens das coisas criadas,
porém no seu pleno esplendor, e poderemos gozar eternamente d'Ele, nosso sumo bem. Mas
o cristão é de tal forma empolgado pelas diversas preocupações da vida, e se inclina tão
facilmente para as vaidades deste mundo, que, sem uma freqüente e salutar evocação, pouco
a pouco esquecerá as coisas mais importantes e mais necessárias, e destarte a sua fé se
esmorecerá e finalmente se extinguirá. Para preservar seus filhos deste gravíssimo perigo da
ignorância, a Igreja não descura nenhum dos meios que a sua vigilância e a sua solicitude lhe
sugerem; e o Rosário em honra de Maria não é, certamente, o último que ela emprega para
sustentar a fé. Com efeito, com a sua maravilhosa e eficaz oração, ordenadamente repetida,
ele nos leva à recordação e à contemplação dos principais mistérios da nossa religião: em
primeiro lugar, daqueles pelos quais "o Verbo se fez carne" e Maria, Virgem intacta e Mãe,
lhe prestou com santa alegria os seus maternais ofícios. Vêm depois as amarguras, os
tormentos, a morte de Cristo, preço da salvação do gênero humano. Finalmente, são os
mistérios gloriosos: o triunfo sobre a morte, a ascensão ao céu, a descida do Espírito Santo;
o esplendor radiante de Maria assunta ao céu, e, por último, com a glória da Mãe e do Filho,
a glória eterna de todos os Santos. E esta a ordenada sucessão de inefáveis mistérios no
Rosário é freqüente e insistentemente evocada à memória dos fiéis, e como que desenrolada
diante dos seus olhos; de modo que aqueles que rezam bem o Rosário têm a alma inundada
por ele de uma doçura sempre nova, experimentam a mesma impressão e emoção que
experimentariam se ouvissem a própria voz de sua dulcíssima Mãe, no ato de lhes explicar
esses mistérios e de lhes dirigir salutares exortações. Não poderá, pois, parecer excessiva a
Nossa afirmação, se dissermos que a fé absolutamente não deve temer os perigos da
ignorância e dos nefastos erros naqueles lugares, no seio daquelas famílias e no meio
daqueles povos onde se mantém na primitiva honra a prática do Rosário.
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